CULTURA

Arpege: comunidade LGBT ocupa ruínas de antigo cabaré de Natal em festa house independente

Com performances e DJs tocando house music, a Houssaca chega à sétima edição ocupando as ruínas de um dos casarões mais famosos de Natal, o antigo e requintado cabaré Arpege, localizado no cruzamento da Travessa Venezuela com a Rua Chile, Ribeira.

O evento será no próximo sábado (6), a partir das 22h, com Eddy, Rozza, Galaxxxy, Elisa Bacche, Dandarona e Pajux. Para performances: Íguia, Eliza Duarte e Aysha. Os ingressos estão disponíveis em outgo.com.br/houssaca. Pessoas trans podem entrar em lista limitada de gratuidade, enviando nome para carlottasilva@hotmail.com com o assunto: Lista Trans Houssaca.

 

O centro histórico sempre foi a casa da festa, que surgiu em 2015 para a comunidade LGBT+ e já foi realizada no Ateliê Bar, no Galpão 29 e na Casa do Poeta Itajubá. Segundo o DJ e produtor Frank Aleixo, a ideia é mostrar como produções independentes conseguem ter valor social ao reocupar espaços.

“Podemos mostrar que é possível levar o natalense pra locais que a própria cidade de Natal não está olhando; trazer novamente as pessoas pra locais que são muito importantes para nossa história, mas que não são tão bem cuidados, que não são tão aproveitados, seja pelo poder público ou pela iniciativa privada”, destaca.

Foto: Victor Icha

Além de valorizar, proporcionar intimidade com lugares antigos e ressignificá-los, a escolha do bairro também é logística. Na opinião de Frank, a Ribeira é acessível a um número maior de bairros de Natal, com mais linhas diretas.

“O público de música eletrônica já é acostumado a frequentar e pra gente sempre interessa levar nossos públicos pra espaços onde possam dançar, conhecer novas pessoas, experimentar novas vivências ao mesmo tempo em que interagem com um lugar que já foi depósito de diversas outras experiências. Eu acho que isso cria uma relação de valorização do que veio antes e isso melhora a nossa construção de identidade também”.

Alguns dos propósitos da festa de música eletrônica são acolher a comunidade LGBT+, promover DJs e artistas e pesquisar as raízes da house music, que segundo conta Aleixo, vem principalmente das comunidades gay, negra e latina.

A história das ruínas

A Houssaca será a primeira festa no espaço que pretende ser mantido com a realização de mais eventos. O atual proprietário, Paulo Camara, adquiriu o terreno em 2021, após o desabamento do prédio, em junho de 2020. Com posse apenas das ruínas, a intenção é preservar agora a memória.

“Quero manter o espaço pra que não seja ocupado com um armazém ou frigorifico. Como é um dos prédios mais famosos da Ribeira, quero ver se fomento eventos dessa natureza, pra manter viva a história daquele local”, conta o empresário e cinegrafista. Aos 60 anos, Paulo lembra o tempo da casa noturna, que chegou a receber shows de Nelson Gonçalves, Waldick Soriano e Altemar Dutra.

“Eu era frequentador do espaço. Era um lugar nobre, chique, frequentado pelas pessoas de classe alta de Natal. E eu andei muito na noite na Ribeira. No início era bacana, depois marginalizou-se até fechar”.

Para ressuscitar a boemia daquela esquina, ele garante que as ruínas estão seguras, com instalação elétrica, banheiros químicos e que o Corpo de Bombeiros já foi convocado para emissão de novo laudo.

Construído em 1904, o casarão abrigou o armazém Secos e Molhados, uma gráfica e no andar superior, até a década de 1990, a casa noturna Arpege. Já serviu de cenário para gravação dos filmes “For All – O Trampolim da Vitória” e “O Homem que Desafiou o Diabo” e em 2010, o prédio foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

 

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Isabela Santos é jornalista e repórter da agência Saiba Mais