ENTREVISTA

Stedile: Do ponto de vista da correlação de forças das classes, o Lula já é o novo presidente da República

Seis anos depois do golpe contra a presidenta Dilma Rousseff e com a reforma agrária paralisada, o líder do Movimento dos Trabalhadores Sem terra (MST), um dos maiores e mais articulados movimentos sociais de toda a América Latina, João Pedro Stedile, aponta as eleições deste ano como a saída política para a crise social e econômica que o país enfrenta. “Dia 2 de outubro é mais que uma eleição. É uma espécie de encruzilhada”, afirma.

Para ele, “Lula é o símbolo de um projeto alternativo para conseguirmos recolocar o país nos rumos”. E acrescenta, “do ponto de vista da correlação de forças das classes, o Lula já é o novo presidente da República. O detalhe é se ele será consagrado pela vontade popular dia 2 ou dia 29”.

Na passagem pela capital potiguar no último dia 23 de setembro, onde participou da Feira Popular da Reforma Agrária, Stedile conversou com a Agência Saiba Mais. Na pauta, a importância e o desafio das eleições de 2022, a luta pela reforma agrária, e o papel do Consórcio Nordeste na discussão de políticas públicas para a Agricultura Familiar.

Confira a entrevista.

Em 2017, quando nasceu a Agência Saiba Mais, você concedeu a primeira entrevista a este veículo de mídia independente do Estado. De lá pra cá, numa conjuntura de ascensão da extrema direita no país, que transformações você apontaria no MST?

Eu acho que mais que o MST, precisamos entender o que aconteceu com o Brasil. Porque a reforma agrária está paralisada desde o golpe contra a Dilma. Inclusive um pouquinho antes, ainda no último governo da Dilma, ela não fez nada pra reforma agrária. Então, o MST foi duramente afetado porque a política de reforma agrária e as políticas públicas para a agricultura familiar foram interrompidas. E eu acho importante os nossos leitores entenderem que não foi só um contexto do MST e da Reforma Agrária. O Brasil veio de uma grave crise, a pior de toda a sua história, que emergiu lá em 2014. É uma crise capitalista profunda, que nos afetou ainda mais por nós sermos uma economia dependente do capital estrangeiro. Nós somos politicamente dependentes dos interesses dos Estados Unidos. E essa crise é grave porque ataca a economia, nós estamos há oito anos sem crescer. Ela produziu uma desigualdade tremenda, nós temos 72 milhões hoje de trabalhadores fora da esfera produtiva, que foram jogados na calçada, fora do mercado, perderam os seus direitos e não têm emprego e renda fixa.

Então a sociedade brasileira é agora ainda mais desigual, a mais desigual de toda a sua história.

Emergiu também com a crise graves crimes ambientais em todo o país, que aparecem de diversas formas. Porque o capital vai lá para natureza para se apropriar de forma privada daquilo que é bem comum como terra, vento, sol, minérios, biodiversidade, florestas e água. E é uma crise política, porque os instrumentos do Estado burguês estão em crise.

Bom, diante desse cenário de crise, o que fez a burguesia? As elites? Ela deu quatro golpes para proteger os seus privilégios. Primeiro golpe foi contra a Dilma, em 2016, sem nenhum motivo. Depois ela sustentou o governo Temer, que foi um governo corrupto, que só cumpriu a missão de tirar os direitos trabalhistas, tirar os direitos previdenciários e estabelecer a PEC do teto máximo para gastos sociais. Depois eles deram um golpe prendendo o Lula, sem nenhum motivo, que hoje está mais que claro foi uma articulação inclusive do FBA e da CIA, que orientaram o Moro. E o quarto golpe eles elegeram o Bolsonaro.

O Bolsonaro não tem força própria. Ele não tem base social. Bolsonaro é um pau mandado da burguesia. É um pobre diabo. É um político medíocre.

Então, depois de seis anos e de quatro golpes, o que aconteceu no Brasil? A crise só se aprofundou, eles não resolveram nem o problema da economia, nem da sociedade, nem dos crimes ambientais e nem da política. Todos os dias a gente vê os três poderes se engalfinhando.

