DEMOCRACIA

“A misoginia reinou”: Isolda Dantas fala dos desafios enfrentados como deputada e a Assembleia Legislativa dos sonhos

Isolda Dantas está na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte desde janeiro de 2019, ocupando o cargo de deputada estadual. Antes, foi vereadora de Mossoró. Os dois mandatos foram conquistados dentro do Partido dos Trabalhadores (PT), em que Dantas carrega orgulho de militar e construir. Feminista, busca levar o sonho de um outro mundo para dentro da Casa, o que nem sempre é fácil, admite. 

“Eu sou feminista há muitos anos e eu sempre analisei a sociedade tendo o feminismo como uma ferramenta. Então a gente percebe que a sociedade é necessariamente estruturada no machismo, no patriarcado, é uma sociedade androcêntrica e por isso a dificuldade que a gente tem de atuar em vários segmentos e principalmente na política”, afirma.

Num dos casos recentes, o deputado bolsonarista Michael Diniz (Solidariedade) posou em frente ao gabinete de Isolda fazendo o gesto de “arminha”. A deputada o denunciou por quebra de decoro parlamentar. “Política é um dos espaços mais masculinizados e que o tempo todo sua estrutura nos empurra para fora dela”, lamenta. “Quando eu fui eleita deputada, a gente tinha mais ou menos noção do que enfrentaria isso aqui na Assembleia, mas não tínhamos dimensão de que seria tanto assim”, revela.

Outro momento lamentável, segundo ela, foi com o também bolsonarista Coronel Azevedo (PL). Em 2019, ele sugeriu que a deputada ficava “excitada” com os seus discursos. “Uma coisa mais nojenta, né? Isso foi meu primeiro impacto aqui. Recebi muita solidariedade do movimento feminista, do movimento de esquerda. Isso é muito importante porque quando a gente sofre agressão, e que a gente recebe solidariedade, a gente tem noção de que não estamos só. Então isso é muito bacana”.

Isolda diz que, ao chegar na ALRN, se deparou com pessoas a vendo como um “bicho estranho” devido aos estereótipos incrustados no fato de ser feminista. “As pessoas esperavam ver alguém extremamente desabilidosa, mal amada, mal arrumada, que não se relaciona com ninguém, que tem ódio de homem. Eu sou exatamente o contrário disso. Até os servidores tinham essa impressão da gente, é engraçado isso”, comenta.

Com o início dos trabalhos do mandato, diz que buscou fazer dele um “ato coletivo e de muita qualidade”. Mesmo com os 123 projetos de lei apresentados, cerca de 60 aprovados e mais de 1300 requerimentos, o machismo não se afastou. “Muito pelo contrário. A misoginia reinou. Aqui, quanto mais a gente aparecia como a mais produtiva, quanto mais os nossos projetos de lei ganhavam margem, principalmente em Natal, mais os cara tinham raiva, mais eles se sentiam provocados”.

Apesar dos momentos negativos, busca levar o poema de Mário Quintana para a vida, tanto pessoal como política: “Eles passarão… eu passarinho!”. Com a leveza da poesia em mente, levou pautas de esquerda para frente mesmo com os episódios de misoginia. “Porque a gente não está só. A gente sabe de onde veio, onde está e para onde vai. Os nossos caminhos são muitos sólidos, porque a gente tem certeza que caminha ao lado dos movimentos sociais e da classe trabalhadora”, avisa.

“Eu não sou adepta daquela ideia de mais mulher na política de qualquer jeito”

Com apenas três mulheres deputadas, entre os 24 da Assembleia, Dantas diz que conseguiu levar adiante projetos tidos como de “esquerda”, apesar de alguns parlamentares conservadores. 

“A Casa é extremamente política. Então, por exemplo, tem processos que eles não conseguem ser contrários porque vai pesar contra eles. Por exemplo, no processo da aprovação da Lei da Cannabis Medicinal, a gente fez um processo tão bonito que mesmo os deputados extremamente conservadores não tiveram coragem de votar contrário porque sabiam que isso ia pesar contra eles”, afirma. 

Sancionada em janeiro pela governadora Fátima Bezerra (PT), a Lei assegura o direito de qualquer pessoa ter acesso ao tratamento com produtos à base de Cannabis para uso medicinal, desde que tenha prescrição de profissional habilitado e que atenda às disposições da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). 

Mesmo seu gênero sendo minoria na ALRN, Dantas não concorda com a entrada de mulheres na política “de qualquer jeito”, como define. “Eu sou adepta de mais mulheres na política que tenham uma perspectiva de construir igualdade entre homens e mulheres. Eu defendo mais mulher na política, mas mais mulher feminista, mais mulher de esquerda, que é isso que altera a vida das mulheres”, pontua.

“E acho que é muito importante a gente fazer sempre esse recorte, porque senão a gente vai achar que apenas a identidade de gênero resolve o problema e não resolve. A gente precisa ter um projeto político. Quando a gente tem uma mulher feminista e de esquerda, aí sim faz diferença na política. A gente tá fazendo política dentro de um projeto, não a partir da ideia do indivíduo”. 

