“Copa do luto”: em Natal, golpistas de plantão no quartel ignoram Seleção e elogiam ajuda da Prefeitura
Natal, RN 18 de jun 2024

"Copa do luto": em Natal, golpistas de plantão no quartel ignoram Seleção e elogiam ajuda da Prefeitura

24 de novembro de 2022
8min

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Enquanto o país inteiro acompanhava a estreia da Seleção Brasileira na Copa do Mundo, manifestantes golpistas que ocupam a frente do 16º Batalhão de Infantaria Motorizado (16 RI), na avenida Hermes da Fonseca, em Natal, fizeram questão de desdenhar do torneio. Os “patriotas” não acompanharam o jogo contra a Sérvia. Em cartazes, diziam que a competição era a “Copa do luto” e que a “nossa Copa é a libertação do Brasil”. Por outro lado, elogiaram a “colaboração” da Prefeitura em permitir que ocupem uma via e não aplique multas.

Era 16h desta quinta-feira (24) quando a bola rolou no Catar para o confronto entre Brasil e Sérvia. No 16 RI, porém, os manifestantes cantavam o hino no mesmo horário. Concentrados em frente ao portão do Batalhão, gritavam incessantemente pedindo “SOS Forças Armadas” e “Salve o Brasil”. Nenhum telão foi colocado no local e a reportagem não identificou nenhum golpista assistindo a partida pelo celular ou pelo rádio.

Inconformados com o resultado da eleição presidencial que elegeu Lula da Silva (PT) como presidente, os militantes de extrema-direita montaram acampamento no Exército desde 1º de novembro. Durante as mais de duas horas em que a reportagem esteve no local, durante a partida, eles permaneceram o tempo todo virados para a parte interna do Batalhão. Do lado de dentro, um militar do alto da guarita acompanhava a movimentação imóvel.

A roupa predominante era a camiseta amarela da Seleção, embora não acompanhassem o torneio mundial. Alguns ainda vestiam roupas pretas e uma menor parte trajava o uniforme azul da Seleção. 

“Hoje o verdadeiro jogo do Brasil está aqui. Estamos ganhando de 10x0 de quem está em casa, confortavelmente no seu sofá, mas que não pensa naqueles que realmente estão lutando pelo Brasil”, dizia um homem no microfone do carro de som que ocupa uma faixa da Hermes da Fonseca, que se identificou como parte de um grupo de direita de São Gonçalo do Amarante-RN.

Ajuda da Prefeitura

O veículo estacionado na pista, inclusive, era motivo de elogio do golpista à Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana (STTU). “A STTU tem colaborado com a gente, evitado multas e deixado o carro de som estacionado”, afirmou no microfone, para todo mundo ouvir. Em outra fala, reforçou um acordo feito entre os extremistas e o órgão da Prefeitura.

“Repetir um recado do pessoal da STTU, a quem a gente tem que agradecer a grande colaboração que eles estão fazendo com nosso movimento. Ainda existem carros estacionados na Hermes da Fonseca. Retirem seus veículos para que eles não sejam autuados. Várias pessoas já retiraram e estão colaborando com a STTU, assim como a gente”, disse. 

“Nós temos visto várias notícias de que a gente estaria atrapalhando o tráfego e normalmente o pessoal da STTU tem colocado que não, o trânsito tem fluido normalmente. Então devido a essas cobranças que eles recebem, eles também não podem ficar abrindo mão para as pessoas que não sejam o carro de som, que foi um acordo feito desde o início”, afirmou o manifestante.

O prefeito de Natal, Álvaro Dias (PSDB), foi o coordenador da campanha de Jair Bolsonaro na capital. Após desobedecer uma recomendação do Ministério Público do Rio Grande do Norte (MPRN) para que retirasse os golpistas da via, ele enviou uma resposta ao Supremo Tribunal Federal (STF) esta semana em que afirmou que as manifestações golpistas em frente ao Batalhão se tratam de “movimento espontâneo e ordeiro”. Das três faixas da pista do lado do 16 RI, uma está totalmente ocupada pelos golpistas. O canteiro central também é ocupado frequentemente, e os extremistas ainda invadiram a área do Aeroclube de Natal, do outro lado da via.

Foto: Agência Saiba Mais

Reiterando a falta de interesse pela Copa, o morador de São Gonçalo fez uma referência a taça Jules Rimet, troféu do título de 1970 que foi roubada em 1983 e posteriormente derretida. 

