OPINIÃO

A serpente saiu do ovo

Por Pablo Capistrano

Hoje, antes de começar a escrever esse artigo, enquanto trafegava pela Avenida Engenheiro Roberto Freire em direção ao Campus Natal Central do IFRN para ministrar uma aula de Filosofia da Linguagem em uma turma da licenciatura em Espanhol, vi um sujeito trajando uniforme da seleção brasileira, correndo pelo calçadão. Nada estranho em véspera de Copa do Mundo. O problema é que ele, com um olhar vidrado, carregava no ombro uma vara com uma enorme bandeira nacional.
A imagem me pareceu tão grotesca que imediatamente pensei: “esse cara deve estar com algum transtorno mental”.

Suspeito que essa minha sensação matinal lembre muito a que Karl Jaspers teve quando, após a ascensão de Hitler ao poder, visitou Heidegger em Freiburg e viu, como confessou depois para Hannah Arendt, nos olhos do seu antigo amigo, aquele “brilho delirante dos transtornados” que parecia ter tomado conta da nação alemã sob a hipnose coletiva do nazifascismo.
Faz tempo, amigo velho, que a gente vem alertando para o ovo da serpente que está sendo chocado no interior da sociedade brasileira.

Modéstia a parte, desde 2007, quando escrevi um artigo no finado jornal Tribuna do Norte, sobre a estreia do filme Tropa de Elite (dirigido por José Padilha) e sobre o discurso fascista do Capitão Nascimento (personagem do magistral Wagner Moura) que canto essa bola.

Mas, se naquela época, em que as milícias começavam a compor seu domínio sob os territórios cariocas e os nazifascistas brasileiros ainda se disfarçavam com os trajes ideológicos de liberais esclarecidos, o monstro autoritário fazia sua toca no tecer silencioso do espírito; hoje, após quatro anos de governo Bolsonaro, a serpente mostra claramente que saiu do ovo.

E essa serpente tem duas cabeças.

Uma delas é a de um neo integralismo nazifascista, que sibila seus clamores por um golpe militar em frente aos quarteis das forças armadas.

A outra é a de um milenarismo escatológico, que mistura messianismo cristão com um tipo peculiar de teologia neoliberal.
Ambas cabeças se ajoelham em pânico, com choro e ranger de dentes, diante do fantasma de um comunismo imaginário, temperado por uma ameaça virtual de uma subversão revolucionária iminente, que povoa as fantasias políticas conservadoras desde os acontecimentos em Paris no ano de 1789.

No meio desse transe coletivo, são particularmente espantosas as imagens que vem do sul do país.

Uma região povoada por muitos eurodescendentes que chegaram aqui em uma segunda leva migratória a partir do século XIX e que não viveram os horrores da segunda guerra mundial em solo europeu.

Órfãos de uma Europa branca que os esqueceu, tendo que conviver com um Brasil nordestino, africano, indígena e marrano-português; esses grupos populacionais acabam se tornando alvo fácil de organizações de extrema direita que aproveitam o momento de catarse para tirar da sua cartola de horrores ideológicos propostas nazistas como a de pichar estrelas vermelhas em imóveis e estabelecimentos comerciais de eleitores do PT.

Não podemos esquecer, amigo velho, que foi o governo Bolsonaro, durante quatro anos, que atuou diuturnamente como um catalisador desses sentimentos atávicos de ressentimento racial e ódio xenofóbico. Sentimentos esses que perpassam a história brasileira. Um país que teve, nos anos de 1930, um movimento de cunho fascista com mais de um milhão de filiados (o integralismo) e um dos maiores partidos nazistas clandestinos fora da Alemanha.

O governo Bolsonaro usou e abusou, em sua trajetória, de slogans nazistas, de estética nazista, de símbolos e signos nazistas, de retórica nazista, de ideias nazistas e políticas nazistas (a imunidade de rebanho durante a pandemia, por exemplo).
Isso não foi coincidência.

A professora Adriana Dias, doutora em Antropologia pela UNICAMP e pesquisadora de movimentos neonazistas no Brasil, já havia identificado conexões entre o gabinete do então deputado Jair Bolsonaro e sites neonazis clandestinos em atuação no país.

Michel Gherman, assessor acadêmico do Insitituto Brasil-Israel e professor de sociologia da UFRJ, já havia demonstrado com suas pesquisas o modo como o bolsonarismo se apropriou de uma Israel imaginária para alimentar a cabeça fundamentalista cristã e camuflar a cabeça neonazi da serpente que ajudou a parir.

A construção de um “judeu imaginário” serve, não apenas para fortalecer a escatologia de um cristianismo que anseia por um armagedom bíblico que crie condições para a realização da promessa profética do retorno de Cristo nas terras de Abraão, Isaac e Jacó; mas também para despistar os conteúdos racistas, nazifascistas e supremacistas do próprio movimento bolsonarista.
Afinal não há melhor maneira de tirar um nazista do armário do que camuflando ele com a bandeira de Israel.

Nesse ponto o governo do capitão foi um sucesso.

A serpente de duas cabeças, chocada por tantas décadas nos subterrâneos ideológicos da República brasileira, saiu do ovo e ganhou o asfalto, interrompendo o fluxo de mercadorias nas rodovias e congestionando as entradas dos quarteis.

A nossa tarefa agora é impedir que essa serpente crie asas, porque, se ela sair por ai voando, seu veneno vai contaminar o que ainda resta de democracia nesse Brasil velho de guerra e seu efeito corrosivo pode comprometer a própria unidade desse país continente, cujo destino não é outro senão o de acertar as contas com suas próprias contradições e finalmente aceitar sua enorme e incontornável diversidade.

 

 

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Pablo Capistrano é professor, escritor e filósofo. Escreve às quintas-feiras.