OPINIÃO

Uma cura pelo amor

Por Ana Cláudia Trigueiro

O Posto de Saúde São João funciona em um prédio pequeno, mas há um amplo espaço vazio circundando-o. Sempre que posso, bebo café ou como uma fruta, enquanto caminho pelo terreno cercado por prédios. Ao fundo, há um muro alto e por trás dele, árvores. De onde estou, dá para ouvir o som do vento e o canto dos pássaros que se escondem nos galhos. Quando voam, me fazem pensar nesse verso de Fernando Pessoa: “Às vezes ouço passar o vento e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido”.

Eu não imaginava, ao iniciar a faculdade há 25 anos, que lidaria tão intimamente com o sofrimento humano. No período do estágio percebi que as dores da existência acompanhavam todas as queixas que os pacientes traziam ao Serviço de Psicologia Aplicada da UFRN. De início foi um susto. Depois fui me acostumando com o fato de que o sofrimento psíquico do outro seria uma constante no meu percurso profissional.

Precisei aprender a estar perto das muitas manifestações da angústia, sem me deixar arrastar por elas. Claro que nem sempre consegui. Eu tinha dificuldade de atender crianças quando as minhas próprias eram pequenas e muitas vezes me identifiquei com o sofrimento de mulheres que atendia.

A terapia me ajudou a me “descolar” das falas dos pacientes. À parte disso adotei um recurso: procuro enxergar uma nova oportunidade de aprendizado em cada atendimento que realizo: os ansiosos me ensinam a olhar com mais paciência para a minha própria vida, para minhas limitações e frustrações. Cada relato de tristeza me aponta a necessidade de pedir ajuda quando eu mesma estiver triste e de buscar o que me faz bem: leituras, escrita, caminhadas, contemplação da natureza… o sofrimento dos idosos me incentiva a me preparar para a minha própria velhice. O medo me encoraja a olhá-lo de frente em busca de desvendá-lo; a culpa me lembra de me perdoar; a baixa autoestima me convoca ao autocuidado e ao amor-próprio. Sigo nesse caminho buscando aprender com os sintomas que a dor provoca, tendo em vista que ela se tornou presente de maneira peculiar em minha vida.

Considero um privilégio estar diante de pessoas que me confiam sua história. É uma relação de confiança que se constrói aos poucos e com muita delicadeza, pois esse encontro geralmente se dá em momento de intensa vulnerabilidade. Não é fácil admitir a um estranho que não se está bem. A maioria dos que atendo, principalmente os homens, tem vergonha de chorar. Um deles disse certa vez: “Eu nunca choro. Ou melhor, eu choro para dentro”.

Quando me perguntam: “O que adoece emocionalmente?” Respondo que a vida nos traz experiências boas e ruins. Ambas promovem desenvolvimento, mas comportam traumas. A vida pregressa é tema fundamental de uma terapia. É preciso ressignificar o passado para se libertar do sofrimento de agora.

Como seres sócio-históricos também sofremos devido à forma como o mundo se organiza no tempo e no espaço: desemprego, falta de renda, violência urbana, catástrofes naturais, pandemias, guerras… tudo isso gera e retroalimenta as doenças mentais. Por isso não dá para pensar no trabalho de um Psicólogo apenas dentro do consultório e alienado do contexto social. É necessário psicoeducar através de palestras, rodas de conversas, visitas à instituições, principalmente as que atuam com jovens e idosos.

A primeira vez que uma pessoa me revelou estar pensando em desistir, senti o medo gelar minhas mãos. Eu havia acabado de sair da faculdade e temi não conseguir ajudar. Mas fiz o que aprendi e esperei pelo melhor. Seguimos com a terapia e ela iniciou a medicação antidepressiva. Após dois meses, sorria e demonstrava que havia recobrado a esperança. De lá para cá, o medo já não afeta o calor das minhas mãos. Adquiri a serenidade que a experiência traz.

Percebo que o amor está presente em todas as falas das pessoas que atendo. Sem dizer a palavra e apenas contando suas histórias, elas revelam que seu sofrimento está ligado ao afeto ou à falta dele. Fernando Pessoa tem o verso perfeito para isso: “Porque quem ama nunca sabe o que ama. Nem sabe por que ama, nem o que é amar… Amar é a eterna inocência…”.

Da parte do Psicólogo também há um investimento afetivo. Freud escreveu certa vez sobre uma das abordagens mais populares em saúde mental: “A psicanálise é, em essência, uma cura pelo amor”.
Setembro foi instituído em 2003 como o mês de prevenção ao suicídio, pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Tem como objetivo a conscientização de um problema que atinge cerca de 1 milhão de pessoas, por ano, no mundo. Embora o suicídio seja um tema delicado, ele não pode ser um tabu. É preciso falar sobre o assunto e acolher quem sofre para conseguir prevenir.

Nesse mês de setembro, em especial, desejo que seja paciente com você e com suas dificuldades. Perdoe-se pelo que não consegue fazer e valorize sua caminhada até aqui. Fale dos seus sentimentos com alguém de sua confiança. Coloque as emoções represadas para fora. Isso ajuda a diminuir a ansiedade e a tristeza.
Por último desejo te dizer que a vida é feita de fases. O que hoje está ruim, caminha (sem a gente perceber) para algo bom. Então, precisamos ser pacientes. Cecília Meireles em um dos versos do seu poema, “Quadras”, fala sobre isso:

Os ramos passam de leve
na face da noite azul.
É assim que os ninhos aprendem
que a vida tem norte e sul.

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