OPINIÃO

Um casal da minha memória

Sheyla de Azevedo

O amor aproxima as pessoas. Torna-as do mesmo tamanho. Eu me lembro de um casal que havia na minha cidade onde moram minhas memórias da infância. Ela, Estrela, era baixinha e parecia mais uma touceira de margaridas que nasce ao pé dos canteiros da praça. Já ele, Hypólito, magro e alto parecia-se com uma escada que nos levaria para o céu. Viviam sorridentes e abraçados; distraídos, no silêncio manso daqueles que conversam por entre as paredes da intimidade. O moço costumava fazer um gesto do qual nunca me esqueci. Ele gostava de respirar o ar filtrado pelo cheiro do cabelo de Estrela. Isso mesmo que vocês estão pensando. Ele se encurtava todo e encostava o nariz nos cabelos da amada para sorver o cheiro como se dele brotasse a seiva da vida. Era bonito de se ver, como até hoje é bonito de lembrar.

As pessoas da cidade – dentro de suas crueldades falaciosas de reparar na vida alheia – não se continham e comentavam entre si, com os olhos pousados sobre aquele casal, como seus tamanhos eram díspares, como era possível que ficassem confortáveis um com o outro? Questionavam-se dentro da mesquinhez daqueles que não têm a disponibilidade para as vontades do amor. Geralmente, eu me lembro que Estrela e Hypólito não se importavam muito com os rumores.

Mas, certa vez, Hypólito, que era menos dado às palavras, mostrou por meio de um pequeno gesto, de que maneira ele alcançava sua Estrela rasteirinha e tarraca. Ele levantou uma das mãos para que todos vissem que, de pé, todos os dedos tinham tamanhos diferentes. Porém, quando curvados na dobradiça do meio, todos ao mesmo tempo, magicamente, ficavam em tamanhos iguais. Então era isso! Não é que eles precisassem ficar deitados o tempo inteiro para que seus tamanhos se igualassem. Naquele tempo, eu que ainda não colecionava tantas palavras por dentro, entendi aquele gesto como uma espécie de tratado de paz mundial.

Quer dizer, não sei se as outras pessoas entenderam da mesma maneira que eu, mas a partir daquele momento, eu pensava que para qualquer conflito, dúvida, queixa, muxoxo, mal-entendido, inveja, fofoca, mau-olhado, erisipela, brigas de foice e toda a sorte de outras mazelas mundanas, tudo se resolveria se nos deitássemos. Se nivelássemos o olhar e contemplássemos um mesmo céu azul ou um céu florido de estrelas, fosse dia ou noite, não importa. Se para o amor aquilo era possível, então seria encaixável em outras frentes. Embora eu acho que ainda não falava “frentes” ou outros termos como agora. Mas, voltando, era como se, ao deitar o olhar por sobre a mesma paisagem, pudéssemos beijar e abençoar a terra que nos dá sustentamentos de gravidade. Portanto, pensava eu, vestida de inocência, que ao invés de tentar nivelar os pensamentos e os entendimentos sobre as mesmas coisas. Se os olhares se encontrassem com facilidade, se estivéssemos no mesmo nível entre uma pálpebra e outra, então as coisas se encaixariam. Eu não sei quanto a vocês, mas quando eu era pequena, se sentisse que pensei algo grandioso do tipo a fórmula para a paz mundial, eu crescia por dentro. Era como se a qualquer momento eu pudesse voar. (E espalhar a fórmula da paz mundial por todos os cantos).

Aliás, percebem como tudo cabe nas palavras? Na palavra balanço existe o ato de voar. Na palavra mão, mora um afago. Na palavra Guimarães, se esconde uma Diadorim. Na palavra cachoeira, descem gotas silenciosas de alegria em nosso rosto. Na palavra gato, vive um poema adormecido; na palavra que dá nome ao cachorro, mora um amigo. E na palavra sonho, dormem mistérios.

Perdi de vista Estrela e Hypólito há muito tempo. Não sei por onde andam ou se ainda andam juntos. Só sei que na palavra lembrança que guardo dos dois, de seus dedos dobrados e nivelados que os faziam rodopiar como um só, ainda posso ouvir o som do meu coração batendo no tambor do meu peito, pela descoberta que o amor aproxima as pessoas. O que separa, é outra coisa.

 

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Jornalista e psicanalista