Matéria da agência SAIBA MAIS sobre autodeclaração de deputados eleitos “negros” gera críticas de leitores
Natal, RN 16 de jun 2024

Matéria da agência SAIBA MAIS sobre autodeclaração de deputados eleitos "negros" gera críticas de leitores

6 de outubro de 2022
4min
Matéria da agência SAIBA MAIS sobre autodeclaração de deputados eleitos

Ajude o Portal Saiba Mais a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

Uma matéria da agência Saiba Mais publicada nesta quinta-feira (6) sobre deputados eleitos que se autodeclararam negros gerou críticas pela falta de reflexão sobre a negritude. Pelas imagens divulgadas pelas campanhas dos candidatos, leitores consideraram que a maioria era "visivelmente branca".

O texto traz um levantamento dos 11 deputados estaduais e federais eleitos no Rio Grande do Norte que se autodeclararam como pretos ou pardos para as eleições de 2022. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), estas duas populações são classificadas como negras. 

"Se quando usam a cota sem direito perdem a vaga na faculdade, o mesmo tinha que valer para a eleição. Afinal, eles ocupam as cotas de candidaturas e também da verba eleitoral", disse a leitora Ana Flávia Fernandes. "Jornalismo que corrobora com práticas racistas também é racista", argumentou Genderson Kaio.

Para o professor de Jornalismo da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (UERN), Tobias Queiroz, a abordagem do texto foi inadequada. “Jornalisticamente falando, aquela matéria tem uma perspectiva extremamente calcada nos signos e na simbologia da branquitude, que é tratar de uma maneira acrítica discussões políticas”, afirma.

“Quando a gente pensa questões identitárias, é mais importante a gente pensar a política na identidade do que a identidade na política. Naquele caso, não se levanta questões sobre a política da identidade, está totalmente apagada. Está colocando como um fato algo que foi uma burla”, critica.

Dos 11 parlamentares potiguares, 10 se identificaram como pardo e apenas uma, a vereadora natalense Divaneide Basílio (PT), como preta. Segundo o docente, não abrir espaço para os questionamentos da autodeclaração dos candidatos que são “negros” — mas visivelmente brancos — é colaborar com uma “estrutura racista”. 

De acordo com ele, apenas a autodeclaração, fenótipo ou documentos como certidão de nascimento não bastam para que uma pessoa seja considerada negra. “O que a gente tem que avaliar é como essas pessoas são lidas socialmente”, aponta. “Um homem daquele ali corre risco de levar um tiro da Polícia à noite na rua? Uma mulher daquela corre o risco de ser taxada como ladra dentro do supermercado ou de um shopping? Esse é um recorte social a que nós pessoas negras somos submetidos diariamente. Então, se a pessoa está se colocando como negra, isso não quer dizer que elas são lidas socialmente como isso”, afirma o docente.

Financiamento e “peso dois”

Nas eleições gerais de 2022, entraram em vigor as políticas afirmativas para candidaturas de negros. Segundo aprovado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a divisão dos fundos partidário e eleitoral, além do tempo de propaganda na TV, deveria ser proporcional ao número de postulantes negros. A eleição de mulheres e negros (a soma das pessoas autodeclaradas como pretas e pardas) também ganhou mais importância para os partidos já que, em 2021, o Senado aprovou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da reforma eleitoral, que entrou em vigor neste ano.

Queiroz questiona as possíveis burlas ao financiamento, mas diz que, “a priori”, não é a questão principal. Algumas das candidaturas questionadas por sua autodeclaração haviam dito anteriormente ter aberto mão do fundo de financiamento para pessoas pretas ou pardas. “Além de você correr o risco de receber um dinheiro a mais, estão falseando um dado estatístico que vai prejudicar uma política pública cultural de inclusão de pessoas negras”, diz.

As mais quentes do dia

Apoiar Saiba Mais

Pra quem deseja ajudar a fortalecer o debate público

QR Code

Ajude-nos a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

Este site utiliza cookies e solicita seus dados pessoais para melhorar sua experiência de navegação.