CULTURA

Compositor Romildo Soares é encontrado morto em Natal, sentado na calçada da antiga C&A e em situação de abandono

O poeta e compositor Romildo Soares, 61 anos, foi encontrado morto nesta terça-feira (25), por volta das 21h10, sentado na calçada da antiga C&A, na avenida Rio Branco, no Centro de Natal. Ele segurava um pote de cuzcuz, doado por voluntários de uma igreja que distribuem comida todas as noites a pessoas em situação de rua na Cidade Alta.

Um homem que sobrevive nas ruas da região tentava acordar o músico quando a rapper Pretta Soul passou no local, estranhou a cena e parou para ajudar. Ela ligou para o serviço da SAMU, mas conta que foi ignorada:

– Esperei 40 minutos e ninguém apareceu. Liguei para a SAMU e eles não quiseram ir, depois liguei para a Polícia e eles disseram que a SAMU é quem devia ser acionada. Ficou um jogando para o outro. Com o Itep foi a mesma coisa. Só depois chegaram a polícia e o Itep, que confirmou o óbito. Mas disseram que só podiam levar o corpo depois que a SAMU atestasse que ele havia morrido. Até eu sair de lá a SAMU ainda não tinha chegado”,

Pretta Soul, por telefone, ainda sob o choque da morte do músico e do descaso do Estado.

Dez dias antes de morrer, Romildo sofreu um AVC na rua Gonçalves Lêdo e foi internado. Antes de entrar na ambulância, relatou a comerciantes próximos que não via a hora de morrer.

O velório será nesta quarta-feira (26) na Pinacoteca do Estado. O sepultamento ocorre no fim da tarde no cemitério do Alecrim.

A conta no instagram @lockdown_ criada para divulgar o disco que Romildo não conseguiu terminar, em parceria com o músico Zé Caxangá, comunicou a morte do letrista:

Queridos amigos, é com tristeza que anunciamos a morte do compositor e cantor dessas nossas terras, Romildo Soares. Maiores informações postamos aqui.

Imortalizou o presente.

Carreira

Natural de Alexandria (RN), Romildo Soares ganhou destaque no cenário potiguar como compositor.

A primeira participação de destaque na música foi com o grupo Tramppo, ao lado de grandes músicos potiguares, a exemplo de Sueldo Soares, Manassés Campos, Leão Neto e Antônio Ronaldo.

Teve canções gravadas por Khrystal, Valéria Oliveira, Geraldo Carvalho, Ana Fernandes e, em 2001, a cantora Simone incluiu www.sem, parceria com o maranhense Zé de Riba, em um álbum inédito. A música foi regravada por Khrystal no CD Coisa de Preto. Um de seus grandes sucesso é “Algumas verdades sobre a mentira”, que ganhou versão ao vivo gravada pelo Festival Dosol em 2011. Assista:

Romildo participou de vários projetos e festivais, como o Poticanto e MPBeco. Também se apresentou no projeto Seis & Meia, na mesma noite em que Eduardo Dusek fechou a noite, no Teatro Alberto Maranhão.

Em 2008, o prêmio Hangar, idealizado pelo produtor Marcelo Veni dedicou a edição ao compositor de Alexandria:

Fizemos a homenagem a ele em 2008 quando vários artistas cantaram as parcerias e canções que ele compôs. Romildo teve a trajetória de um grande compositor, por isso doía muito ver essa história se transformar, quando vimos o humano se perder no Centro da cidade”, lembrou.

O artista participou de várias coletâneas em disco e lançou o primeiro álbum em 2011, com +QImperfeito. Em 2019, pariu o livro “Pequeno livro das contravenções”, com uma coletânea de poemas. Participou ainda do projeto “Textículos manuscritos ilustrados”, em que cada cartão trazia de um lado um poema curto e do outro a ilustração de um artista visual convidado.

Em 2020, às vésperas de um show beneficente em homenagem ao amigo, o produtor Nelson Rebouças lembrou a importância de Romildo para a música brasileira:

– Falar na música papa-jerimum sem falar em Romildo é a mesma coisa que você comer camarão e arrotar sardinha. Foram diversos nomes e diversos cantores, compositores e intérpretes que gravaram pelo menos uma música de Romildo, a exemplo Khrystal, Valéria Oliveira, Ana Fernandez, Diana Cravo, Geraldo Carvalho e outros que agora não recordo. Romildo Soares tem uma grande importância para a música potiguar”, disse à época.

Abandono, HIV e rejeição 

Em 2007, Romildo passou a conviver com o vírus HIV e buscava tratamento no hospital Giselda Trigueiro, especializado na doença. Inquieto e polêmico, criticava a falta de reconhecimento do Estado e principalmente das instituições culturais.

Recebeu ajuda de amigos, rejeitou apoio em algumas ocasiões e chegou a reconhecer a vida na rua como uma opção.

Era visto constantemente tentando vender poemas em guardanapos ou livros pelas ruas da Cidade Alta. Viveu os últimos meses de vida pedindo apoio e se alimentando a partir de doações através de projetos sociais que têm como alvo pessoas em situação de rua na Cidade Alta.

Parte da carreira do artista potiguar está disponível e registrada no Dicionário Cravo Albin e também no Dicionário da Música do Rio Grande do Norte, obra da pesquisadora Leide Câmara.

Em “Pequeno livro das contravenções”, uma versão dos últimos dias pode ser resumida nos seguintes versos:

Um sentimento de perda
Por ter feito merda
E essa sensação de escombros
– Dou de ombros
E sigo.

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Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"