OPINIÃO

As filhas de Inana e Enheduana

Para quem é mulher ou se identifica com a luta dos gêneros tradicionalmente oprimidos e violentados (gays, lésbicas, trans e afins), os últimos dias foram mais um show de horrores. Nem vou me dar ao trabalho de desfiar aqui o rosário de acontecimentos lamentáveis a que temos assistido em que de novo e de novo manifesta-se a agressividade patriarcal de sempre. Eu ainda estava digerindo o tragicômico do “imbrochável” quando tomei conhecimento de mais um episódio: o da primeira-ministra da Finlândia, Sanna Marin, cuja diversão em uma festa particular, filmada e viralizada na internet, virou alvo de incômodo e ataques, a ponto de exigirem dela um exame toxicológico. Sim, mesmo nos chamados países de primeiro mundo, uma mulher feliz incomoda muita gente.

Deixo de lado toda essa tristeza e feiúra e volto para a leitura da vez que me enche de esperança e beleza: Inana: antes da poesia ser palavra, era mulher (São Paulo, Sobinfluencia Edições, 2022). Trata-se simplesmente do primeiro texto da História ao qual se atribui uma autoria. E durmam com essa: é uma autora mulher, mulher conhecida como Enheduana. Como afirma o poeta Adriano Scandolara, que assina a tradução junto a Guilherme Gontijo Flores:

Enheduana não é apenas a primeira poeta mulher da história, mas a primeira pessoa, de qualquer gênero, em qualquer tempo, em qualquer lugar, que escreveu o que chamamos de literatura.

Enheduana – cujo nome, provavelmente “artístico”, deriva de EN (sacerdotisa), HEDU (adorno) e ANA (do céu”) – viveu na Mesopotâmia no século XXIII antes da Era Cristã. Filha do rei Sargão (2332-2279 AEC), o fundador da dinastia acadiana, que governou sobre o território que atualmente se estende pelo Irã, Iraque e Síria. Além do privilégio de ser uma princesa (ou graças a ele), Enheduana foi alçada ao posto de alta sacerdotisa na antiga cidade de Ur, onde reverenciava o deus lunar Nana e a deusa Inana.

A deusa Inana, também conhecida como Ishtar entre os semitas de Acade, da Babilônia e da Assíria, foi a mais célebre deusa da Mesopotâmia, cuja imagem divina reunia em si três arquétipos: uma guerreira e viril, uma sensual e padroeira do amor livre e uma terceira associada ao planeta Vênus. Assim a descreve Adriano Scandolara:

Inana/Ishtar muitas vezes aparece como um ser sexualmente atraente, mas permanece insatisfeita e é constantemente “injuriada”, belicosa e contenciosa. Ela perturba céu e terra e se comporta como se fosse incompleta.

No livro “Oráculo da Grande Deusa”, (São Paulo, Editora Alfabeto, 2018), Claudiney Prieto a descreve como a Deusa da Vida, a Grande Mãe da Antiga Suméria, aos quais estão associados todos os atributos ligados à vida, à morte e ao renascimento.

A complexidade dessa deusa encontrou em Enheduana sua melhor expressão. Princesa, poeta e suma sacerdotisa, ela contribuiu tanto com a unificação religiosa como política dos povos mesopotâmicos e não à toa a capa deste livro traz a imagem da carta XI do tarô: A Força. Nesta edição – com tradução preciosíssima dos já citados Guilherme Gontijo Flores e Adriano Scandolara, tradução essa feita para o português diretamente do sumério – encontramos peças de grande valor não apenas histórico, mas também literário, como “A exaltação de Inana” e “A descida de Inana aos Infernos”. Além das importantes informações trazidas pela professora Katia Pozzer (UFRS) e dos tradutores sobre a cultura mesopotâmica, incluindo aí a abordagem arqueológica desses documentos milenares, essa edição bilíngue consegue recuperar a poética de cinco mil anos atrás, transpondo da língua morta a beleza mágica e plástica dos versos de Enheduana, tais como esses:

Plena e replena

Pari a canção

Por ti senhora excelsa

O que eu te recitei

À meia-noite

Repetirá o cantor

Ao meio-dia.

 

Ou ainda esses, emblema da força feminina:

Na frente da batalha a teus pés tudo tomba

Em tua asa senhora o dente corta pedra

Feito o ataque da tormenta tu atacas

No troar do trovão tu atroas…

Como mulher e escritora, sinto-me filha delas. E não estou só. Reveremos e celebremos, pois, não apenas a figura mítica da deusa Inana – a nos fazer recordar o melhor da ancestralidade feminina, presente em todas as civilizações – como também a figura histórica da mulher e autora Enheduana – a nos fazer renovar nosso vigor e resistência diante de tanta coisa “brochante”.

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