Prefeito de Natal convocou secretários e terceirizados antes do 2º turno para coagir voto a Bolsonaro
Natal, RN 24 de jul 2024

Prefeito de Natal convocou secretários e terceirizados antes do 2º turno para coagir voto a Bolsonaro

2 de novembro de 2022
10min
Prefeito de Natal convocou secretários e terceirizados antes do 2º turno para coagir voto a Bolsonaro

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A 11 dias do segundo turno das eleições, em 19 de outubro, o prefeito de Natal, Álvaro Dias (PSDB), voltou a convocar integrantes do primeiro escalão do governo para pedir votos para seu candidato a presidente, Jair Bolsonaro (PL). A novidade desta vez é que o chamado também foi direcionado aos demais cargos de confiança e terceirizados. Em áudio do encontro em que a Agência Saiba Mais teve acesso, Dias condenou o PT (“fez tudo para atrapalhar nossa gestão”), criticou a “feiura” do Hotel Reis Magos – hoje demolido – e amedrontou (“se vocês votarem contra Bolsonaro, vão estar votando contra Natal”).

O local da reunião foi simbólico: o comitê de campanha de Adjuto Dias, filho do prefeito, que fora eleito deputado estadual no dia 2 de outubro. O endereço era na avenida Floriano Peixoto, 494, bairro do Tirol, zona Leste de Natal. A reunião foi chamada para as 14h30 e começou 30 minutos depois, durando cerca de uma hora. Como o dia 19 de outubro era uma quarta-feira, ela aconteceu durante o horário de expediente do prefeito e dos demais servidores públicos.

O encontro contou com a presença de pelo menos seis secretarias: de Esportes (Sel), de Meio Ambiente e Urbanismo de Natal (Semurb), de Habitação, Regularização Fundiária e Projetos Estruturantes (Seharp), de Comunicação Social (Secom), de Trabalho e Assistência Social (Semtas) e da Secretaria Municipal de Governo (SMG). 

Entre os titulares, falaram pelo menos Jódia Melo, da SEL, e Joham Alves Xavier, da SMG. Pela Semurb, ainda estiveram presentes duas secretárias-adjuntas da pasta: Alessandra Marinho e Eudja Mafaldo. Danielle Mafra, secretária executiva da Prefeitura, foi outro nome no encontro, mas não falou.

Saulo Spinelly, mossoroense que atua como chefe de gabinete da Semtas, foi o responsável por comandar o microfone e chamar os servidores para fazer o discurso. Ele abriu o encontro desta forma: “Nosso comandante-chefe, general desse exército que são vocês, está convidando seus amigos para colaborar [inaudível], para fazer um pacto sobre isso.”

Em seguida, Xavier apontou o chamamento de Álvaro para o apoio a Bolsonaro entre os servidores municipais: “o prefeito convocou para participar ativamente da campanha”. Se o projeto político “é dele, também é nosso”, afirmou.

Temendo um fortalecimento do PT na capital potiguar com uma eventual vitória de Lula – que se concretizou –, Johan citou os possíveis riscos envolvidos nisso. “Se o outro candidato ganhar a eleição, a gente sabe que ele vai fazer de tudo para tomar a Prefeitura de Natal”, cravou.

O temor de perder os cargos na Prefeitura foi compartilhado pelo próprio prefeito, entre seus funcionários. 

“Se o PT chegar ao poder, podem ter certeza que eles vão fazer de tudo, o que puderem fazer, para atrapalhar nossa gestão, criar dificuldade, para impedir liberação de recursos, para impedir a continuidade das obras, para impedir o crescimento de Natal, porque eles vão querer nos destruir. Eles vão querer tomar a Prefeitura. Eles vão querer realmente se confrontar e por isso vão criar todo tipo de dificuldade. Nós não podemos permitir que isso aconteça. Porque se a gente permitir, nós estamos assumindo a covardia com a cidade de Natal”, apontou Álvaro Dias.

E o medo do PT foi além. "Se vocês votarem contra Bolsonaro, vocês vão estar votando contra vocês. Vocês vão estar votando contra Natal, contra sua família, contra seus filhos, contra seus amigos que querem ver essa cidade avançar”, disse o prefeito.

Prefeito de Natal coordenou campanha de Bolsonaro em Natal | Foto: reprodução

Conquista de Dias e alvo de oposição dos parlamentares do PT, o Novo Plano Diretor e as alterações urbanísticas na orla da praia de Ponta Negra foram citadas pelo prefeito como motivo para evitar a volta do partido de Lula.