Verbo “esperançar”

Perguntada sobre o que espera da Assembleia Legislativa para 2023, caso seja reeleita, Isolda é enfática. “Eu tenho muita esperança, sou do verbo ‘esperançar’. Nós vamos eleger Lula presidente, nós vamos eleger Fátima governadora e você imagina essas lideranças juntas, lutando pelo Rio Grande do Norte. Como parlamentar, eu quero continuar defendendo e insistindo na defesa da nossa Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, que também foi um símbolo para nós nesse mandato”. 

Além disso, Dantas cansou de se “lamentar” e quer avançar em outras áreas. Acho que a gente tem que avançar em políticas de proteção às mulheres na perspectiva de antecipação da violência. Eu não quero mais só lamentar e ter política para acolher as mulheres quando elas forem agredidas. Eu quero construir política que antecipe, para que elas não cheguem ao ponto de sofrerem violência”, defende. 

A política na implementação dos Institutos Federais de Educação Tecnológica (IERN) é outra batalha que quer travar, assim como mais crédito e assistência técnica para as famílias oriundas da agricultura familiar. “Nós vamos incidir como parlamentar nesse processo, e acima de tudo contribuir de forma decisiva junto com a governadora para que o Rio Grande continue tendo Norte e possa ser um estado que cresça”.

Orgulhos

Os projetos apresentados em mais de três anos são muitos, e os projetos que fazem os olhos da deputada brilharem, também. Além do projeto da Cannabis Medicinal, Isolda comemora diversos outros. A Agência Saiba Mais lista a seguir as leis citadas pela deputada como vitória dentro do mandato.

– Na agricultura familiar: o Programa Estadual de Compras Governamentais da Agricultura Familiar e Economia Solidária (Pecafes), que obriga que pelo menos 30% dos alimentos comprados pelo governo sejam oriundos da agricultura familiar, além da Lei de Sementes, que determina que o Governo do RN compre sementes crioulas de agricultores familiares;

– Mulheres: Delegacia Virtual, a conquista da casa abrigo para mulheres vítimas de violência e a Lei do Feminicídio, marcada para 15 de julho e a lei que assegura às mulheres a matricular seus filhos em outras escolas quando elas têm que se mudar por serem vítimas de violência contra a mulher;

Juventude: assistência estudantil, “porque os filhos da classe trabalhadora precisam ter auxílio para seguir estudando”;

– LGBT: a criação do Conselho Estadual da População LGBT e a Política de Saúde para a População LGBT;

– Combate ao racismo: Lei de Cotas nos concursos públicos, que determina a reserva de 20% das vagas para negros e negras. “Eu acho que esse é um projeto que marcará a história do Rio Grande do Norte”; 

– Cultura: a instituição da Política Estadual de Cultura Viva no RN e a Lei de Comissão do Filme Potiguar

Polícia: o acesso à igualdade na Polícia Militar. “Antes, só podia ter 5% de mulheres na corporação. A gente enviou um projeto para a governadora, porque só ela poderia mandar esse projeto de lei e acompanhamos essa luta”.

Com a lista, que contempla outras aprovações ao total, Isolda diz que foram “muitas lutas bonitas travadas” e se orgulha do trabalho. “Isso é um ato coletivo que nós fizemos juntos com os movimentos e a vitória é do nosso mandato, da esquerda e sem dúvida nenhuma da classe trabalhadora”. 

Assembleia dos sonhos

A Assembleia Legislativa dos sonhos, para a deputada, vem necessariamente com uma sociedade ideal. “A Assembleia é o extrato da sociedade. Então eu sonho com uma sociedade que veja as mulheres não cidadãos de segunda classe, mas como pessoas protagonistas das suas próprias vidas, com autonomia. Eu imagino uma sociedade onde os LGBTs possam sair livremente nas ruas, sem ter medo, sem achar que vão ser alvo de mais um preconceito. Eu imagino uma sociedade em que a agricultura familiar seja o centro, que tenha uma economia voltada para as pessoas e não para o lucro”, afirma.

“Então quando a gente sonha numa sociedade dessa, sem dúvida nenhuma, a gente pode imaginar ter uma Assembleia que esteja a serviço de construir essa sociedade. Mas isso são sonhos e ainda bem que eles existem, porque eles nos fazem caminhar e a gente nunca para”.

O caminho, segundo Dantas, é sempre acreditar que outro mundo é possível. “Quando a gente alcança um sonho, a gente já tá lá na frente buscando outro. E a gente nunca busca sozinho e nem busca pra gente, como diz Mujica. Nós militantes temos um diferencial. A gente não vai para a luta buscar o nosso. A gente vai buscar o de todo mundo. Então eu imagino a Assembleia que seja reflexo de uma sociedade justa, igualitária, para todos e especialmente para as mulheres e para classe trabalhadora”, almeja.

Clique para ajudar a Agência Saiba Mais Clique para ajudar a Agência Saiba Mais
Artigo anteriorPróximo artigo