OPINIÃO

Quando a leitura dói

Por Cellina Muniz

Este texto poderia se chamar “Abraçada à minha dor”, numa quase paráfrase do título de João Antônio. Porque é assim que me sinto em relação a uma das leituras em que ando me arrastando desde julho, e sobre a qual vou comentar aqui neste artigo.

Refiro-me ao romance mais recente de Patrícia Melo, “Menos que um” (São Paulo, Editora Leya, 2022). E vou logo avisando, para que não paire nenhuma dúvida: Patrícia Melo é a minha escritora predileta. Herdeira da verve de Rubem Fonseca, seus contos e romances demonstram tudo o que considero de valor na literatura: excelência no manuseio da língua, sacadas surpreendentes na condução da narrativa, abordagens geniais de todo tipo de temáticas, mas sobretudo as de relevância política e social (como a situação do tráfico nos morros do Rio, em “Inferno”, ou dos casos de violência e assassinato de mulheres no Acre, em “Mulheres Empilhadas”). Enfim, a quantidade de premiações que ela já ganhou diz muito também sobre o primor da prosa de Patrícia Melo.

Sabe aquele livro que você não consegue largar enquanto não termina? Geralmente, é assim que me sinto quando com um livro de Patrícia Melo em mãos. Lembro que livros como “Elogio da Mentira” ou “Escrevendo no Escuro” li em dois dias. Mas não dessa vez. Como disse, faz uns meses que me arrasto na leitura de “Menos que Um”, e explico: esse livro dói.

O romance trata de diferentes personagens unidos por um mesmo fio condutor: a rua. Desempregados, refugiados, abandonados, violentados, esquecidos, toda sorte (azar?) de excluídos que vivem na rua de uma nada fictícia cidade de São Paulo. E, como diz um dos personagens do romance, que também é escritor, “a rua dói”.

Em torno disso, uma miríade de tipos envolvidos nesse universo: dos canalhas que revoltam (o miliciano cruel, o pastor corrupto) aos solidários que consolam (a jornalista engajada, a líder de ocupação). Alguns trechos me fazem beirar as lágrimas. E, assim, eu, que por uma questão de sanidade mental, tenho evitado certos assuntos, pessoas e situações, sinto-me entre a cruz e a espada com essa leitura: ao mesmo tempo em que quero usufruir do seu deleite, também quero me poupar de seu desprazer.

Mas sei que é preciso assumir a dor. Sugá-la em toda sua dolorosa condição de ser. Bebê-la até a última gota. É preciso, sim, sair da bolha do privilégio de poder ter tempo livre para ler e perceber, ao redor, o quanto há de pessoas sofrendo e lutando, teimando em resistir, pessoas que não podem se dar ao luxo de ocupar seu tempo optando por ler ou não um livro.

Então, para lidar com essa dor, migro para uma reflexão possível que a mim, professora e pesquisadora, atrai: a diferença muito sutil entre indivíduo e sujeito (autor ou personagem).

O personagem que mencionei antes, Iraquitan, é escritor. Não porque tenha sido “descoberto” por uma grande editora e tenha sua obra publicada em livro (“Cadernos Anárquicos com palavras categorizadas, homens despedaçados, colóquios, monólogos e pensamentos avulsos”), não porque tenha alçado o topo na lista dos mais vendidos e tenha sido convidado a dar autógrafos e entrevistas. Antes, Iraquitan já era conhecido pelos colegas de rua pela alcunha de Escritor, já era fascinado pelo poder das palavras e fazia o que faz efetivamente uma pessoa que escreve: de caderninho em punho, Iraquitan escrevia, soubessem disso e o celebrassem ou não. E, como escritor, tentava dizer o mundo ao redor à sua maneira.

Em determinado trecho, surpreso com a atenção que passou a receber dos colegas, o personagem de Iraquitan reflete:

Nenhum rueiro gostava de ser retratado, vai fotografar sua mãe, gritavam para os que tentavam registrar a miséria das ruas com intenção de publicá-las nas redes sociais junto da foto do filho, da placa “Foda-se”, do prato com vegetais orgânicos e da praia de fim de semana. Contudo, as putas, os cracudos, os mendigos, os catadores, os desempregados, os bêbados da maloca, mesmo sem saber exatamente do que se tratava, demonstravam interesse em participar dos seus “Cadernos Anárquicos”.

Esse capítulo nos permite extrapolar a mera narrativa e buscar conexões com várias discussões: do mercado livreiro à espetacularização da miséria; dos limites entre realidade e ficção à função social da literatura.

E em relação a esse último aspecto, como disse a própria Patrícia (ver https://youtu.be/duwf55Y3jyA ), a literatura tem esse “poder de esfregar a realidade na nossa cara”. Não poderia ser fácil. E dói. Viver não é fácil, aliás, não é fácil para a grande maioria da população, sobretudo onde o retrocesso e a desumanidade de governos fascistas investem contra segmentos mais vulneráveis.

Por falar nisso, enquanto processo este artigo, leio no jornal Tribuna do Norte: Natal tem 1.491 pessoas morando nas ruas, apontam dados do Censo. Em todo o estado do RN, são 2.200 pessoas. E ainda segundo a matéria, “o estudo também mostrou que cerca de 135 mil pessoas vivem em extrema pobreza no Estado, ou seja, vivem com renda per capita de aproximadamente R$ 160”.  (ver http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/natal-tem-1-491-pessoas-morando-nas-ruas-apontam-dados-do-censo/547741 ).

Como não se doer com tudo isso? Como pensar que o Brasil vai bem? Uma voz cínica poderia perguntar: “quer dizer, então, que toda literatura agora precisa ser panfletária?”. Ou ainda “quer dizer então que agora todos temos que ser um Padre Júlio Lancellotti?”. Quanto à primeira indagação, eu diria que não estou aqui para propor agenda para ninguém, sobretudo sobre o que cada um quer ou pode escrever. Quanto à segunda, eu responderia: sim, quem dera!

Mas o que eu gostaria mesmo é de dizer à Patrícia Melo que seu livro me dói muito, mas que também é um alento porque me faz perceber que ainda sou capaz de me escandalizar e de me doer com a dor do outro. É um primeiro passo para a gente tentar mudar as coisas ao nosso redor e ter um pouco ainda de dignidade humana. Espero dar conta dessa dor até o fim deste ano. E espero também que o próximo ano seja de mais esperança para nós no Brasil, sejamos leitores ou não.

 

 

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