OPINIÃO

Salizete Freire e a idade do afeto

ilustração de André Neves para o livro "Mundo pra que te quero", de Salizete Freire
ilustração de André Neves para o livro “Mundo pra que te quero”, de Salizete Freire
Por Ana Cláudia Trigueiro
Salizete merece textos melhores do que este. Como uma das grandes escritoras brasileiras para a infância, ela faz jus a pesquisas, resenhas, biografias e homenagens. Levaria um tempo até que eu pesquisasse e apresentasse toda a trajetória desta talentosa potiguar na defesa e promoção da leitura, mas o texto insiste em nascer agora mesmo. Talvez porque fale de uma autora que, em suas próprias palavras “desistiu de ouvir as pessoas de tamanho grande, que passaram toda a vida esperando pelo tempo para crescer”. Então, o que você lerá a seguir, são apenas impressões de uma fã que foi positivamente marcada por sua presença no mundo.
Em um dos livros que tenho dela leio a seguinte dedicatória feita a um pequeno leitor: “Luca você é super legal!”. Por aí já dá para imaginar o tipo de escritora que ela era: uma que se preocupava com seus leitores. É nítida a intenção de promover, na criança a quem dirige o autógrafo, a autoestima que tanto bem nos faz. Salizete desejava que Luca soubesse o quanto era bom e isso me lembra (agora as lágrimas descem) de quando nos encontramos pela primeira vez…
Era minha estreia, digamos assim, no circuito literário local. Havia uma plateia lotada de professores de todo o estado naquele 14º Seminário Potiguar Prazer em Ler e a CJA havia me incumbido de apresentar “O Mistério do Verde Nasce”. Temia que as mestras descobrissem que eu era uma fraude, que não sabia escrever, que meu livro era ruim, que… (minhas fantasias eram semelhantes às de uma grávida: medo de que o filho tivesse problemas de saúde).
Após minha apresentação desci as escadas e me deparei com o Zé e a Salizete. Anos antes, minha amiga Fernanda tinha me indicado seus livros, eu havia iniciado minha coleção “Salizeteana” e já era fã, então foi uma alegria vê-la me esperando. Para a minha surpresa, ela parecia empolgada com a minha história. Claro que me ofereci para dar o livro de presente. Para mim seria uma honra tê-la como leitora. A resposta me emociona até hoje: “Me dar de presente? Não! Faço questão de comprar o seu livro!”. E cumpriu a promessa. Quando me dirigi ao stand, observei que uma das pessoas que aguardavam na fila de autógrafos daquele dia era Salizete.
Anos depois pude dizer a ela o quanto o seu gesto me estimulou. Talvez, se eu tivesse conhecido essa grande escritora ainda na infância, saberia antes que, sim, eu também sabia escrever; mas só adulta conheci os autores prediletos pessoalmente. Não me beneficiei, como o Luca, na idade mais necessária. Hoje tenho minha dedicatória dela, claro. Na 2ª edição de “Bicho pra que te quero”, a fada madrinha escreveu: “Ana Cláudia, com carinho de vida e sorte, Salizete.”
Os familiares, amigos, leitores, colegas da educação… a própria literatura está de luto e profundamente comovida com sua passagem. Uma partida precoce que me fez lembrar desses trechinhos lindos de “Mundo pra que te quero”:
“Amigo sol, eu posso ficar grande antes do tempo?”.
“Ninguém a convencia de que o tempo era o encarregado direto de fazer esta mudança naturalmente. Insistia em não esperar o tempo chegar para poder crescer. Na vontade crescida, ela queria antecipar as coisas e chegar antes mesmo de o tempo alcançar-lhe o rastro…”.
Salizete não obedeceu ao tempo. Partiu na idade do seu afeto. Sofremos porque a amamos e porque desconhecemos os mistérios da mágica vida para além desta vida, que ela mesma e tantas vezes nos apresentou.
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