Sem direito a descansar
Natal, RN 22 de abr 2024

Sem direito a descansar

5 de outubro de 2022
5min
Sem direito a descansar

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Ana Cláudia (minha esposa) está tentando me convencer a voltar a assistir a The Handmaid´s tale, série do HBO baseada nos livros de Margaret Atwood. Acompanhei o seriado até a segunda temporada, depois não consegui assistir mais.

Confesso que não tenho nenhuma predileção por filmes ou séries em que mulheres são submetidas a violência, abuso ou a torturas físicas e psicológicas. Talvez por ter tido, na minha infância, a presença marcante de figuras femininas muito fortes (como minha avó materna e minha mãe) fiquei impaciente assistindo o seriado. Minha vontade era que aquelas mulheres se rebelassem logo, capassem logo aquele bando de macho sem vergonha e tacassem logo fogo naquela distopia misógina e fundamentalista descrita na série.

Me soava como uma espécie de perversão psicanalítica, do tipo daquelas que o Lars Von Trier gosta de exibir, ficar vendo, temporada a temporada, o sofrimento daquelas personagens femininas.

____ Tenha calma. – Ana me diz – continue firme. Avance nas temporadas que você vai ver que a redenção vai chegar.

É mais ou menos assim que eu me senti quando saiu o resultado das urnas do primeiro turno, nesse Domingo, dia 02 de Outubro.

As pesquisas nos davam esperança de que a contenda iria se resolver logo e que iriamos entrar o mês em que o Flamengo disputa a final da Copa do Brasil e da Libertadores, sem esse circo de horrores que a política bolsonarista representa.

Infelizmente não foi isso que as urnas indicaram.

O otimismo da minha vontade já havia, há algum tempo, deixado de molho o pessimismo da minha razão e talvez por isso eu tenha acreditado realmente que, após o horror que foram esses quatro anos de experiência bolsonarista no governo, a pulsão de morte que norteia o eleitorado de extrema direita no Brasil teria arrefecido e que uma derrota eleitoral significativa poderia nos dar um fôlego para que a gente pudesse descansar dessa luta ininterrupta contra as inclinações fascistas que esse governo desperta em parcelas significativas da população brasileira.

Mas a votação de Bolsonaro e a eleição de muito de seus asceclas para o legislativo e para os governos estaduais, com toda sorte de puxa sacos, pilantras vendilhões do templo e milicianos dos mais diversos matizes, mostra uma dura realidade que precisamos enfrentar.

O ciclo conservador que impulsionou o bolsonarismo não se esgotou, mesmo com quase 700 mil mortos em uma pandemia, com mais de 30 milhões de brasileiros passando fome, outros tanto milhões lutando pra conseguir pagar suas contas. Mesmo com todo escárnio institucional, com a incompetência administrativa, com o destruição do meio ambiente, com as humilhações a que o país foi submetido no cenário internacional e os escândalos de corrupção generalizados no governo que incluíram acordos com o centrão, orçamento secreto, mansões compradas com dinheiro vivo e bíblias sendo negociadas com barras de ouro.

Mesmo com tudo isso, mais de quarenta por cento dos eleitores que compareceram as urnas no Domingo, apertaram o número de Bolsonaro na urna eletrônica. E mesmo que pela primeira vez na história, um presidente tentando sua reeleição, tenha ficado em segundo lugar no pleito, perdendo para o candidato de oposição por seis milhões de votos de diferença, ainda sim, a sensação é que a surra na urna foi pouca.

Isso nos leva a pensar que a conexão da pulsão de morte no imaginário político do Brasil é um afeto arcaico e profundo. Diz muito sobre o nosso próprio carater como povo e fala bastante sobre a nossa sombra coletiva.

O bolsonarismo é apenas o nome atual do escravismo, do integralismo, do militarismo de 64, do lavajatismo atipetista.

Sua radicalização e capilaridade, que entranharam na sociedade e arrastaram parcelas significativas da população, vai ser um dado da realidade política contra o qual teremos que nos embater constantemente.

Ao contrário de uma série de TV, que você pode deixar de assistir na hora que quiser, não há escapatória para o confronto que esse segundo turno vai nos trazer, assim como não há, observando o esfarelamento da tal “terceira via”, conciliação possível entre as duas perspectivas de mundo postas em confronto nessa eleição.

Os alemães, que após o vendaval revolucionário da primavera dos povos de 1848 tentaram produzir sua modernização conservadora, sem rupturas , revoluções ou sobressaltos, e apostaram em uma conciliação bismarckiana que manteve uma certa estabilidade nacional até 1918, acabaram empurrando pra frente as contradições que precisavam enfrentar e vivenciaram a experiência devastadora que uma radicalização da pulsão de morte fascista proporciona.

O Brasil, guardadas as proporções históricas e geográficas, sempre andou nessa mesma corda bamba, tateando aqui e acolá, com sua violência atávica, avanços muito pontuais na inserção das populações socialmente vulneráveis, sempre seguidos de fortes reações conservadoras autoritárias que buscavam bloquear essas avanços.

A primeira república (como uma reação a abolição da escravatura); a ditadura militar de 64 (como reação aos avanços sociais da era Vargas), o lavajatismo transformado em bolsonarismo (como reação as políticas de inclusão e reconhecimento dos governos petistas).

Essa toada se repete, temporada a temporada, nessa série sem fim chamada Brasil. Cabe a nós, personagens dessa realidade que sempre supera a ficção, consolidar uma virada nesse roteiro.

Temos até o fim de Outubro pra isso.

Não temos o direito de ficar cansados.

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