CIDADANIA

O legado de Sêo Inácio: o intelectual de origem popular com uma biblioteca com mais de 10 mil títulos

Seo Inácio I Imagem: reprodução do curta “Sêo Inácio (ou o cinema do imaginário)”

De origem humilde e espírito rebelde, Inácio Magalhães de Sena, conhecido mesmo como “Sêo Inácio”, tinha apenas o ensino primário, mas o gosto pelo cinema e literatura fez dele um autodidata reconhecido por intelectuais, como o embaixador potiguar Fernando Abbott Galvão, que em certa ocasião, chegou a dizer numa roda de conversa que Inácio era seu amigo mais culto.

Ele [Fernando Abbott] era um homem viajado, um embaixador que teve contato com muitas pessoas e aquela fala me impressionou muito”, conta o desembargador aposentado, pesquisador, escritor e amigo de longa data de Sêo Inácio, Manoel Onofre Júnior.

Os amigos se conheceram na década de 1960. Uma relação cultivada até este último domingo (18), quando Sêo Inácio, que lutava contra um tumor no cérebro, faleceu, aos 84 anos.

Tínhamos afinidades intelectuais, aprendi muito com ele. Era uma figura humana fora de série, tinha uma capacidade muito grande como leitor e cinéfilo. Mas, ao mesmo tempo, era uma pessoa muito simples, um intelectual com raízes no povo, o que era uma característica importante. Ele era muito irreverente, de espírito crítico afiado. Também era muito católico, teve experiência como seminarista, mas não deu certo porque era um tanto ‘indisciplinado’, não se curvava à sociedade burguesa”, revela Manoel Onofre.

Seo Inácio I Foto: reprodução Papo Cultura
Seo Inácio I Foto: reprodução Papo Cultura

Apesar de muito católico, Sêo Inácio não deixava a irreverência de lado, tanto é, que tratava a si mesmo como “Bispo de Taipú”.

Ele era irreverente com ele próprio! Se intitulava de Dom Inácio, o Bispo de Taipú. Até o arcebispo de Natal, Dom Nivaldo Monte, se dirigia a ele como ‘colega’, numa reverência à brincadeira”, conta o amigo de longa data.

Da paixão pelos filmes a personagem de cinema. A figura fora da curva de Sêo Inácio, que tinha uma biblioteca com mais de dez mil títulos entre filmes e livros, despertou o interesse de produtores do audiovisual que gravaram com ele o curta “Sêo Inácio (ou o cinema do imaginário)”, que se tornou a primeira produção potiguar a ser selecionada para o Festival de Gramado, em 2015.

Conhecimento notório

Inácio Magalhães escreveu dois livros: Agora, lábios meus, dizei e anunciai (Natal: Nossa Editora, 1985) e Memórias quase líricas de um ex-vendedor de cavaco chinês (Natal: Sebo Vermelho Edições, 2000).

Sua obra foi citada por Thiago Gonzaga, que as incluiu entre as dez novelas essenciais da literatura potiguar no século XX em Os grãos – ensaio sobre literatura potiguar contemporânea (2016, p. 144).

Manoel Onofre Júnior fala das lembranças do amigo I Foto: Papo Cultura
Manoel Onofre Júnior fala das lembranças do amigo I Foto: Papo Cultura

Inácio era um homem que escreveu dois livros muito bons, um de memórias e uma novela, que era mais como um conto extenso. Ele tinha um potencial muito maior, mas que devido a esse espírito desligado das coisas materiais, terminou não realizando a obra literária que tinha tudo para construir. É uma perda muito grande, ainda vamos falar muito dele. É uma dessas figuras que vão crescendo depois que morre”, exalta Manoel Onofre.

Sêo Inácio nasceu em Ceará-Mirim, em 1938. De família simples, perdeu o pai logo cedo. A mãe, viúva, pobre e com dois filhos, casou-se novamente e mudou-se para o Paraná, na tentativa de conseguir melhores condições de vida. Inácio voltou anos depois, durante a década de 1970, e começou a trabalhar nos Correios. Porém, como seu espírito rebelde era incompatível com a rotina exaustiva do trabalho, ele pediu demissão.

Apesar de ter apenas o ensino fundamental completo, seu conhecimento notório fez com que amigos intelectuais fizessem um abaixo-assinado solicitando que Sêo Inácio fosse contratado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) como professor. Mas, apesar dos pedidos, ele acabou sendo contratado como arquivista da Televisão Universitária (TVU), onde permaneceu até se aposentar.

Uma referência no Grande Ponto…

Cartão-postal “Cidade Moderna”, Jaeci Galvão, Natal, RN. O grande ponto, cruzamento da Avenida Rio Branco com a Rua João Pessoa, final da década de 1940.
Cartão-postal “Cidade Moderna”, Jaeci Galvão, Natal, RN. O grande ponto, cruzamento da Avenida Rio Branco com a Rua João Pessoa, final da década de 1940.

Para quem não sabe, o centro de Natal já foi o principal ponto de encontro dos intelectuais da capital potiguar e interessados numa boa conversa. O lugar, na esquina da avenida Rio Branco com a João Pessoa, ficou conhecido como ‘Grande Ponto’. Foi por lá que grandes figuras, que hoje fazem parte da vida cultural da cidade, iniciaram amizade.

Na década de 1960 o Grande Ponto era um centro de convivência informal, a cidade era muito tranquila, funcionários e intelectuais se reuniam ali à tarde, depois do expediente para conversar. Nos sentávamos em bancos parecidos com cocadas e, por isso, o lugar também era chamado de ‘cocadas’. Depois de voltar da temporada no Sul ele se engajou nessa roda de conversa e tornou-se a figura mais assídua, sempre ligado à literatura e ao cinema. Depois que o Grande Ponto desapareceu, nossas reuniões continuaram acontecendo em calçadas e depois passaram para a antiga Potylivros”, relata o escritor.

A Fundação José Augusto emitiu nota de pesar pela morte do irreverente “Bispo de Taipú” e destacou o trabalho intelectual de Sêo Inácio, que chegou a assistir mais de 20 mil filmes ao longo da vida. Confira a nota na íntegra:

“A Fundação José Augusto (FJA) lamenta profundamente a morte, ocorrida neste domingo (18) em Natal, do escritor e cinéfilo Inácio Magalhães de Sena, conhecido no meio cultural como ‘Bispo de Taipú’.

Nascido em 1938 no município de Ceará-Mirim, Inácio foi funcionário dos Correios e arquivista da UFRN. Grande conhecedor da literatura potiguar e do cinema, é autor das obras ‘Agora, lábios meus, dizei e anunciai!'(1985) e ‘Memórias quase líricas de um ex-vendedor de Cavaco Chinês’ ( Sebo Vermelho, 2000).

Virou personagem do documentário em curta-metragem ‘Sêo Inácio (ou o Cinema do Imaginário)’, primeira produção potiguar a ser selecionada para o Festival de Gramado em 2015.

Através de sua paixão pela sétima arte, Inácio assistiu a mais de vinte mil obras cinematográficas.
Era frequentador do centro da cidade nas rodas de conversas culturais.

A FJA expressa pesar pela perda deste autor e pesquisador da cultura potiguar”.

FUNDAÇÃO JOSÉ AUGUSTO

Esquina do Grande Ponto I Foto: Jaeci Galvão
Esquina do Grande Ponto I Foto: Jaeci Galvão

 

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