DEMOCRACIA, ENTREVISTA

Natália Bonavides: “A identificação da juventude com o nosso mandato tem a ver com o projeto político”

A deputada federal Natália Bonavides (PT) é uma das favoritas para renovar o mandato no próximo domingo, 2 de outubro. Ela tem sido a candidata mais citada na maioria das pesquisas de intenção de voto divulgadas até o momento por diversos institutos. Parlamentar mais jovem do PT na Câmara Federal, com 34 anos, Natália é a deputada do Rio Grande do Norte com mais seguidores nas redes sociais – só no instagram são 140 mil pessoas (o segundo colocado é Rafael Motta (PSB), seguido por 70,4 mil) – e faz um mandato de oposição combativo ao governo Bolsonaro com o olhar voltado para demandas sociais.

No primeiro mandato, mesmo a Oposição sendo minoritária na Casa, já aprovou um projeto de lei, o que impediu despejos durante a pandemia, protegendo mais de 120 mil famílias no país, e atuou como co-autora de outros projetos importantes, como a da lei Aldir Blanc, que garantiu um socorro financeiro aos artistas e outros operários da cultura.

Nesta entrevista especial, a uma semana das eleições, Natália Bonavides fala sobre sua conexão com a juventude, faz uma avaliação do primeiro mandato na Câmara, antevê os desafios para a classe trabalhadora com a chance real da volta de Lula à presidência a partir de 2023 e não foge à pergunta sobre a possibilidade de candidatura à prefeitura de Natal em 2024.

Confira a entrevista:

Agência Saiba Mais: Você é a deputada mais jovem do PT na Câmara Federal e é visível a identificação da juventude com você e com seu mandato. Na sua avaliação, o que é necessário para se conectar com a juventude ? Ter pouca idade é suficiente ? Que outras razões levam a essa identificação ?

Natália Bonavides: Esse debate sobre representatividade é muito importante. Acho muito importante que pessoas jovens ocupem os espaços políticos de forma geral, mas tenho certeza que para se conectar com a juventude não basta simplesmente ser jovem. Poderia citar várias candidaturas jovens da direita que se conectam com a juventude através no uso das redes e da linguagem, por exemplo, mas que defendem projetos políticos que atacam diretamente os direitos da juventude à educação, à saúde, ao emprego, à cultura, entre outros. Acredito que o principal motivo pelo qual a juventude estudante e trabalhadora se identifica com nosso mandato tem a ver com projeto político. Defender as pautas que garantem os direitos da juventude efetivamente, com prática, não só com discurso, e construir isso no dia a dia, de forma coletiva, é o que faz a nossa conexão com a juventude ser tão boa e sólida. E acho que fazer tudo isso sendo uma jovem que não é filha de político nenhum faz com que consigamos ter uma identificação ainda mais forte nessas lutas!

Qual o peso das redes sociais e da comunicação na relação do seu mandato com os jovens? Como você trabalha a imagem nas redes ?

As redes sociais são um importante canal para comunicar as nossas ações e posições políticas com a juventude e também com a sociedade de forma geral. Através das redes sociais divulgamos o trabalho do mandato, nossas agendas pelo estado, nossa atuação em Brasília, fazemos denúncias e expressamos nossas opiniões. Mas a juventude não está apenas nas redes sociais e nós não abrimos mão do corpo a corpo, de ir nas escolas, nas Universidades, nos IF’s, nas comunidades e cidades do interior, enfim, de ir onde o povo está. A imagem nas redes é fruto de um trabalho concreto feito na vida real, fora das redes, e as redes servem principalmente para divulgar o que a gente faz e pensa sobre os problemas da classe trabalhadora.

“Defender as pautas que garantem os direitos da juventude efetivamente, com prática, não só com discurso, e construir isso no dia a dia, de forma coletiva, é o que faz a nossa conexão com a juventude ser tão boa e sólida”.

Seu primeiro mandato na Câmara Federal foi com Bolsonaro na presidência da República e Arthur Lira no comando da Casa. Dos ataques ao povo brasileiro, qual foi o mais nocivo ?

