OPINIÃO

Agosto Lilás e a violência psíquica

Por Sheyla Azevedo

A campanha nacional de proteção à mulher denominado de Agosto Lilás chega ao fim no dia 31 de agosto. Mas a violência doméstica não tem data para terminar. A campanha foi instituída pelo Plenário do Senado Federal em 2022, e conta com a relatoria da senadora Nilda Gondim (MDB-PB). A escolha do mês tem a ver com a data de sanção da Lei Maria da Penha, que ocorreu em 7 de agosto de 2006. Quando se fala em violência doméstica, logo pensamos na violência física e nos assassinatos contra mulheres, atos que têm ocorrido com frequência no seio familiar e que, sem sombra de dúvidas, choca as pessoas minimamente sensíveis. Mas, quero aproveitar o tema para falar de um outro tipo de violência: a psíquica, gerada em relacionamentos tóxicos e abusivos que, muitas vezes, antecede a violência física e é passível de causar inúmeros danos emocionais e feridas na alma que são bem difíceis de cicatrizar. Inclusive, a violência física é emoldurada pela violência psíquica que, geralmente, antecede os maus-tratos físicos e atinge não só as mulheres, mas as pessoas em geral, independente de gênero, sexo e idade.

Recentemente, conheci Lídia (nome fictício), uma mulher de 39 anos, mãe de duas filhas, no segundo casamento e sonhando em voltar ao mercado de trabalho após um curso profissionalizante. Durante a conversa, ela não conseguia disfarçar o medo e a vergonha de estar vivendo uma relação abusiva com seu atual esposo. Do mesmo modo, Fernando (nome fictício), 59 anos, aposentado, vivendo num casamento de 28 anos com um homem que, sistematicamente, o desqualifica e não valoriza suas conquistas, o que gerou nele profunda insegurança e autossabotagem. Vidas distantes com um traço em comum: relacionamentos abusivos com parceiros tóxicos, infantilizados, agressivos e fazendo deles alvos constantes de suas próprias insatisfações e frustrações.

Antes de seguir para os sinais que indicam uma relação abusiva, é importante frisar que conflitos nos relacionamentos interpessoais sempre existiram e continuarão existindo. Nenhuma pessoa está isenta, por mais equilibrada que seja de cometer algum ato abusivo contra outra pessoa. Sobretudo nos grupos que fazem parte do convívio íntimo. Mau-humor, xingamentos, desavenças e discussões fazem parte das relações. Porém, em algumas situações, esses conflitos se tornam tão constantes que passam a dar a tônica da relação e, geralmente, é onde vai se fixar a característica de um relacionamento abusivo e existir um abusador e um abusado. Podendo se dar entre mães e filhos; pais e filhos; filhos com seus pais; entre amigos; chefes com seus prepostos; entre colegas de trabalho; um namorado ou namorada; marido e esposa; esposa e marido. As possibilidades são várias.

Uma das características de alguém estar vivenciando um relacionamento abusivo é perceber que está constantemente com medo, raiva, triste, ou em estado de alerta de falar e fazer algo que vai, imediatamente, contrariar a pessoa abusiva e tornar-se alvo de suas críticas, controle, tratamentos de silêncio ou explosões constantes. As pessoas abusadas passam a duvidar de si mesmas, se questionar se não estão “ficando loucas” ou se estão o tempo inteiro erradas. Vale salientar que se você tem dúvidas sobre se o relacionamento é ou não saudável, é porque ele já não está saudável. Geralmente, o relacionamento abusivo vai se instalando de maneira sutil e gradativa. Não vou me ater nesse artigo às nomenclaturas de patologias de transtornos de personalidade como narcisista, narcisista perverso, psicopata ou então sadismo e masoquismo. Nem há a pretensão de demonizar ou vitimizar pessoas que vivem relações tóxicas. Fato é que os indivíduos que estão nesse tipo de relação não têm consciência imediata dos danos que estão vivendo. Inclusive, há a hipótese de que muitas dessas pessoas viveram relações traumáticas na infância e reproduzem e projetam esses relacionamentos na vida adulta.