Felizmente nós temos pela frente aí a saída política, que é as eleições do dia 2 de outubro.

Então 2 de outubro é mais que uma eleição. É uma espécie de encruzilhada.

O Brasil segue aprofundando a crise que levaria a uma tragédia social incalculável, ou nós já vamos adotar um outro caminho, que é reconstruir um projeto de país do qual o Lula é o principal símbolo. O Lula é maior que a esquerda, que o PT. O Lula é o símbolo de um projeto alternativo para conseguirmos recolocar o país nos rumos, para resolver as necessidades fundamentais da nossa população.

E o MST e a reforma agrária são consequências de todo esse processo. E por isso que estão paralisadas a reforma agrária e todas as políticas públicas. O que nós procuramos fazer é utilizar a nossa base social, que já tem teto, e, até provocados pelo Covid, produzir alimentos, alimentos sadios, e fazer campanhas solidárias de entrega desses alimentos para população mais pobre, das periferias da cidade, que estava passando muita necessidade.

Nestas eleições, o MST lança uma contraofensiva ao bolsonarismo com 15 candidaturas próprias. Qual a expectativa do movimento?

O MST sempre participou das eleições, como qualquer cidadão. Nós sempre procuramos debater e orientar a nossa base para votar na esquerda, independente de sigla. E em todos os estados sempre nós tivemos um ou dois representantes na assembleia. Um ou dois deputados federais.

A novidade de agora é que, além dos candidatos que nós já apoiávamos e vamos continuar apoiando, surgiram na nossa base companheiros com vocação pra participar da política.

E como o cenário político da mudança exige essa luta política excepcional, então, é claro, o MST como um todo, não só no afã de eleger os nossos, mas sobretudo num afã de mudar o país, que nós temos que eleger mesmo é o Lula, eleger a professora Fátima aqui, eleger uma poderosa bancada, seja no senado, seja na câmara, seja nas assembleias legislativas que seja comprometida com a classe trabalhadora e com as mudanças do país, então, o MST, nos últimos meses está colocando todas suas energias, toda a sua militância para que o Brasil mude de fato.

Quais os maiores prejuízos à luta pela terra no governo Bolsonaro?

Na agricultura brasileira há três modelos que se enfrentam nos últimos 30 anos. Desde o Fernando Henrique ou do neoliberalismo. Dois modelos do capital e um da agricultura familiar, que é dos trabalhadores.

Os modelos do capital um é o latifúndio. Não simplesmente como sinônimo de grande propriedade, que é o que a palavra quer dizer. O latifúndio é o modelo predador. Ele que se apropria dos bens da natureza, das florestas, das águas, da biodiversidade. Ele não produz nada na sociedade brasileira. Ele só se apropria dos bens da natureza e eles ficam ricos.

Depois nós temos o modelo do agronegócio. O modelo do agronegócio é o modelo do capital que produz commodities. Então, eles vão lá para a agricultura e produzem muito, mas eles produzem pra exportação commodities. E produzem utilizando um modelo que também é predador, eles usam semente transgênica, usam muito agrotóxico, faz uso de máquina e uso de fertilizantes agroquímicos. Esse pacote também é insustentável do ponto de vista ambiental e também do ponto de vista econômico. Agora com a guerra da Ucrânia toda fazendeirada brasileira não dorme, porque 20 milhões de toneladas de agrotóxicos e agroquímicos são importados, e com a guerra o fluxo internacional foi interrompido ou os preços foram para estratosfera.

Então isso é uma prova que o agronegócio produz riquezas, mas beneficia os fazendeiros, donos da terra, e as transnacionais, que controlam o modelo. E mais, eles não produzem alimentos. Você não viu nenhum caminhão do agronegócio distribuindo alimentos, porque eles não produzem alimentos. Mesmo aqui no Nordeste, o modelo do agronegócio produz frutas em escala: melão, abacaxi, banana, mas para quem? Para a Europa. E sempre com muito agrotóxico.

