OPINIÃO

Capitalismo, liberalismo, escravidão e a centralidade da questão racial

Pedro Junior – Presidente da UNEGRO-RN

A luta para a superação do capitalismo perpassa necessariamente pela consciência de classe. Trabalhadores conscientes da sua condição de exploração e organizados em sindicatos estão a um passo da revolução socialista.

Esse é o mote que aprendi no meu processo de formação socialista. Mas aí, no meu processo de formação de consciência negra, bem como da história da escravização do Brasil e das Américas, me deparei com algumas frases que podem contribuir com o processo revolucionário.

A primeira frase que me fez refletir sobre o tema foi a de Malcolm X, quando ele afirma que para superar o capitalismo é preciso primeiro superar o racismo.

Como nos conta Domenico Losurdo, em seu livro “Contra História do Liberalismo”, a história da escravização moderna e da opressão contra o povo negro, de acumulação primitiva do capital e toda ideologia que fundamentou o racismo, permitiu o desenvolvimento do atual estágio do capitalismo.

Asad Haider, em seu livro “Armadilha da Identidade: raça e classe nos dias de hoje”, citando Painter, quanto ao trabalho e suas transformações para entender como a ideologia racial nasce, escreve:

”O trabalho tem um papel central no discurso racial, pois as pessoas que executam o trabalho tendem a ser percebidas como inerentemente merecedoras da carga e da pobreza do status de trabalhador”. 

Ou seja, o trabalho livre nasce mantendo os mesmos princípios do trabalho escravo, só que agora há uma remuneração, que se assemelha às condições de escravidão.

O que seria do capitalismo e do liberalismo sem a exploração do trabalho escravo nas colônias americanas? O que seria da Europa sem seus lastros de ouro, sem a escravização do negro africano. O que seria das grandes potências mundiais, Inglaterra e posteriormente os Estados Unidos sem a exploração da mão de obra escrava e sua forma atualizada de exploração do trabalhador “livre”?
Portanto, capitalismo, liberalismo e escravização, nasceram em um mesmo período, um dependente do outro. Sem o escravismo moderno o capitalismo como é hoje não vingaria. Sem o financiamento dos liberais, os traficantes de escravos não teriam como raptar negros da África. 

Diante desse histórico, o movimento negro tem chamado atenção dos marxistas, dos partidos de esquerda, das centrais sindicais, dos Juristas progressistas e dos movimentos sociais para a centralidade da questão racial e sua indissociação das categorias raça e classe. Este movimento tem insistido que raça e classe se confundem. Que nos países onde o racismo é estrutural os grupos que são explorados pelo capitalismo se confundem com as classes trabalhadoras. A grande massa de trabalhadores desempregados, o grande contingente de operários no Brasil é de negros.

Quando a categoria “trabalhador” aparece sem a categoria “raça” se omite todo processo da passagem do trabalho escravo para o trabalho livre. É omitido toda uma construção de significados, que são usados para subjugar e tornar aquele trabalhador num ser alienado, ao ponto de contribuir com a classe dominante.

Será que um projeto de desenvolvimento genérico, desconsiderando a questão racial, ignorando o nosso passado escravista, a histórica ausência de reparação, bem como a realidade dos dados de exclusão que o povo negro vivência na atualidade, é capaz de promover o desenvolvimento pleno do Brasil e promover a igualdade racial? Como propor um projeto de desenvolvimento para o Brasil numa estrutura social marcada pelo racismo? Como pensar um projeto de nação sabendo que para superar a realidade cruel vivida pelo povo negro será necessário acabar com privilégios de grupos? Como pensar num projeto de desenvolvimento do Brasil sem destinar volumes vultuosos na melhoria habitacional e sanitária das áreas periféricas das grandes cidades? Como pensar um projeto de desenvolvimento do Brasil sem promover uma reforma agrária, que garanta terras e apoio estatal, para quem quer plantar? Como pensar um projeto desenvolvimentista sem o fomento e apoio estatal a pequenas e microempresas, as cooperativas e comércio local? Como pensar em um projeto de nação com uma política de segurança pública, onde o alvo da polícia é a população negra? Como pensar um desenvolvimento para o Brasil onde a política do encarceramento em massa da população negra não seja um projeto estatal? Como pensar um projeto de nação com uma instituição anacrônica como é a polícia militar, que é a que mais mata e a que mais morre?

Essas questões estão na ordem do dia e precisam constar nos programas de governos e plataformas de campanhas dos candidatos e candidatas ao governo do estado, às assembleias legislativas, ao congresso, bem como à Presidência da República.
Portanto, é dever do Estado, no seu projeto de desenvolvimento, de seu projeto de nação, promover políticas que busquem a inserção dos negros e das negras na sociedade brasileira.

Por fim, conclamo ao povo negro, em especial as mulheres e homens negros das periferias do Brasil: observem se o seu candidato ou candidata incorpora na sua plataforma de campanha a temática racial. Prefira um candidato ou uma candidata negro/a progressista.

 Essa é a hora de se livrar dos racistas na política. Daqueles que usam canais de TV para disseminar estereótipos racistas, machistas, homofóbicos.

A consciência de um negro é capaz de mudar somente a si própria, mas a luta, a união, a resistência e a coragem é capaz de abalar as estruturas e derrubar o racismo.

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