OPINIÃO

Para quem vê a luz, mas não ilumina suas mini certezas

Não sei ao certo, mas isso tudo deve ter começado com os autores de autoajuda entre os anos 1980 e 1990, tipo Lair Ribeiro, Roberto Shiniashski e picaretas estadunidenses assemelhados, com aqueles seus manuais de “como fazer amigos”, “como salvar seu casamento”, “dez maneiras de enriquecer” etc e tal. Depois, com a internet e as redes sociais e o YouTube vieram os “coachs” e “influencers”, que, igualmente, sabem tudo e estão dispostos a gentilmente (e mediante algum pagamento) nos ensinar algo que a sapiência deles tem de sobra para nós, pobres mortais e ignorantes.

Mas este texto não é para esculachar esse pessoal já o fiz em textos e anos anteriores e hoje não perco mais meu tempo, cada vez mais precioso, comigo. Trata-se apenas de um ponto de partida para refletir que parecemos estar na “era da certeza”. Assim como escritores de ajuda, coachs e influencers, quase todo mundo parece ter certeza sobre quase tudo, e a dinâmica nas redes sociais está aí para evidenciar isso.

Basta que uma pessoa poste em suas redes sobre um determinado assunto ou posição dela para que “amigos” pulem imediatamente para decretar verdades sobre o tema. Se alguém posta que está fazendo uma dieta à base de ovos e frango, uma turma vai comentar que isso é errado, que ovos têm colesterol e frangos são cheios de produtos químicos. Se outra pessoa  escreve que não curtiu o filme “Elvis”, outras vão esbravejar que ela não assistiu o filme direito e vão falar da devoção delas ao ídolo. Todos e todas cheios de certezas. E geralmente sobre coisas e opiniões das outras pessoas.

Ah, e hoje temos também os escritores e poetas, cheios de razões e certezas. Fui iniciado na Literatura em tempos em que quem escrevia era justamente para provocar questionamentos e dúvidas, não cuspir certezas e verdades absolutas na cara dos incautos leitores. Em tempos de redes sociais, surgem debates acalorados sobre se deve ler clássicos ou os contemporâneos. Sugeri nos debates em que ousei entrar que poderíamos aceitar que quem deseja ler os clássicos, que o faça e quem apreciar a leitura dos contemporâneos que também assim o faça, no tempo em que quiser. E se na verdade quiser ler uns e outros, que também assim seja, da mesma forma que aqueles que não tiverem vontade de ler nem clássicos nem contemporâneos que sejam felizes com suas vidas de não leitores e ponto final.

Em tempos de fascismo e pós-verdade, mesmo certezas e termos como “liberdade de expressão” ficaram em uma zona pantanosa.  Tenho por mim que certezas têm a ver com fatos concretos, como o fato da França ser a campeã da Copa do Mundo de 2018. Você ter a opinião que a campeã foi a Croácia ou o Brasil não muda o fato concreto devidamente registrado. Porém, se uma pessoa gosta da música produzida pela Anitta, não cabe a outra afirmar com certeza que a música é ruim e o gosto musical dela errado.

Por falar em música, lembrei ao escrever essas mal traçadas linhas da canção de Cazuza, “Blues da piedade”:
“Agora eu vou cantar pros miseráveis (…)
Para as pessoas de alma bem pequena
Remoendo pequenos problemas
Querendo sempre aquilo que não têm/Para quem vê a luz
Mas não ilumina suas mini certezas…”

Em tempo: Fascismo não é opinião. É fato. E que por desejar eliminar o outro, deve, aí sim, ser combatido.

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