O terceiro modelo é da agricultura familiar, da qual a reforma agrária está inserida. É o modelo da classe trabalhadora, em que a lógica do modelo é que as famílias produzem alimentos e produzem o trabalho familiar. E evita usar agrotóxico, ainda que alguns lá no Sul, que produzem soja etc., use também agrotóxicos.

Então, a agricultura familiar é a que produz alimentos que o povo da cidade come. E ela produz com mão de obra familiar, então ela dá trabalho.

Dezesseis milhões de pessoas trabalham na agricultura familiar, incluindo os assentados. Já no agronegócio são, no máximo, 4 milhões de trabalhadores assalariados, que inclusive a maioria deles não tem trabalho o ano inteiro. Ele só contrata por plantio e para colheita.

Bom, agora vamos ao Bolsonaro. No governo Lula e Dilma eles combatiam o agronegócio. Eles combatiam o latifúndio. Até pelo fato de estar lá no Ministério do Meio Ambiente a Marina, que é da Amazônia, sabia bem da realidade. Mas, o governo Lula e Dilma defendia a conciliação entre agronegócio e a agricultura familiar. Tanto é que tinha um ministério para cada um. Agricultura para o agronegócio e agricultura familiar para o MDA. Aí veio os governos Temer e Bolsonaro. O que mudou na correlação de força? É que esses dois governos passaram a combater a agricultura familiar.

A agricultura familiar não só saiu do governo, mas ela passou a ser combatida pelas políticas do governo.

O latifúndio, que estava fora do governo desde o Fernando Henrique e do governo Lula e Dilma, entra para o governo. Na figura do Nabhan, que é secretário de políticas fundiárias, ex-presidente da UDR, é como entregar o galinheiro pra raposa. Na figura do Sales, que foi ministro do meio ambiente, o ministro daquela famosa frase “passar a boiada”. Então, o latifúndio chegou no centro do poder. E o agronegócio está dividido. Porque não existe mais uma burguesia agrária, que só vive da agricultura.

O agronegócio, como eu expliquei antes, ele é dirigido e a sua renda é apropriada não só pelo proprietário da terra, o fazendeiro, mas pelas grandes empresas transacionais e os bancos. Então, o agronegócio é dirigido por essas três forças. E essas três forças se dividiram em relação ao Bolsonaro.

Então, nós temos uma parcela do agronegócio que é contra o Bolsonaro.

Por quê? Primeiro porque sabe que o Bolsonaro é doido. Segundo porque eles temem que a política externa do Bolsonaro afete os seus interesses das commodities, sobretudo com a China, mas mesmo com a Europa. A Europa está dizendo que não compra mais carne que venha de pecuária, de desmatamento. No futuro, já estão avisando, em cinco anos vão parar de comprar commodities com agrotóxico. Então o governo terá que, no futuro, se reajustar à política do agronegócio para manter o mercado externo que corre risco de perder.

Então, o agronegócio em relação ao governo Bolsonaro está dividido e nós, a agricultura familiar, estamos perseguidos. Então em termos de política pública ele acabou com a reforma agrária, ele queria acabar com o MST, dito em vários discursos. Queria nos criminalizar e tentou fazer três, quatro despejos emblemáticos, mas a sorte que a nossa base e a sociedade nos defenderam. Então, ao impedir o despejo de áreas emblemáticas como aqui em Pernambuco, no Centro de Formação Paulo Freire, ou lá no sul da Bahia,

nós peitamos Bolsonaro, impedimos a criminalização. Mas do ponto de vista de política pública, não houve mais nenhuma área desapropriada. Ele mente descaradamente sobre a reforma agrária.

E ele eliminou duas políticas fantásticas, que eram políticas de apoio à agricultura familiar. O PAA, que é a política de compra antecipada de alimentos, que fortalece a agricultura familiar para garantir contrato, de levar o alimento para a cidade, e a outra é a PNAE. Que a PNAE alimenta as crianças, são lá umas trinta, quarenta milhões de crianças que todo dia come merenda. Então, no governo Lula e Dilma, nós conseguimos uma lei que determinava que 30% da merenda tinha que ser da agricultura familiar. Agora num próximo governo nós vamos ver esse amplia para 100%. Mas ele acabou com o PNAE, né? Apesar de uma inflação anual aí de 10%, os recursos do MEC continuam os mesmos de 2018. As diretoras de escola não sabem o que fazer porque não tem o que dar. Aí recua, vai pros processados, para as bolachinhas, para o cachorro-quente, que não deixa de ser o embutido super processado.

