CULTURA

Potiguar relata perda do pai em documentário que reflete como teria sido a pandemia no Brasil sem Bolsonaro

Como teria sido a pandemia no Brasil se o governo federal tivesse usado todo o potencial que o SUS oferece? Esse e outros questionamentos norteiam a produção do documentário “Eles poderiam estar vivos”, do cineasta brasiliense radicado no Canadá Gabriel Mesquita. No filme que ainda não tem data para ser lançado, a história do genocídio promovido pelo presidente Jair Bolsonaro será contada a partir de relatos de profissionais da saúde, políticos e familiares de vítimas. Entre eles está o jornalista potiguar Matheus Magalhães, que perdeu o pai, Ivanildo Pereira Magalhães, carinhosamente chamado de Magalha.

“Falar em um documentário como esse é registrar na história, registrar nos anais do país, um dos momentos mais perversos que vivemos. A gente enfrentou uma pandemia da pior forma possível porque estávamos sob o comando do pior gestor possível – uma pessoa que não só desacredita a ciência como estimula os outros a não acreditarem; uma pessoa que desdenha da dor alheia, uma pessoa que não tem um pingo de empatia, uma pessoa que demonstra não ter sentimento por nada nem por ninguém que não esteja próximo a ele”, avalia Matheus.

Apesar da dor pela lembrança do que considera ter sido o pior dia de sua vida, ele acredita que o relato é denso, mas extremamente necessário.

“Ainda dói muito falar sobre o meu pai, falar sobre tudo isso, mas eu busco sempre força em algum lugar nesse amor que eu tinha por ele, na saudade que eu tenho dele para voltar a tocar nesse assunto. É a dor de quase setecentos mil que morreram e de outros milhões que ficaram aqui com saudade estão sofrendo até hoje”, lamenta.

O filme nasce da revolta do diretor, que acompanhava de longe, e de cada entrevistado frente à inércia e ao negacionismo que ditava as normas do país. “Quando meu pai morreu de covid em março de 2021 aos 71 anos sem nenhuma dose de vacina no braço eu prometi pra mim mesmo naquele velório naquele sepultamento restrito, pouquíssima gente ali, enfim, o pior dia da minha vida, que eu lutaria até o fim por algum tipo de justiça, algum tipo de vingança, chamem como quiser”, continua Matheus.

Magalha e milhões de brasileiros morreram sem vacina contra covid-19 na época em que Jair Bolsonaro dizia publicamente que não compraria os imunizantes. No país, as primeiras doses foram aplicadas em 17 de janeiro daquele ano apenas nos profissionais da saúde, diante da escassez. Entretanto, as farmacêuticas ofereciam os imunizantes ao governo brasileiro desde junho de 2020. O mundo começou a vacinar no dia 8 de dezembro, enquanto Bolsonaro recusou mais de dez ofertas.

“Ainda preciso de respostas concretas e de punição pra quem não deu uma chance ao meu pai de brigar de igual pra igual contra um vírus. Pouco conhecido, mas que já tinha vacina em março de 2021. Isso é inexplicável. Isso é inaceitável e pra sempre será” .

Parte do documentário foi gravada nos bastidores da CPI da Covid. Dali surgiram depoimentos de políticos como dos também potiguares senador Jean Paul e deputada federal Natália Bonavides, e ainda dos senadores Renan Calheiros, Randolfe Rodrigues, Omar Aziz, Simone Tebet, Fabiano Contarato, Rogério Carvalho, Alessandro Vieira e Humberto Costa, além do deputado Luis Miranda (denunciante de esquema de corrupção na compra de vacinas).

Foi aguardando alguma Justiça que o filho de vítima acompanhou a investigação feita pelo Congresso Nacional sempre que podia. “Lamento muito que as punições não tenham sido à altura. Mas pra mim ali ficou muito claro que a gestão catastrófica teve também intenção ruim, não foi só por ignorância, houve maldade dolosa, com intenção. E a gente tá aí sofrendo tudo isso até hoje”.
Expor a perversidade de Bolsonaro e buscar justiça, mas também prestar mais homenagens ao pai, é o que importa agora. “Eu vejo como uma forma de homenagear meu pai e dizer mais uma vez o que eu passei a vida inteira dizendo que eu era alucinado por ele, apaixonado por ele. Era meu melhor amigo, foi uma pessoa que me ensinou muito essa vida sobre retidão, sobre hombridade, sobre ser gentil com o próximo. Proativo, empático, tomar iniciativa, enfim. Era tudo que eu tinha. Tudo que eu tinha. Hoje eu e minha mãe estamos aqui. Sofrendo todos os dias com essa ausência”, diz Matheus.

E conclui: “Se quis o destino que eu passasse por isso, então eu me vi no direito também de falar e expor mais uma vez. Gravei inúmeros depoimentos, dei inúmeras entrevistas e essa é mais uma pra externar tudo aquilo que sinto e penso. E, acima de tudo, cobrar punição, justiça. Esperar por algo muito breve que aconteça com os responsáveis”.

É possível apoiar financeiramente a produção do documentário para a sua conclusão: apoia.se/elespoderiamestarvivos

Confira trailer:

Veja também música tema lançada nesta semana pelo rapper Crônica Mendes:

 

 

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Isabela Santos é jornalista e repórter da agência Saiba Mais