OPINIÃO

A religião de Bolsonaro

O desespero está grande.

A medida que a eleição se aproxima e os prognósticos estatísticos vão dando noção de uma certa imobilidade no cenário eleitoral, o grupo que cerca o presidente Jair Bolsonaro vai apelando para todas as estratégias possíveis no sentido de evitar uma derrota vexatória.

Sem ver a derrama de dinheiro no bolso da população carente surtir efeito imediato na virada do jogo eleitoral, com dificuldades em angariar apoio interno e externo para o seu autogolpe, Bolsonaro e seus aliados apelam para Deus… quer dizer, apelam para um deus que parece ser o de uma parte já estatisticamente significativa da população brasileira. Mas… que deus é esse?

Para responder essa intrincada questão teológica é preciso prestar mais atenção nas ações da primeira dama do Brasil.

Michele Bolsonaro é uma das mais fortes militantes da guerra metafísica que, segundo a escatologia bolsonarista, opõe zoroastreanamente o bem contra o mal, a luz contra as trevas. Foi ela a mulher que, durante a campanha de 2018, levou o presidente para os braços de uma das incontáveis igrejas evangélicas que se multiplicaram no país nos últimos anos.

Não bastassem os cultos que atravessam a madrugada no palácio do Planalto a primeira dama foi às redes sociais espalhar vídeos de Lula recebendo um banho de pipoca de adeptos do Candomblé e participando de solenidades com membros de religiões afrobrasileiras. Segundo Michele Bolsonaro, o candidato do PT teria “entregue sua alma às trevas para vencer a eleição”.

Já discorri em outros textos sobre a percepção de Harold Bloom acerca da paixão recalcada que o evangelismo norte americano tem para com a figura do diabo. Desde de que o puritano John Milton escreveu “O paraíso perdido” que o demônio seduz o imaginário de muitos cristãos na terra do Tio Sam. Foram esses wasps (Brancos, anglo-saxões e protestantes) que constituíram um dos impérios mais poderosos da história liquidificando liberalismo político com doses superdimensionadas de maniqueísmo puritano e capitalismo calvinista.

Mas não é só isso. Há uma outra dimensão dessa religião que agora é de Bolsonaro e que também precisa ser compreendida para além dessa fixação em Satanás e seus congêneres.
Existe uma projeção ideal de um judaísmo imaginário que talvez seja até mais forte aqui no Brasil (uma terra com muitos descendentes de cristãos novos portugueses) do que nos EUA.

Essa projeção não parece se dar apenas nos apelos ao Levítico e na busca de um uso normativo do antigo testamento como instrumento jurídico superior a uma constituição laica. Há também uma sedução pelo discurso do profetismo judaico dos séculos VII e VI antes da era comum.

No primeiro caso, se nota uma distorção bastante evidente do que significa realmente um “livro da lei” na perspecetiva judaica. Ora, um dos principais mitos cristãos sobre o judaísmo é que o povo de Abraão, Isaac e Jacó seguiria o “Antigo testamento”. Nada mais equivocado. Na verdade aquilo que os cristãos chamam de “bíblia hebraica”, um recorte de alguns dos textos que compunham o enorme cânone de escrituras judaicas e que foi traduzido para o grego coiné entre os séculos III e I antes da era comum em Alexandria, não é para o judaísmo um objeto de “adoração” mas de estudo. Excluindo obviamente o Sepher Torah, que recebe as honras de artefato sagrado na liturgia das sinagogas, o que temos na tal “bíblia hebraica” é um composto heterodoxo de textos de gêneros diversos, que vão desde de mitos de origem, poemas, narrativas históricas, discursos políticos e aforismas filosóficos.

Diante dessa coletânea pouco homogênea, confesso sempre me comoveu o esforço de alguns teólogos que tentam encontrar argumentos para costurar uma unidade nesse emaranhado de textos que nunca se pretenderam parte de uma obra unitária.

Além do mais, mesmo os conteúdos propriamente jurídicos da Torah não são interpretados no campo do judaísmo normativo sem o auxilio de um outro conjunto de textos que nem em sonho são conhecidos pelos adeptos da religião de Bolsonaro.

Schlomo Sand, o polêmico historiador israelense, já alertou para o fato que até o século XIX o Talmude em suas versões babilônicas e de Jerusalém, era o conjunto de textos mais importantes do judaísmo e que as escrituras da chamada “Bíblia hebraica” só ganharam relevância no século XIX justamente por influência do luteranismo alemão.

A ideia do judeu como um personagem de novela da Record fortalece a noção de que a Bíblia é um documento jurídico e que o projeto cristão, em função disso, além de ser uma continuidade do judaísmo (o mito da tal “civilização judaico-cristã”) é um projeto de poder político tal qual no tempo de David e Salomão.

O desconhecimento da mishná torah (a lei não escrita) e do Gemará leva os cristãos adeptos da religião de Bolsonaro a pensar a Bíblia como um código legislativo, pincelando aqui e ali o mandamento que mais convém ao projeto de poder do líder do momento, que atende muitas vezes a interesses muito pouco republicanos.

O outro aspecto que aparece nessa salada hermenêutica é o apego a retórica do profetismo judaico da época do cativeiro babilônico.

Pensados como textos de exortação à unidade nacional das tribos de Judá contra inimigos externos, especialmente os assírios de Nínive e da “prostituta” Babilônia, os textos proféticos, em sua maioria, explicam a queda do reino de Israel (situado provavelmente onde hoje é a Síria) como fruto de um castigo divino pela idolatria e pela perversão moral de seu povo e advertem que o mesmo acontecerá com Jerusalém.

Essa narrativa de apavoramento político é sempre instrumentalizada pelos adeptos da religião de Bolsonaro como uma forma de “fidelizar” seguidores e cerrar fileiras de um exército de militantes em torno de um projeto de poder que poderia “salvar o Brasil” das trevas movidas pelo pecado de seus habitantes e pelo providencial castigo divino que decorreria desse mesmo pecado.

O curioso desse cristianismo satanofílico que reduz a complexidade e a sofisticação literária do judaísmo a uma coletânea de preceitos moralistas que servem mais a uma ideologia política do que a uma doutrina espiritual é que muito pouco daquilo que de mais central se encontra nos evangelhos canônicos aparece na cena.

O Jesus da religião de Bolsonaro é um “Javé” idealizado por um filosemitismo distorcido e um zoroastreanismo inconsciente, temperado com doses escatológicas de misticismo milenarista.

Uma salada teológica propícia para servir no banquete do conservadorismo mais obscuro e nas trevas de um fascismo que se traveste com a cruz de Cristo para dominar e oprimir.
Na minha opinião, a reflexão que os cristãos que não seguem a religião de Bolsonaro devem ter, quer sejam eles católicos, luteranos, calvinistas, anabatistas, ortodoxos, kardecistas, anglicanos ou o que quer que seja, é a mesma que o filósofo Slavoj Žižek apresenta no seu livro “O absoluto frágil”: a esquerda progressista deve mesmo lutar pelo legado de Cristo ou vamos deixar passivamente que a extrema direita conservadora faça com esse legado o que ela bem entender?

 

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Pablo Capistrano é professor, escritor e filósofo. Escreve às quintas-feiras.