Então essa política do Bolsonaro foi de destruição da agricultura familiar através da negação dessas políticas. Felizmente nós resistimos. E ele irá pra lata do lixo da história.

À nível regional, como você avalia o papel do Consórcio Nordeste na discussão e articulação de políticas voltadas para a Agricultura Familiar? Da mesma forma, à nível estadual, de Rio Grande do Norte, como avalia a gestão na área da Agricultura Familiar?

De novo, indo para o geral, naquele contexto anterior que eu disse que a agricultura familiar, apesar do governo Bolsonaro, nós conseguimos resistir, você vê que praticamente não houve grandes contingentes de êxodo rural. Nós mantivemos a mesma população no campo que havia, digamos em 2016 ou 2018. Então houve um processo de resistência.

Nós não avançamos. Nós resistimos, a agricultura familiar continuou firme e forte.

E uma das causas e porquê que nós conseguimos resistir, foi a sorte que nós tivemos, pela mão do povo do Nordeste, que praticamente aqui no Nordeste até o Pará todos os governadores são progressistas. Daí veio essa ideia que também é muito boa do Consórcio do Nordeste.

Ainda que ela é mais efetiva nas compras públicas em comum, porque baixa o preço, mas ela também efetiva porque, até acompanhei algumas reuniões, porque conseguiram criar uma identidade programática. Então, por exemplo, eu fui em reuniões que reuniu todos os secretários de agricultura ou agricultura familiar e eles discutiam políticas unitárias. E todas essas políticas sempre foram em favor da resistência da agricultura familiar. E é claro que depois cada estado aplicava com o seu sotaque, vamos dizer assim. Mas em quase todos os estados nós tivemos medidas pontuais, mas que ajudaram a resistir. Então lá na Bahia houve uma distribuição maior de máquinas. Aqui você citou essa ideia maravilhosa que a professora Fátima está aplicando. O mesmo espírito da merenda escolar, ela determinou que todas as compras de alimentos do estado, sejam pra polícia, seja pra presídio, seja pra outras escolas do ensino médio, que não são cobertas pelas verbas federais da PNAE, ela determinou que fossem comprados à agricultura familiar. Então, isso é um salto importante. No Ceará nós tivemos a iniciativa da lei que proíbe a pulverização aérea de agrotóxico. Isso é uma revolução. Coisa que na Europa já está, é proibido na Europa passar veneno de avião. Porque é uma insanidade despejar o veneno no ar que leva pra qualquer canto, cai em poço d’água, cai em rio e cai até em escola, como aconteceu em vários estados. Então felicito aqui no Nordeste, através do consórcio, e de iniciativas pontuais,

nós tivemos uma espécie de retaguarda, ainda que o central da política contra a fome e de produção de alimentos seja de responsabilidade do Governo Federal, que tem os instrumentos na mão, mas os governos dos estados do Nordeste nos ajudaram muito.

E a última que foi uma boa novidade, que se ensaiou na feira nordestina aqui em Natal, mas por conta da covid nós não conseguimos trazer parceiros de universidades e do governo chinês. Por quê? Porque a China fez uma reforma grande em 1949 que distribuiu toda a terra agricultável pros camponeses. E na média deu dois hectares por família. Todo camponês chinês tem dois hectares por família. Todos. E não passam fome e alimentam outros oitocentos milhões que moram na cidade. Seiscentos milhões são camponeses que alimentam oitocentos milhões.

Mas a China, ao longo desses 60 anos da revolução deles, foram muito sábios e eles praticamente desenvolveram máquinas agrícolas pros camponeses para todas as atividades agrícolas que você pode imaginar.