Os ataques ao povo brasileiro têm sido contínuos desde o golpe dado contra a presidenta Dilma Rousseff. Começou lá atrás, quando a Reforma Trabalhista foi aprovada e que infelizmente teve como grande responsável um potiguar chamado Rogério Marinho. Em seguida, a Reforma da Previdência veio para tirar ainda mais direitos da classe trabalhadora. Na pandemia, esse governo atingiu patamares ainda maiores de descaso com a vida do povo, quando em um momento de tanta dor para a população do planeta, foram aprovados ainda mais projetos que retiram direitos. Bolsonaro segue fazendo o que já fazia desde que era deputado: defendendo apenas a sua família, desprezando o povo brasileiro e desrespeitando a nossa democracia.

Olhando para o conjunto de projetos que tramitaram na Casa, boa parte aprovados, é possível identificar, de forma mais clara, que projeto o bolsonarismo tem para o país ?

O projeto deles é ultraneoliberal e conservador. Age no sentido de atacar os direitos sociais, as liberdades democráticas e a soberania nacional. Ele aparelha as instituições públicas para beneficiar seus familiares e amigos. O projeto dele é de um Brasil excludente, que despreza o povo trabalhador. É o governo de uma universidade “para poucos”, como o ministro dele gostava de dizer, onde a saúde é considerada um gasto e as vidas das pessoas não valem nada. É um verdadeiro projeto de destruição do Brasil.

“Bolsonaro segue fazendo o que já fazia desde que era deputado: defendendo apenas a sua família, desprezando o povo brasileiro e desrespeitando a nossa democracia”.

No papel de oposição, você teve uma atuação destacada judicializando inúmeras ações contra Bolsonaro e alguns dos ministros do Governo. Mesmo barradas na PGR ou na Justiça, essa estratégia funcionou como você previa ? Porquê ? Poderia nos informar quantas ações foram ajuizadas ou representadas contra o atual governo pelo mandato ?

É nossa obrigação como parlamentar a fiscalização. Eu lembro que vocês chegaram até a fazer uma matéria conosco no passado sobre essa questão das judicializações, que nós havíamos acionado a Justiça ou órgãos de investigação em média uma vez a cada 30 dias contra Bolsonaro durante dois anos. No total, foram 53 denúncias feitas por nós. Fazer com que Bolsonaro seja investigado e responsabilizado por seus crimes diários contra o povo brasileiro é uma das nossas estratégias enquanto oposição, apesar de não ser a única ou a principal. As denúncias são importantes também para fazer o debate político na sociedade. Essa semana, por exemplo, um empresário afirmou que o ex-ministro da Educação, Milton Ribeiro, deu aval para pastores negociarem R$ 5 milhões para reformas de igrejas, com pagamento de propinas em dinheiro vivo por meio de um pneu de caminhonete. Isso foi descoberto após uma denúncia feita por nós. Daí a importância de utilizar esse tipo de estratégia enquanto oposição. Infelizmente estamos diante de um governo que cometeu muitos crimes, por isso não tivemos como nos abster de buscar a responsabilização.

O Orçamento Secreto é um dos maiores escândalos da história do Congresso. É possível barrar essa irrigação de recursos para os parlamentares da base do governo ? É o Orçamento Secreto que tem segurado a base do Centrão junto ao Governo ? Qual é o papel desse instrumento e como acabar com essa prática ?

O orçamento secreto é um grande escândalo. Bolsonaro e seus aliados escolheram desviar o dinheiro público, que, ao invés de ir para a saúde, educação e cultura, por exemplo, está irrigando ações dos aliados do presidente sem qualquer controle rígido sobre seu direcionamento – vide os casos das escolas fakes e dos tratores superfaturados.

É com o dinheiro do povo que Bolsonaro paga o aluguel do centrão e garante sua permanência. E o povo não aguenta mais! Dará nas urnas a resposta. Agora é chegada a hora de fazermos esse novo momento acontecer. Dedicando nossas melhores energias para eleger Lula e a bancada da classe trabalhadora no Congresso. Vamos conseguir reconstruir e transformar o Brasil. E isso passa por derrotar o orçamento secreto e estabelecer que a utilização dos recursos públicos seja definida com transparência e participação social.

