TRANSPARÊNCIA

Entenda por que o preço da gasolina baixou durante a campanha eleitoral de 2022

O preço da gasolina caiu algumas vezes desde julho de 2022, efeito acentuado durante o período eleitoral, após longa sequência de aumentos e com o litro tendo ultrapassado os R$ 8. Variação internacional e tentativa de favorecer Bolsonaro politicamente são apontadas como causas que se somam ao corte do imposto que incide sobre o produto e é destinado áreas como Saúde e Educação de estados e municípios.

A maioria das bombas dos postos de Natal marcam R$ 4,89 nesta quarta-feira (14). De acordo com o app Nota Potiguar, o menor preço é R$ 4,79 em dois postos da cidade.

Em vídeo, o senador Jean Paul (PT-RN), líder da minoria no Senado Federal, explica a dinâmica eleitoreira de Bolsonaro e o nomeia de imbecil, idiota útil e refém do centrão: o “maior desocupado da nação”, já que “não precisa governar, porque entregou o governo ao centrão e aos piores grupos econômicos do Brasil”.

“Idiota, mas até ele sabe que a redução do ICMS [Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços] era totalmente desnecessária. Demagogo, picareta. O preço do combustível só baixou um pouco agora, porque o preço internacional lá fora baixou, mas o Brasil continua vulnerável à volatilidade da tal paridade de importação”, diz Jean Paul com autoridade no assunto. Formado em Direito e Economia, com mestrados em Gestão Ambiental e Economia de Energia, trabalhou na regulação dos setores de petróleo, energia renovável, biocombustíveis e infraestrutura nos governos Fernando Henrique Cardoso e Lula. Foi secretário de Estado de Energia e Assuntos Internacionais do Rio Grande do Norte.

O senador mostra que o povo continua pagando por diesel, gasolina e gás de cozinha, como se nada disso fosse produzido no Brasil. É assim que funciona a política de preços da Petrobras desde 2017, uma mudança promovida por Michel Temer (MDB) depois do golpe contra a presidenta Dilma Rousseff (PT).

O PT, continua Jean, propôs acabar com o PPI [Preço de Paridade Internacional]: “Você não deixou fazer, Bolsonaro. Travou no Congresso e na caneta Não sabe e não quer administrar um país autossuficiente em petróleo. Tenta enganar o povo com essa conversa de ICMS. Só mesmo um idiota útil como você, Bolsonaro, pode achar que o povo vai acreditar nessa sua lenga-lenga de imposto baixo”.

Variação internacional

Thales Penha explica cenário para variações. Foto: acervo pessoal

Para o economista e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Thales Penha, a queda é consequência da variação do preço do petróleo Brent, tipo produzido na Europa e negociado em Londres.

“No mês de julho, começa a ter uma queda consistente do preço do barril de petróleo, que estava a cerca de 120 dólares, e no mês de agosto chegou a 85 dólares. Ou seja, uma queda muito intensa, de quase 50 dólares no valor do barril. Isso tem impacto no preço da gasolina”, lembra, ao detalhar que essa redução se justifica pelo cenário internacional e projeções para o ano de 2023.

“Você tem uma inflação muito forte na Europa e nos Estados Unidos. Na Europa, muito pressionada pelos preços do gás devido à guerra de Ucrânia e Rússia. E nos Estados Unidos, um impacto muito grande nos alimentos, devido ao clima. A produção de milho e soja deles teve uma baixa histórica, então isso tem impactado. Além disso, há uma expectativa de recessão para o próximo ano”, completa o economista, pontuando que se refere aos países centrais, como Estados Unidos e países europeus.

Os estudos já feitos também indicam, segundo Thales, uma desaceleração muito forte na China, que deve sair do crescimento próximo a 8% para 3%. “Isso é muita coisa. “Essas expectativas fazem com que os estoques de petróleo do país aumentem fazendo com que a demanda diminua e o preço do barril despenque”.

Ações internas

A redução forçada de da alíquota de ICMS também reduziu o preço da gasolina. “Se você eliminar todos os impostos, os preços de qualquer coisa vão baixar, mas governar assim, qualquer um governa. Mas e depois? Como fica a saúde pública, as escolas públicas e gratuitas, a assistência social?”, questiona o senador, apontando que essas despesas são pagas com o imposto que foi cortado por Bolsonaro, prejudicando os serviços oferecidos à população.

Ele menciona hospitais regionais e as cirurgias realizadas neles, pagamento de enfermeiros, equipes técnicas, equipamento, manutenção, limpeza, atendimento, ambulâncias, UTIs,… E nas escolas: professores, diretores, material, obras, expediente escolar. Tudo isso, na maioria das vezes é bancado por estados e municípios, alerta o parlamentar.

“Sabe o que você e seus asseclas perfumados de escritório fizeram? Tiraram a principal fonte de receitas de estados e municípios pra garantir lucros exorbitantes de importadores de combustíveis, que já são mais de 400, e de uma minoria de acionistas privilegiados da Petrobras que lucrou 15 meses açoitando o couro de todos os brasileiros e brasileiras. E, pior, o preço dos combustíveis lá fora tá subindo de novo e continuamos sem nenhuma forma de nos blindar contra isso. Queimou o dinheiro dos outros, salvou os amigos e não vai resolver nada”, destaca.

O professor da UFRN concorda que a desoneração de tributos teve contribuição para tornar mais barata a gasolina e também chama atenção para o fim dessa tendência de baixa: “A OPEP [Organização dos Países Exportadores de Petróleo] já anunciou que vai reduzir a produção o que vai trazer impacto de estabilizar o preço ou até mesmo pressionar para subir. A não ser que a desaceleração da economia mundial do ano que vem seja maior que esperada”.

Confira vídeo de Jean Paul sobre o assunto:

 

Motivação política

Matéria publicada pela IstoÉ Dinheiro, em 13 de setembro, revela que segundo informações de integrantes da Petrobras, as reduções continuarão acontecendo. O acompanhamento dos preços internacionais é a principal causa, mas a influência política do governo tem gerado impacto na frequência dos repasses “quando benéficos eleitoralmente ao presidente Jair Bolsonaro”.

Com o desgaste político devido à inflação puxada pelos combustíveis, não é errado dizer que quanto mais o ex-presidente Lula (PT) sobe nas pesquisas, mais cai o preço da gasolina, com Caio Mario Paes de Andrade na presidência da Petrobras desde o final de junho.

Ainda de acordo com IstoÉ, “mesmo com o mercado internacional e a cotação do dólar pressionando os preços internos, ainda há uma diferença média de R$ 0,20 no preço da gasolina no Brasil em relação ao preço internacional”.

13 quedas de preços foram anunciadas na gestão Paes de Andrade:

• 20/07 — – 4,9% na gasolina;
• 29/07 — – 3,9% na gasolina;
• 01/08 — – 2,6% no preço do QAV (querosene de aviação);
• – 5,7% no preço da GAV (gasolina de aviação);
• e – 4,5% os preços do asfalto;
• 05/08 — -3,5% no diesel, primeira redução em 15 meses;
• 12/08 — – 4% no diesel;
• 16/08 — – 4,8% na gasolina;
• 01/09 — – 10,4% no preço do QAV;
• – 15,7% na GAV;
• e – 6,4% no asfalto;
• 02/09 — – 7,1,% na gasolina;
• 13/09 — – 4,7% no GLP (gás liquefeito de petróleo).

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Isabela Santos é jornalista e repórter da agência Saiba Mais