Então nós temos uma brigada do MST lá na China, que já está há anos, desde antes do Covid, e um dos papéis que eles tiveram lá, além de interagir com pesquisadores etc. tal, eles fizeram um cadastro, claro, tiveram que pesquisar, ir a campo, tal. De duas mil máquinas que os camponeses poderiam utilizar, nós selecionamos 200 que seriam mais apropriadas pro Nordeste. Desde plantar a mandioca, plantar milho, sorgo, etc.

Ou seja, qual é o objetivo de ter uma máquina pra camponês? É porque ele tem que preservar a sua saúde, ele não pode usar a sua força física, deixe a máquina usar a força. Isso é o progresso, né? Poupar saúde e aumenta muito a produtividade.

O cara sozinho, ele e a mulher com uma enxada, vai suar pra plantar um hectare de mandioca. Com uma máquina ele planta numa hora, as outras sete horas ele vai pra sombra, descansar, cuidar de galinha.

Vira uma revolução nas relações sociais e de trabalho. E a nossa surpresa positiva é que o consórcio abraçou logo de imediato essa ideia. Nosso objetivo era na feira nordestina trazer algumas máquinas, mas não deu tempo, o movimento de transporte marítimo estava prejudicado pela Covid, e nós fizemos uma exposição das fotos das máquinas. E agora, mês passado, o governador Paulo Câmara, em nome do Consórcio, assinou então um protocolo formal, e, no próximo mandato, vamos torcer que sejam todos progressistas, e o pelo que tenho andado no Brasil, no Nordeste, vamos ter de novo renovação progressista, a gente possa fazer importação de um modelo, pelos órgãos da Secretaria da Agricultura, de Pesquisa, testa em campo, pra ver se se adaptam ao solo e os próprios agricultores dizerem se essa máquina que quer. Aí depois do teste, na sequência seria então os chineses transferir a tecnologia e a gente colocar fábricas aqui. E fazer fábrica de máquina agrícola é muito simples.

Lá no Sul, inclusive nós temos muitas oficinas de fundo de quintal que fazem. Não precisa ser uma grande fábrica multinacional. Então, com o apoio do Governo, do Banco do Nordeste, eu acho que nós podemos criar um novo ramo de reindustrialização no Nordeste baseada na fabricação de máquinas que os camponeses do Nordeste precisam. E, na sequência, ainda não está no protocolo, nós descobrimos pela nossa brigada que lá na China eles tem um arroz sequeiro, desenvolvido pela pesquisa, com melhoramento genético, ainda que não seja transgênico, ou seja, não fez mutação com outras plantas, ele é só melhorado dentro da mesma genética do arroz. Isso é uma variedade arroz sequeiro que produz cinco mil e oitocentos quilos por hectare.

Nós queremos trazer essa semente pra cá. E isso é uma operação de governo, não é? Não somos nós do movimento que vamos lá e trazemos um saco. É o consórcio então que vai ter que negociar com a universidade, com o governo chinês, trazer alguns sacos para testar aqui no Nordeste. Você imagina se no sertão nós vamos começar a produzir arroz. E nós estamos muito felizes com essa possibilidade. Porque hoje, e olha eu estou dizendo como gaúcho, 80% do arroz consumido no Brasil é do Rio Grande do Sul, na forma de irrigação, na forma de agronegócio. Nós do MST que rompemos a barreira e estamos produzindo na forma de agroecologia. Mas no passado, cada estado produzia arroz. O Maranhão foi um grande produtor de arroz. Hoje não produz nada. Vem tudo do Rio Grande do Sul. Porque os camponeses com baixa produtividade e sem máquina, não conseguem. No Maranhão, como eu vejo lá nos assentamentos, na hora de colher o arroz, eles vão com canivete. Pega o arroz aqui com a mão, corta com o canivete, faz um montinho. É insano, ele para colher um hectare leva uma semana. Entendeu? Então tem que botar máquina para colher o arroz. Eu vi lá na China a colheitadeira de arroz nesses dois hectares. A colheitadeira tem o tamanho de uma Kombi. E ela vai lá, colhe e cai o saco, ensacando o arroz, aí vem um outro trator e carrega e vai e no outro dia vai pra outra área, né? O camponês não precisa ser dono da colheitadeira de arroz. Ela é da associação, da cooperativa ou do governo.

