DEMOCRACIA

Rio Grande do Norte tem dois candidatos que se autodeclaram indígenas nas eleições 2022

No Rio Grande do Norte, Ligia Gomes (PSOL) e Cabo Melquisedec (PL) são os únicos candidatos que se autodeclararam indígenas nas eleições de 2022. Ela é a segunda suplente da chapa de Freitas Jr. para o Senado; ele, policial militar bolsonarista que pleiteia cadeira na Assembleia Legislativa. Ambos estão na primeira disputa eleitoral.

Ligia é ativista dos direitos dos animais e entrou no PSOL, há cerca de seis anos, por influência do ex-vereador de Natal e ex-deputado estadual Sandro Pimentel, que compartilha dos mesmos ideais. “Sou uma ‘protetora de animais’, ‘ativista’, nomes que hoje me dão, mas antes era só ‘a louca dos gatos’. Mantenho um lar para animais resgatados”, brinca, ao dizer que também se dedica à saúde da mulher e de idosos.

Ligia e sua companheira, Ana Paula | Foto: arquivo pessoal

Ela se identifica com a ascendência indígena da bisavó que foi “laçada para casar” com um homem branco – um costume da época. Em décadas passadas, outro hábito desse povo era também esconder sua origem, primeiro como uma forma de proteção, já que houve um extermínio de indígenas no século 17. Mas o apagamento dos idiomas e dos costumes se enraizou e foi passado para as próximas gerações.

“Quando criança, minha mãe contava as estórias que a mãe dela e a avó contavam; os sofrimentos que passavam por ser e ter traços indígenas; e que não devíamos contar a ninguém sobre isso. Hoje minha mãe [aos 89 anos e com Alzheimer] não consegue me dizer de onde veio a bisa. E tenho procurado lembrar a região, mas eu era muito criança quando ouvia. Minhas irmãs fingem não lembrar, infelizmente”, afirma a candidata, ao mencionar que o mesmo ocorre quando o assunto é religião, já que as demais familiares são cristãs evangélicas e ela da jurema sagrada, religião de matriz indígena do Nordeste do Brasil.

A Agência Saiba Mais tentou contato com Melquisedec de Melo Lira, mas não obteve resposta até a publicação desta matéria. Natural de Angicos, mora em Natal, e nas redes sociais não faz menção à etnia que declarou no registro de candidatura do TSE. Levanta as bandeiras próprias do bolsonarismo: antipetismo, armas e negacionismo.

Candidaturas indígenas em todo o país

A plataforma camapanhaindigena.info, lançada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), apoia e dá visibilidade às candidaturas indígenas. É a primeira vez que grupos indígenas se organizam sob uma pauta comum para disputar as eleições gerais.

O site apresenta 30 candidaturas de movimentos indígenas em 20 estados, tendo como base uma agenda comum de enfrentamento à degradação do meio ambiente e às violações de direitos dos povos originários.

Desse total, 12 concorrem à Câmara dos Deputados e 18 tentam uma vaga nas assembleias legislativas de 15 estados.

Apesar das duas pessoas que se autodeclaram indígenas, o Rio Grande do Norte é um dos estados que não aparecem na lista de candidaturas publicada na segunda-feira (29) no site da Campanha Indígena.

A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) conta com outras sete organizações regionais: Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab); Conselho do Povo Terena; Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (Apoinme); Grande Assembleia do povo Guarani (Aty Guasu); Comissão Guarani Yvyrupa (CGY); Articulação dos Povos Indígenas do Sudeste (Arpin Sudeste) e Articulação dos Povos Indígenas da Região Sul (Arpin Sul).

Sônia Guajajara na 18ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL), em Brasília. | Foto: Mídia NINJA

Além da Campanha Indígena, um levantamento do portal “De olho nos ruralistas” encontrou 56 chapas progressistas dentre as candidaturas indígenas registradas.

No Brasil, a mobilização de indígenas em eleições atingiu recorde em 2022, com 183 candidatas e candidatos que se autodeclaram como pertencentes aos povos originários participando do pleito, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) – 50 a mais do que em 2018 e 98 a mais do que em 2014, primeiro ano que a Justiça Eleitoral passou a compilar dados sobre a composição étnica e racial de candidatas e candidatos.

O número equivale a 0,6% de um total de 28.869 candidaturas registradas até agora pelo TSE. Destas, 84 são mulheres (45,9%) – o percentual de candidaturas femininas nesse segmento é o maior dentre todas as raças.

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Isabela Santos é jornalista e repórter da agência Saiba Mais