“Um empresário afirmou que o ex-ministro da Educação, Milton Ribeiro, deu aval para pastores negociarem R$ 5 milhões para reformas de igrejas, com pagamento de propinas em dinheiro vivo por meio de um pneu de caminhonete. Isso foi descoberto após uma denúncia feita por nós”.

Dos projetos aprovados pela Oposição, o que você destacaria nesses quatro anos?

Com muita luta na oposição, conseguimos algumas vitórias importantes, como o nosso projeto de lei para suspender os despejos na pandemia, que foi aprovado pelo Congresso Nacional e resultou em uma lei federal que protegeu mais de 123 mil famílias ameaçadas de despejo. Também destaco a aprovação da proposta para instituir o FUNDEB como instrumento permanente de investimento na Educação; as leis que instituíram o auxílio emergencial e o vale-gás para socorrer a classe trabalhadora na pandemia, e que Bolsonaro não queria pagar; a lei do piso salarial da enfermagem; e a lei para garantir absorventes higiênicos para meninas e mulheres em situação de pobreza menstrual. Garantir direitos e uma vida digna à classe trabalhadora e a quem mais precisa sempre foi e continuará sendo nossa prioridade.

O que aconteceu com a CPMI das Fake News, da qual você é membro ? O que veio à tona e quais os próximos passos ?

As investigações da CPMI das Fake News indicaram a existência de uma milícia digital, que atua como verdadeira organização criminosa, composta pelos núcleos político, operacional, econômico e distribuidor de fake news. Percebemos que o núcleo político é composto por altos funcionários do governo, alguns parlamentares estaduais e federais, que são os que decidem quem vai ser atacado, quando vai ser atacado, o que vai ser atacado. E, inclusive, uma estrutura que mantém assessores pagos com dinheiro público para executar essa estratégia. Por isso, a gente tem visto que toda vez que alguém e até alguma autoridade do próprio governo fala alguma coisa que desagrada o Governo Federal, esse núcleo determina o linchamento público das autoridades.

O núcleo operacional é composto por pessoas do segundo escalão do governo e, como o próprio nome diz, operacionaliza, escrevendo o conteúdo das mensagens, imagens e vídeos. E, nesse caso, tivemos indícios fortes de que existem pessoas que atuam no Planalto e cerca de 8 gabinetes de deputados federais e 10 de deputados estaduais que comporiam esse núcleo. O núcleo distribuidor trata-se de um exército de mais de 400 mil perfis falsos nas redes sociais que se juntam a integrantes de sites e blogs e até mesmo parlamentares que usam suas redes para divulgar as notícias falsas. Por fim, o núcleo econômico, composto por empresários que financiam essa distribuição de conteúdos falsos.

Esse esquema, por estar divulgando conteúdo falso, é criminoso. Conseguiram influenciar nas eleições de 2018 favorecendo o atual presidente eleito e seguem atuando para tentar influenciar nas eleições deste ano de 2022. Tentar retirar essa organização criminosa das sombras é, sem dúvidas, uma das maiores funções da CPMI, caso ela volte a funcionar, pois foi suspensa durante a pandemia e não retomou os trabalhos.

O ex-presidente Lula lidera todas as pesquisas de opinião, com chances reais de vencer no 1º turno. Por outro lado, mesmo sem provas, Bolsonaro vem repetindo que se ele não vencer no 1º turno não vai aceitar o resultado das urnas. Acredita que as eleições transcorrerão seu curso normal ou haverá uma nova batalha para garantir a posse de Lula, caso ele confirme o favoritismo nas urnas ?

A possibilidade de Lula ganhar no primeiro turno existe e é para isso que estamos trabalhando dia e noite na campanha. Não será uma vitória fácil nem está dado que vai acontecer no primeiro turno, mas estamos lutando para que se materialize. Por outro lado, não temos como saber ainda o que vai acontecer após o anúncio do resultado final, mas é certo que o bolsonarismo não vai desaparecer após as eleições, caso sofram uma derrota eleitoral. Em caso de vitória nossa, poderá sim haver batalha pela posse, e principalmente haverá a batalha de ideias na sociedade que seguirá em curso, além da luta social para defender o governo e disputar os seus rumos. A luta política que estamos travando no Brasil e no mundo nesse momento histórico não tem nada de normalidade, é duríssima, e essa eleição é uma das batalhas de uma disputa muito maior que seguiremos travando em defesa de uma vida boa para a maioria da população.