“Temos aqui pessoas com 80 anos, 90 anos, que poderiam estar em suas casas assistindo um jogo que não trará nada de benéfico para o nosso país. Uma taça e uma copa como a Jules Rimet que foi derretida e vendida, sem valor algum. O que vale para nós é o patriotismo”, se orgulhou.

A indiferença com a partida da Copa era evidente entre todos. Em uma das tendas que servia comida e água, uma mulher dizia: "o jogo é aqui. Aqui é a trave", apontando para dentro do 16 RI. "Se o Brasil ganhar a Copa, a gente nada ganha", reforçou um homem. 

Ao longo das duas horas de transmissão desportiva, nenhum lance foi comentado entre os presentes. Os dois gols de Richarlison não foram sequer comemorados ou noticiados. O atacante é um voz progressista dentro do plantel da Seleção, que possui bolsonaristas declarados como Neymar e Daniel Alves. Engajado politicamente, Richarlison já se manifestou sobre temas como combate ao racismo e meio ambiente. Os assassinatos do americano George Floyd e do menino brasileiro João Pedro, por exemplo, fizeram com que ele postasse uma ilustração dos dois com a frase “vidas negras importam”. 

Alexandre de Moraes “fuzilado” e “esquartejado”

Enquanto deixavam o confronto de futebol de lado, a política rondava as rodinhas de conversa que ocupavam a calçada e a rua. "O que falta para Alexandre de Moraes ser preso? Aquele homem merecia ser fuzilado, esquartejado, tirar a alma dele de dentro", falava com tranquilidade um manifestante em conversa com outro golpista. "O crápula merece todo tipo de esquartejamento”, reafirmou, em referência ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).

O outro interlocutor concordava, e disse que “só tá faltando prender Bolsonaro e nós”. O homem ainda citou uma viagem que fez a Israel, onde visitou locais antigos de batalha, para também desejar a morte do ministro.

Com um chifre verde e amarelo sobre a cabeça, outro golpista circulava pelo local com o objeto que lembrava o “chifrudo” do QAnon. Após a derrota de Donald Trump nos EUA, apoiadores do republicano invadiram o Capitólio e um personagem se destacou ao aparecer com chifres e sem camisa. Jake Angeli fazia parte do QAnon, um movimento conspiracionista de extrema-direita.

As contestações à democracia eram constantes. "Teve intervenção mas não ditadura, e foi o povo que pediu", falava um homem em outra rodinha de conversa, relembrando o golpe de 1964. Ele ainda disse que a censura dos militares da década de 1960 era “diferente como a que está tendo agora”.

Outras fake news rondavam. Um homem de meia idade falava sobre uma informação mentirosa de que Lula teria dado R$ 60 milhões ao ministro Alexandre de Moraes, para que este fraudasse as urnas eletrônicas. O dinheiro, disse, teria sido transferido por meio de contas bancárias fantasmas. Ele não apresentou nenhuma prova que comprovasse o suposto crime. 

Foto: Agência Saiba Mais

Financiamento

O ato antidemocrático recebe frequentemente o abastecimento de mantimentos como comidas e bebidas. Frutas como banana, mamão e melancia eram servidas constantemente. Refrigerantes de cajú, cola e guaraná também. Havia ainda dezenas de garrafas d’água, armazenadas em duas grandes caixas d’água cobertas de gelo. Pão com presunto também era servido, e os organizadores faziam questão de destacar que tudo era de graça ao alcance de qualquer manifestante. 

Perto das 16h, um carro Toyota SW4 estacionou na calçada com mais sacos de pão para abastecer o acampamento. Um adesivo no vidro de trás do veículo trazia a frase "Deus acima de tudo, Brasil acima de todos".

Para manter a alimentação em dia, placas com duas chaves PIX eram exibidas em nome de Renivaldo André Torres da Silva e Radir Pereira de Moura Júnior. Garrafas de água de 10L penduradas com um buraco no meio traziam a inscrição para que lá fosse deixado dinheiro físico.

Fim de jogo

Era início da noite quando o árbitro iraniano Alireza Faghani decretou o fim da partida e a vitória do Brasil por 2x0 sobre a Sérvia. No acampamento bolsonarista, nenhuma comemoração ou mesmo aviso do placar final. Era como se o jogo não tivesse existido. Ao invés disso, eles se concentraram para fazer uma oração virados para o quartel. O ritual é repetido a cada uma hora, ora com a oração, ora com o hino nacional. 

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