Então para concluir, eu vejo com boas perspectivas a partir do ano que vem nós abrirmos um leque, através do consórcio do Nordeste, para amplificar muito as políticas. Mesmo o PNAE pode ter recursos do governo federal pra botar nos governos estaduais e eles operarem. Nem todos os municípios têm Conab. Que é a Conab a operadora do PNAE. Então nós podemos fazer convênio, fazer com que os estados operem o PNAE, eles poderão aumentar a merenda no ensino médio.

No RN, a iniciativa do Armazém do Campo está sendo viabilizada através de uma emenda parlamentar destinada pela deputada federal Natália Bonavides, e tem o apoio do Governo do Estado, que fez a cessão do prédio que abrigará a nova central de vendas direta da agricultura familiar do RN. Fala um pouco sobre essa experiência e a qual a expectativa aqui para o Estado.

Surgiu no Rio Grande, no Mercado Central, mas não tinha esse nome. Lá era a loja da reforma agrária. Mas quando nasceu como rede, aí faz cinco anos, lá em São Paulo, o armazém do campo.

O objetivo dele é ser uma vitrine. Para mostrar para população da cidade que é possível você produzir alimentos agroecológicos, todos eles.

Essa é a história da humanidade. A humanidade sempre comeu coisa agroecológica, sem veneno. O veneno veio depois da Segunda Guerra Mundial. O veneno tem 60 anos. A humanidade tem dez milhões de anos. Então nós queremos provar no armazém do campo bota lá com o vitrine. Você pode ter abacaxi, frutas, arroz, tudo que imaginar pode ser orgânico, agroecológico. Então é uma vitrine. Ela não tem o objetivo de fornecer para as grandes massas. Porque o nosso objetivo de levar comida boa e barata agroecológica para as massas é o PAA e o PNAE. Mas também o armazém do campo ele se transformou.

Se eu pudesse eu teria mudado o nome. Armazém do Campo Câmara Cascudo. Por quê? É pegando a pegada do Câmara Cascudo. Alimento da terra com cultura.

Então no armazém do campo tem que levar lá não é só comida. Tem que levar lá os artistas da terra, os pintores, fazer exposição de foto, levar cantadores, levar também os nossos representantes na política pra dar palestra, pra ser um espaço de cultura, de política, de artes. Então, é essa a concepção do Armazém do Campo. E felizmente aqui nós estamos viabilizando então, como você disse, por essa emenda da Natália. Então é dinheiro público que nós temos que zelar. E num prédio, que eu tive oportunidade de conhecer, belíssimo, tombado pelo patrimônio histórico, mas também numa região, pelo que eu vi lá, perto do porto, passa muita gente. Eu acho que vocês estão de parabéns porque conseguiram justamente captar o que é a proposta do armazém e eu acho que vai ser um sucesso aqui também, porque ele é um espaço de aglutinação, sobretudo da militância, da juventude, das artes.

Acredita numa vitória de Lula em primeiro turno? E qual é a agenda mais urgente da esquerda para o país?

Nós precisamos eleger o Lula no 1º turno. Eu tenho esperança. Mas eu não posso ter certeza, porque ninguém tem certeza. Assim como ninguém tem certeza estatisticamente que ele só vai pro segundo turno.

Do ponto de vista da correlação de forças das classes, o Lula já é o novo presidente da República. O detalhe é se ele será consagrado pela vontade popular dia 2 ou dia 29.

