Um livro camarada
Natal, RN 14 de jul 2024

Um livro camarada

18 de outubro de 2022
7min
Um livro camarada

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No último dia 7, presenciei um acontecimento bastante esperado para quem aprecia livros de modo geral: o lançamento do livro “Um editor camarada” (Natal, Offset, 2022), de Geraldo Queiroz. A obra trata da figura que eu diria a mais importante no mundo potiguar dos livros durante as décadas de 1970 a 1990: o jornalista, livreiro e editor Carlos Lima, criador das edições CLIMA.

Eu aguardava esse livro com bastante expectativa, já que, além de amante dos livros, também desenvolvo pesquisa, na UFRN, sobre práticas editoriais e sobre a CLIMA (aqui mesmo neste espaço já publiquei algumas impressões a respeito: https://saibamais.jor.br/2019/11/ainda-sobre-a-cidade-e-os-impressos-relembrando-carlos-lima/ ). E qual não foi a minha alegria tanto em participar do evento como em ter o livro em mãos.

Durante o lançamento do livro “Um editor camarada”, o autor Geraldo Queiroz, ladeado por Ivan Jr. e pelo reitor da UFRN, José Daniel Diniz de Melo.

Em uma cerimônia bastante emocionante, o autor nos contou um pouco sobre como foi seu processo de pesquisa e produção do livro, processo esse que se estendeu durante pelo menos quatro anos investigando acervos diversos, dentre os quais destaco os arquivos da própria família de Carlos Lima e até o acervo digital da Biblioteca da Universidade do Novo México, nos Estados Unidos, onde encontrou 43 volumes das edições CLIMA).

O evento teve momentos marcantes, como a doação para a Biblioteca da UFRN de alguns dos livros que pertenceram a Carlos Lima, tal como um exemplar de “Navegos” autografado pela própria Zila Mamede e em cuja dedicatória ela expressa o desejo de também ser editada pela CLIMA. Mas o que mais me emocionou mesmo foram as palavras de Geraldo Queiroz em favor da Universidade, centro de produção e difusão do conhecimento, justamente no dia em que o malfadado governo que aí está anunciou mais um corte nas verbas destinadas às Universidades e Institutos Federais.

Passei o fim de semana saboreando o livro, que faz jus ao grande livreiro e editor de que trata. Primeiramente, pela edição caprichada realizada por Ivan Jr. e sua equipe da Offset Gráfica e Editora. Certamente, todos já conhecem o primor com que os livros são feitos na Offset (é lá onde se fazem os livros de grande parte dos selos editoriais de Natal), mas o que talvez muitos não saibam é que Ivan Jr., um de seus proprietários, iniciou-se na sua carreira profissional justamente trabalhando com seu tio Carlos Lima (primeiramente como vendedor na livraria e depois como coordenador gráfico da editora).

E esse primor com certeza se mostra também na pesquisa de Geraldo Queiroz: com ele, podemos recuperar toda a trajetória de vida e obra de Carlos Lima (as primeiras experiências de editoria, ainda como estudante do curso de jornalismo, com o jornal “Extra”; a prisão, junto a Djalma e Luís Maranhão, após o golpe militar de 1964; o estabelecimento da CLIMA e a consolidação de uma comunidade leitora e escritora em Natal; e sua despedida, com o relato de seu filho Sérgio Lima sobre seus últimos momentos). O livro traz outras preciosidades como o desenho que Henfil fez para Carlos Lima (e que ilustra a contracapa do livro), além de fotografias da fachada do prédio na Ribeira onde funcionou a CLIMA, bem como de alguns de seus lançamentos, em momentos marcantes de encontro entre nomes do campo literário (ver, por exemplo, Newton Navarro ao lado de Jorge Amado não tem preço).

Há tanto a se dizer sobre esse livro que eu não saberia como: da precisão e poder de síntese dos textos de orelha e de prefácio, assinados respectivamente por Manoel Onofre Jr. e Tarcísio Gugel (ambos editados por Carlos Lima) até as pitadas que aqui e ali saltam durante a leitura dando mostras da verve bem-humorada de Carlos Lima e de seu talento para contador de chistes, mesmo quando relatava os momentos sombrios da prisão.

Como afirmei antes, também pesquiso sobre as edições CLIMA e ando envolvida com a catalogação dos títulos editados. Por isso, o ponto máximo do livro para mim foi ver ali reunidas as 195 capas dos livros que Carlos Lima pôs no mundo, tal como o slogan da sua editora sugeria, “prestigiando o autor do Rio G. do Norte”. Que trabalho bonito realizar esse encontro de obras e autores! Resgatar esses livros da dispersão de arquivos diversos e do esquecimento é, sem dúvida, o grande mérito do trabalho de Geraldo Queiroz e que merece todo nosso louvor.

Esse trabalho, aliás, exemplifica uma das pequenas teses que minha pesquisa pretende afirmar (e que o título do livro por si só confirma): a de que, nas práticas implicadas nos livros da CLIMA, os nomes envolvidos não apenas exerciam funções profissionais na cadeia de produção (editor, autor, revisor, diagramador, gráfico, ilustrador etc.): tratava-se, antes, de relações de afeto e de amizade. Um caso que ilustra isso, e que o livro de Geraldo Queiroz também traz à tona, é a relação entre Carlos Lima e Celso da Silveira, autor que definia seu editor como “amigo-irmão”. Aliás, o próprio livro de Geraldo Queiroz (autor que também foi editado pela CLIMA com o livro “Geringonça do Nordeste: a fala proibida do povo”, de 1989) não deixa de ser uma bela prova de amizade.

Na capa de “Um editor Camarada”, a ilustração certeira de Aucides Sales.

Essencial para quem estuda e aprecia o mundo dos livros, “Um editor camarada” é um importante reconhecimento desse nome fundamental na difusão da literatura e cultura norte-rio-grandenses, responsável não só na consolidação como na estreia de nomes do cânone literário.

Com certeza, o livro de Geraldo Queiroz está à altura do legado de Carlos Lima e sua publicação é como um mimo de camaradagem para todos nós leitores.

À venda na livraria da Cooperativa Cultural, no campus da UFRN, no Sebo Vermelho e na Cigarreira do Largo do Atheneu. Para mais informações: www.offsetgrafica.com.br

E para encerrar, aproveito o ensejo para divulgar rapidamente mais um outro livro, uma coletânea de artigos na qual participo justamente com um texto sobre as edições CLIMA: trata-se de “Edição: memórias, espaços, impressos”, livro organizado pela professora Tatyana Mabel Nobre Barbosa pela EDUFRN. O livro, sobre o qual vou comentar futuramente, será lançado no Auditório C do CCHLA, na UFRN, no dia 25 de outubro às 19h, com uma conversa com os autores que integram a coletânea.

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