DEMOCRACIA

Professoras de Jornalismo criticam criminalização de estudantes feita pela imprensa

O ato do Dia do Estudante ocorrido nesta quinta-feira (11) em Natal levou dezenas de entidades estudantis, movimentos sociais e sindicatos às ruas da capital. A manifestação ocorreu no mesmo dia da leitura da “Carta às brasileiras e aos brasileiros em defesa do Estado Democrático de Direito!”, documento que defende a democracia brasileira contra as ameaças de golpe do presidente Jair Bolsonaro (PL).

O protesto iniciou no Midway Mall e caminhou de forma pacífica até a Praça de Mirassol. Em meio ao clima de indignação da população brasileira contra os ataques do chefe da República ao processo eleitoral e às tentativas de descredibilizar o resultado das eleições, parte da imprensa natalense preferiu focar em dois episódios: uma pichação feita por uma pessoa enquanto a marcha caminhava, e uma bandeira com o rosto do presidente que foi arrancada e queimada pelos manifestantes. A forma de fazer cobertura e criminalizar os manifestantes foi criticada por docentes do Departamento de Comunicação Social (Decom) da UFRN.

“Quando parte da imprensa criminaliza um movimento estudantil legítimo e democrático, só mostra que, essa mesma parcela, ou é parcial ou está desinformada sobre o que motiva tal movimento a estar na rua”, critica a doutora em Comunicação pela UFPE e professora do curso de Jornalismo da UFRN, Lívia Cirne. “Nas duas possibilidades, a imprensa deixa de exercer seu papel com o profissionalismo necessário para a função. E, de certo modo, escolhe um lado. E o lado não é o dos estudantes, que poderiam estar comemorando hoje, mas estão bradando pelo reconhecimento da educação como prioridade num país melhor”, diz.

Para a professora, os noticiários, a cada matéria publicada, escolhem o enquadramento que querem oferecer à sociedade. De acordo com Cirne, a escolha pela criminalização dos estudantes foi o que aconteceu na quinta-feira (11). “Tudo que cabe na lente e no texto jornalístico é um recorte. Infelizmente, a tentativa de criminalizar movimentos legítimos de protestos não é de hoje. Os jornalistas e os veículos são responsáveis pela moldura que escolhem para apresentar os conteúdos, quando tomam a parte pelo todo”, afirmou.

Segundo a docente, “o papel das coberturas noticiosas desse momento histórico deveria ser o de fazer reverberar as vozes de quem precisa ser ouvido, de quem é vítima de sucessivos cortes e de uma política cruel de retrocessos às ações afirmativas”, diz, em referência aos cortes na Educação promovidos pelo governo Bolsonaro desde o início do seu mandato.

“Quem melhor pode falar sobre os desastres  provocados em virtude dos mais de 600 milhões de reais subtraídos da educação pública só neste ano são os que vivenciam isso todos os dias: servidores(as), docentes, terceirizados e discentes”, avisa a professora.

Para Cirne, o governo federal possui “um projeto em curso que visa romper com o sonho de milhares de famílias de brasileiros, impedindo mudanças radicais no futuro. Isso é o que deveria ser pautado e ser o foco”, pontua.

Já de acordo com Mônica Mourão, também professora de Jornalismo da UFRN e doutora em Comunicação pela UFF, o desvio de foco na cobertura dos atos, feito pela imprensa tradicional, é um processo histórico. “Isso faz parte de um sistema muito concentrado de mídias em que a gente tem pouca diversidade. E em geral, quem tem mais poder político e econômico consegue colocar o discurso hegemônico em maior circulação”, afirma.

“A gente vê matérias que colocam como se arrancar, rasgar e atear fogo numa bandeira, como se fazer uma pichação fosse um grande ato violento. Violência contra o quê? No caso da bandeira, é violência contra um símbolo violento. Isso pode ser considerado violência?”, questiona a docente, que não vê surpresa na abordagem que criminaliza estudantes e demais manifestantes.

“Apesar de ser muito ruim para a democracia a gente ter esse tipo de abordagem que coloca os movimentos sociais como sendo criminosos e não como sendo uma parte fundamental do processo democrático, a gente sabe que não há nenhuma surpresa nesse tipo de abordagem. Ela é histórica, política, economicamente explicada e justificada”. 

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