Então, vamos a alguns sinais que evidenciam que você está diante de uma pessoa abusadora: controle e regulações. Toda as pessoas constroem seus sistemas de crença e regras, sejam vindas da família, da sociedade ou regras próprias. Mas a pessoa abusadora não consegue negociar com as regras do íntimo. Ela precisa impor seu modo de pensar e fica muito contrariada se o outro não faz exatamente igual como ela está pensando! Chegando ao ponto de a pessoa abusada precisar adivinhar quais são essas regras. Ciúmes, a pessoa abusadora cria situações de ciúmes onde não há nenhuma racionalidade. Pode ser uma obsessão, por exemplo, contra uma ex-namorada, um amigo, um filho ou ainda podem ocorrer ataques em situações aleatórias, com pessoas desconhecidas, como um entregador ou algo que aconteça na rua, sem o menor controle ou intenção. A inversão também é constante. Durante a sistemática de abusos, ao perceber que a pessoa abusada está ficando incomodada, a pessoa abusadora tende a desenvolver um mecanismo de defesa que inverte as situações. Sempre se antecipando e realizando uma espécie de campanha difamatória, invertendo os fatos, colocando-se como vítima e apontando os defeitos da outra pessoa, seja para a família ou amigos, isentando-se da responsabilidade nos conflitos internos. Mentiras e traição também podem surgir. Algumas vezes, para sustentar as verdades internas que justificam o abuso, incluindo a traição, a mentira é internalizada e se torna verdade. E, ao acreditar na própria mentira ela não tem qualquer pudor em esconder e enganar a outra pessoa. A sistemática do bate-assopra surge logo após um episódio de abuso psíquico. A pessoa abusiva fica muito “boazinha” e ignora que aconteceu algo grave e age como se tudo estivesse muito bem. A pessoa abusadora não suporta o confronto e não admite ser contrariada. Será gentil por um tempo, até surgir novamente o desejo de subjugar e ver a dor nos olhos da outra pessoa. Outro sinal, mesmo quando há alguma possibilidade de diálogo, é que a pessoa abusadora não consegue reconhecer seus erros e pedir desculpas. Por mais grosseira e violenta que seja – psicológica ou fisicamente – ela sempre se coloca num patamar de superioridade.
Como disse no início, a violência psíquica pode anteceder a violência física. No caso da primeira, quando se trata de duas pessoas adultas, ela não é sustentada por uma única pessoa. Claro que eu não estou negando que uma pessoa que sofreu abusos por anos a fio não seja vítima, sobretudo quando ainda está na infância.

Também não estou negando que um abusador que comete atos de violência física contra alguém não precise ser punido nos rigores da lei. Isso não está em discussão. Mas, nos casos dos abusos psíquicos, ocorridos na intimidade, há uma permissividade por parte da pessoa abusada. De modo que podem ser feitas algumas perguntas tais como: “por que eu me permito?”, “por que eu permaneço numa relação na qual sinto vergonha, medo, raiva ou tristeza a maior parte do tempo?”, ou então: “qual minha parcela de responsabilidade pelo que estou passando?”. Ao tentar responder essas questões, a pessoa abusada poderá sair do discurso vitimista e buscar ser protagonista de suas escolhas e decisões. Claro que existem casos em que a pessoa está muito engendrada na relação, dependente emocional ou financeiramente, que é difícil de sair de imediato. Mas não é impossível. Pessoas abusadas precisam buscar tratamento, apoio, acolhimento, para se libertarem. Vale também para as pessoas abusadoras, quando essas têm o mínimo da consciência danosa de seus atos, e sentem culpa ou remorso pelo que fazem ou fizeram.

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Jornalista e psicanalista