OPINIÃO

Os ratos da bodega

Era uma bodega a poucos metros de casa. Tinha um balcão de madeira que, na minha infância ficava além da altura dos meus olhos. Às vezes, para que me vissem eu precisava dar um impulso e me dependurar com os cotovelos e gritar o nome, “ei, Seu Zé” ou então: “ei, Dona Maria, minha mãe tá pedindo oito pães franceses e um quilo de açúcar”. Desde pequena eu carregava no vocabulário um saquinho com vários “ésses” dentro da cabeça para sair distribuindo a cada exigência dos plurais da vida. E mais, todas as pessoas do mundo, que pertencessem à atmosfera das bodegas e das feiras, se chamavam Zé e Maria. E era uma decepção grande quando eu descobria que eles se chamavam Sebastião ou Terezinha.

Daí, teve uma vez que a minha mãe queria que eu voltasse para devolver os pães. Acusava a bodega de que lá tinha ratos. Lá tinha de tudo é certo. Tinha panela de alumínio; canecas de ágata; feijão em sacos de estopa; açúcar; carne de boi e de porco; fumo; vassoura de palha; pano de prato; cocada; balas de coco; biscoito sete capas. Tudo cheirando de uma vez só, formando um sistema complexo de um cheiro inigualável. Como aquilo era mágico! Eu adorava entrar e sentir aquela atmosfera pesada e substantiva. Um cheiro que quase podia ser tocado. Diferente de outros odores marcantes como poeira da rua ou da chuva fina quando molha o chão quente, o cheiro da bodega era uma entidade que nos dominava e atraía.

Foi uma aflição. Por mais que eu tentasse convencê-la de que não tinham ratos na bodega, eu não conseguia dizer a verdade pura e simples. Que aquele pequeno pedaço quase redondo que ela identificara como uma mordida de rato, tinha sido eu mesma – provocada por uma fome repentina de travessura no caminho de casa – que fizera um minúsculo beliscão e tirara do pão um pouco de sua dignidade de pão não degustado por ratos.

Devo admitir que eu tinha a disciplina às avessas, um impulso indomável de fazer travessuras, como morder o nariz de gesso de Nossa Senhora e quebrá-lo, obviamente; ou então, arrancar numa curiosidade só, o pedaço da parede da porta, minuciosamente esculpido pelo meu pai, em cimento ainda fresco, onde receberia a trava do ferrolho. Mas me faltava a manha da mentira. Eu era uma incompetente nesse quesito. Nem sonsa, nem mordaz. Eu era translúcida no silêncio. Só com o tempo que amadurece as goiabas e embranquece nossos cabelos que eu fui aprendendo a mentir.

Pois bem, percebendo minha relutância em voltar na bodega, minha mãe se assentou na desconfiança e eu já me sentia agradecia por isso, porque bastaria a simples pergunta: “foi você?”. E eu me libertaria de ter de sustentar uma falsa acusação contra os ratos na bodega do seu Zé e da dona Maria, e responderia com um simples e salvador “sim”.

Naquela noite eu fui proibida de comer pão. Somente sopa. E se reclamasse, a sopa poderia ser regada a uma boa sandália japonesa nos quartos. E aquele pedacinho de pão, já totalmente diluído nas minhas papilas gustativas, dançava apenas na memória, junto com os cheiros contidos na minha infância, que evoco agora.

 

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Jornalista e psicanalista