Além da disputa política e o enfrentamento contra o Governo Bolsonaro, o que você destacaria do seu mandato como apoio ao Governo do Rio Grande do Norte, seja através de emendas ou outro tipo de ajuda?

O Rio Grande do Norte fez história ao eleger a governadora Fátima Bezerra em 2018. Nosso mandato atuou firmemente ao lado da governadora para tentar ajudar o estado durante os momentos mais difíceis da pandemia, destinando mais de R$41 milhões em emendas para a saúde, que foram investidos em reformas de policlínicas e hospitais, compras de equipamentos e insumos. A educação, outra área tão atacada pelo governo Bolsonaro, também foi um alvo importante de nossas ações, com mais de R$33 milhões destinados para o IFRN, UFRN, UFERSA, UERN e escolas estaduais. Esses recursos serviram principalmente para garantir que nossos estudantes pudessem continuar nas escolas e universidades, e foram investidos na assistência estudantil, para o auxílio digital, compra de kits multimídia e garantia da infraestrutura das escolas. Além disso, lutamos para garantir que as trabalhadoras e trabalhadores do campo e da pesca, que colocam comida na mesa do povo potiguar, tivessem as mínimas condições de trabalho e equipamentos para poder continuar a alimentar o nosso povo. Esses são alguns dos exemplos da nossa atuação junto ao governo da professora Fátima Bezerra.

“Não temos como saber ainda o que vai acontecer após o anúncio do resultado final, mas é certo que o bolsonarismo não vai desaparecer após as eleições, caso sofram uma derrota eleitoral. Em caso de vitória nossa, poderá sim haver batalha pela posse, e principalmente haverá a batalha de ideias na sociedade que seguirá em curso, além da luta social para defender o governo e disputar os seus rumos”.

Já começam os rumores de que você sairá das urnas como um nome forte para disputar a prefeitura de Natal em 2024. Governar Natal está no seu horizonte político?

Nosso objetivo atual é vencer as eleições de 2022. Eleger a governadora Fátima Bezerra, o presidente Lula, renovar o nosso mandato na Câmara Federal, ampliar a bancada petista e de esquerda para trabalhar junto com Lula no Congresso Nacional, além de eleger deputados e deputadas estaduais que darão sustentação ao governo Fátima na ALERN. O que vai acontecer nas próximas eleições dependerá de uma avaliação da conjuntura e de um debate político que ainda não foram feitos.

O que mudou da Natália vereadora para a deputada federal? Esse amadurecimento político está representado na forma de fazer política, de identificar pautas através das demandas do povo ou dessa conexão com a juventude?

Acredito que a nossa forma de trabalhar continua na construção dos nossos projetos com base no diálogo coletivo. Nosso mandato tem o mesmo horizonte da classe trabalhadora, por isso, buscamos sempre aprimorar nossas ações. Fazendo nossos “Chame Gente” para ouvir as pessoas sobre as diversas áreas em que atuamos, visitando os municípios, as comunidades rurais e urbanas, estabelecendo parcerias com os movimentos sociais, sindicatos, organizações populares, instituições públicas e privadas que atuam em defesa dos direitos, liberdades, soberania. Enquanto vereadora, atuei na defesa dos direitos trabalhistas e enfrentei o golpismo de Temer, travando o debate e construindo a mobilização na luta contra a reforma trabalhista, por exemplo. Já como deputada federal, foi ampliada a dimensão do desafio, tanto pela tarefa nacional que passei a desempenhar, quanto pelo aprofundamento da ameaça que um governo de extrema-direita e ultraliberal representa para o país.

“O que vai acontecer nas próximas eleições dependerá de uma avaliação da conjuntura e de um debate político que ainda não foram feitos”.

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