Quanto vale a vida de mais um Silva?
Natal, RN 16 de jun 2024

Quanto vale a vida de mais um Silva?

18 de outubro de 2022
4min
Quanto vale a vida de mais um Silva?

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Por José Francisco*

Vanderly Araújo da Silva, de 67 anos de idade, deslocava-se de bicicleta até o seu trabalho no dia 12 de outubro de 2022. Eram por volta de 4h40 da manhã na avenida Solange Nunes, zona oeste da cidade do Natal. Seu trajeto foi interrompido por um automóvel. Dentro dele havia uma mulher embriagada, que não possuía carteira de habilitação e que dirigia em alta velocidade. O veículo e sua condutora vitimaram fatalmente Vanderly.

No dia seguinte, 13 de outubro de 2022, a assassina foi liberada após passar pela audiência de custódia, o juiz plantonista justificou a liberação nos seguintes termos: “apesar da presença de prova, da materialidade delitiva e indícios suficientes da autoria, não se vislumbra que algum perigo possa decorrer da liberdade do autuado”.

Portais noticiosos veicularam o vídeo do assassinato em questão, que foi capturado por câmeras de segurança. Nossa tragédia urbana engaja e chama cliques. Desde o dia 14 de outubro de 2022 conhece-se a vítima, sua idade, o local no qual a tragédia ocorreu e o momento preciso em que seu trajeto foi interrompido por um carro em alta velocidade. Não se conhece, por outro lado, a identidade da autora do crime, tampouco o juiz que a deixou impune.

Vanderly Araújo da Silva, além de impune, virará estatística pura e simples? Na cidade do Natal, nem isso. Os órgãos responsáveis pelo trânsito, pela segurança pública e pela mobilidade – nas esferas federal, estadual e municipal -, notadamente o Departamento Estadual de Trânsito (DETRAN), o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), a Polícia Rodoviária Federal (PRF) e a Polícia Militar do Rio Grande do Norte (PMRN) não divulgam dados estatísticos sobre atropelamentos de pessoas que se utilizam de bicicletas para se deslocar nos centros urbanos, diz-nos um pesquisador de ciclomobilidade e professor da UFRN.

O que conhecemos, objetivamente, é que:

Conforme dados do DataSUS, no ano de 2020 morreram 32.716 pessoas vítimas do trânsito brasileiro.

“A cada 12 minutos uma pessoa morre vítima da violência no trânsito, ou seja, 5 mortes a cada hora, conforme levantamento feito pelo OBSERVATÓRIO Nacional de Segurança Viária.” (dados de 2018).

“15,5% das vítimas de acidentes de trânsito estão relacionadas ao consumo de álcool – Pesquisa VIVA.” (dados de 2018).

O Rio Grande do Norte é o terceiro Estado do país que mais pessoas declararam beber e dirigir: 36,1% (dados de 2018, oriundo do Relatório Estatístico de Segurança Viária II – Álcool).

Os índices da tragédia que marcam o trânsito brasileiro e vitimam brasileiros e brasileiras todos os dias também se afigura em formato de lei e de lembrança. O Dia Nacional do Ciclista honra e lembra todo dia 19 de agosto Pedro Davidson, um ciclista de naquela altura 25 anos que foi assassinado por um motorista embriagado, em Brasília. Em São Paulo, a intelectual e cicloativista Marina Kohler, 28 anos, foi vitimada por um assassino alcoolizado em quatro rodas. Os familiares de Marina Kohler até hoje reivindicam: “Não foi acidente”.

Em Natal, na noite da última quinta feira (13), ciclistas se reuniram em memória de Vanderly Araújo, no bairro da Cidade da Esperança. Um trabalhador que se deslocava em bicicleta em um grande centro urbano do Brasil. Sua vida foi tratada de maneira supérflua pelo Estado, na medida em que não cria condições de segurança, comodidade e conforto para os ciclistas; pela justiça comum, posto que libera a assassina pelo motivo já referido; pelos veículos noticiosos que fazem um antijornalismo de sensacionalismo torpe e exibem imagens de morte gratuitamente para os sanguessugas sedentos por sangue e morte.

Reivindicamos justiça por Vanderly Araújo da Silva. Reivindicamos que sua morte não foi um acidente. Reivindicamos o direito de se poder pedalar em segurança em Natal/RN e no Brasil; reivindicamos o direito de não somar às estatísticas de vitimados pelo trânsito brasileiro; reivindicamos amplos programas de educação no trânsito direcionados para todos, mas sobretudo para aqueles que podem nos matar mais facilmente – quem se desloca em veículos motorizados; reivindicamos maior infraestrutura cicloviária, interligadas, coerentes, e que alcancem as regiões de interesse da cidade, mas não só. Reivindicamos uma cidade mais justa, democrática, includente e possível. Reivindicamos, por fim, que nossos Silva(s) sejam encarados como gente, tenham humanidade, direitos políticos e cidadania, porque o tratamento dado a quem é pobre, periférico, trabalhador, ciclista, hoje, não passa de uma existência negligenciada.

José Francisco é professor de História e cicloativista

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