E acabou virando um detalhe mesmo. Porque há muitos fatores que estão interagindo. O fato de a Globo querer que ele vá pro segundo turno e daí transformou a Tebet numa santa. A teimosia do Ciro. E eu espero que os eleitores do Ciro e da Tebet, daqui até o dia 2, mude de voto, porque não é por oportunismo, como o Ciro disse, porque a única forma daquelas boas ideias que o Ciro possa ter serem concretizada é sendo o governo Lula. Porque ele não tem chance. Então, se eles continuarem com a teimosia, podem levar eleição pro segundo turno, ainda que também nós não podemos ser maniqueísta e dizer que o Ciro está a favor do Bolsonaro. Não é isso. Ele tem todo o direito de ser candidato. Está cumprindo, mas os eleitores dele, eu estou falando aos eleitores do Ciro e da Tebet, que devem botar a mão na consciência e nos ajudar a ganhar no primeiro turno.

Mas há outros fatores que as pesquisas não detectaram. Por exemplo, a base da radiografia da distribuição de renda sobre a que os institutos fazem a mostra está defasada. Porque depois da Covid não houve mais PNAD presencial. Então nós não sabemos mesmo qual é a parcela que está lá abaixo dos cinco salários. E abaixo de cinco salários o Lula ganha. Então esse fator não é erro dos institutos, é amostragem que pode não ser igual. A outra é os 7 milhões de jovens que vão votar pela primeira vez. A gente sabe que eles são do Lula, mas há também pesquisas qualitativas que eles não gostam de política. Mas gostam de cultura. A cultura eles têm ido bem. Por exemplo, no Rock in Rio, todas noites eles gritavam fora Bolsonaro. Mas é um eleitor que ele não está organizado. É uma juventude está começando a participar da sociedade, então é um voto indecifrável, porque ele pode não ir votar, ele pode votar nulo, o certo que ele não vota no Bolsonaro. Mas se os 7 milhões votassem no Lula já daria o primeiro turno. Terceiro fator, que é uma incógnita, são as mulheres da periferia. Maioria delas são evangélicas. O discurso do Bolsonaro é um terror. Ele tenta sequestrar os evangélicos. Nós temos pesquisas qualitativas que demonstram que esse é o setor mais indeciso. Ele já disse no que que está votando, mas é que ainda pode mudar. O fato é que as mulheres evangélicas da periferia são elas que pagam o gás. São elas que estão sentindo que não voltou carne pra mesa e, lá no Rio de Janeiro, são elas que estão enterrando os filhos que a milícia do Bolsonaro mata. Esse alto índice de homicídios de jovens negros nas grandes cidades, são filhos de mães evangélicas negras. Então esses fatores que nos dão uma incógnita.

Agora eu estou esperançado que a gente liquide a fatura dia 02. Nós estamos bem posicionado com os governadores até no Sudeste.

O Lula só perde em Santa Catarina, o que é uma novidade. Com Haddad nós perdemos tudo. Agora nós vamos eleger bons governadores, mesmo lá no meu Rio Grande eu acho que nós vamos pro segundo turno.

Então eu acho que vai ter mudanças também nos governadores do sul e sudeste, quem sabe eles façam um consórcio do Sul e Sudeste no futuro. E a tarefa da militância é nessa última semana arregaçar as manga, ir de casa em casa. Quem gosta de cultura sente numa praça, faça demonstrações, faça o que quiser, mas se manifeste. São oito dias que podem mudar o que vai fazer pro bem ou pro mal.

E na sequência da vitória do Lula nós vamos ter que continuar com os comitês populares atuantes e discutir um projeto do país, porque a campanha infelizmente não conseguiu discutir, a campanha só foi os símbolos pra trás e pra frente. Mas ela não conseguiu discutir ideias. Então a gente vai ter que juntar os comitês populares, os sindicatos e a universidade para discutir um projeto. E combinado com isso, discutir um plano de emergência. O que o Lula tem a fazer em janeiro? Tem coisa como a fome, o desemprego, emergência. Se ele não fizer de emergência, a burguesia vai tentar controlá-lo.

E depois do Lula tomar posse, nós nunca podemos esquecer que as mudanças só são possíveis com mobilização popular. Toda tarefa do militante está colada com o movimento popular, com as lutas de massa pra poder mudar o Brasil.

Clique para ajudar a Agência Saiba Mais Clique para ajudar a Agência Saiba Mais
Artigo anteriorPróximo artigo