“A gente precisava derrubar o Hotel dos Reis Magos, porque enfeiava a cidade de Natal. Aquela [inaudível] na beira-mar. As pessoas vinham, os turistas olhavam o hotel em ruínas, um prédio em ruínas na beira-mar enfeiando a cidade. Que coisa é essa? Que cidade mal cuidada é essa?”, se questionou. 

Numa fala para fidelizar ainda mais a base de apoio ao agora presidente derrotado, Dias adotou uma velha tática de Bolsonaro: a luta entre o “bem” e o “mal”, presente em discursos do mandatário do Planalto.

"Nós temos de escolher entre dois caminhos a seguir. Ou a gente volta pra um passado de trevas, de escuridão, de roubalheira, de desmantelo, ou a gente segue em direção ao futuro, votando, apoiando um presidente que pode aqui e acolá dizer alguma uma coisa que eu não concorde, mas é um presidente que quer o bem da nação, que não permite roubalheira”, conclamou o prefeito.

Apoio a Adjuto Dias dentro da Prefeitura

Os secretários e demais funcionários discorreram sobre uma prática já vista nas ruas e confirmada durante o encontro: o uso da estrutura oficial da Prefeitura em prol da eleição do filho de Álvaro, Adjuto Dias (MDB), para deputado estadual. Jódia Melo, da SEL, discorreu sobre o projeto de eleição no primeiro turno que envolvia os nomes de Adjuto e do candidato ao Senado do grupo, Rogério Marinho (PL).

“Faz uns dois meses que estamos trabalhando num projeto do prefeito Álvaro Dias, e no primeiro turno qual era a estratégia? Era focar em eleger o deputado filho dele, que a gente conseguiu com maestria. Adjuto Dias teve pouco mais de 57 mil votos. A gente conseguiu uma virada inesquecível de Rogério Marinho na cidade de Natal”, afirmou.

Alessandra Marinho, secretária-adjunta da Semurb, também comentou o apoio a Adjuto. “A gente estava focando mais nas campanhas em Adjuto Dias e no senador Rogério Marinho, até porque a questão de presidente estava tendo certas polêmicas naquele momento. Só que agora estamos unindo todo mundo aqui para garantir que nosso presidente seja reeleito e o prefeito Álvaro Dias possa dar continuidade a esse excelente trabalho que está fazendo aqui em Natal”, discursou. 

Marinho, de 28 anos, era uma das presentes na reunião organizada por Álvaro com empresários natalenses, em 20 de outubro, em que sugeriram burlar a lei e assediar funcionários a votar em Bolsonaro. Naquele dia, Alessandra circulou pelo salão em alguns instantes, fez fotos dos discursos, mas não falou ao microfone enquanto a reportagem esteve lá. Ela aparece em uma foto obtida pela reportagem no dia. 

Em outro momento da reunião com funcionários, Saulo Spinelly destrinchou o submundo dos grupos de mensagens da Prefeitura e o suporte à candidatura do filho do prefeito. 

“Todos os grupos da Semurb, da SEL, de Adjuto, vão ser colocados os cards da programação. O nosso deputado estadual ontem deu uma sugestão muito bacana, que vão com a camisa dele que é verde, que é de Adjuto, para sinalizar que é do grupo do prefeito Álvaro que tá na rua por Bolsonaro”.

Mensagem encaminhada aos funcionários da Prefeitura para pedir voto em Bolsonaro | Foto: cedida

Rogério e as reformas

Também envolvida na campanha de Rogério Marinho na rodada do primeiro turno, Jódia Melo comentou a apreensão dentro do staff bolsonarista em relação à recepção de Marinho nas ruas. Conhecido por ter sido o relator da reforma trabalhista no governo Temer, e secretário de Previdência e Trabalho durante a reforma previdenciária de Bolsonaro, eles temiam que isso o prejudicasse.

“A gente pensava que no início ia ser difícil [inaudível] nas comunidades que a gente ia levando [inaudível] com Rogério Marinho, que ia ser um pouco difícil reverter essa história por causa de todos os processos que as pessoas diziam que ele se envolvia. Da reforma trabalhista, previdenciária… A gente viu que não foi isso. O prefeito Álvaro Dias saiu muito fortalecido nesse primeiro turno, mas isso não é suficiente. A estratégia agora é outra. A estratégia agora é eleger o nosso presidente”, afirmou.

Para Johan Xavier, o objetivo com Bolsonaro na presidência era claro. “Ou a gente defende e abraça essa causa como sendo nossa, ou realmente daqui a dois anos a gente pode estar chorando o leite derramado. A gente precisa realmente se envolver nesse projeto político”, disse.

“Tentar converter votos, principalmente daqueles que estão indecisos e não querem votar”, continuou. Não conseguiu. Embora a diferença entre os dois candidatos tenha diminuído em cerca de nove mil votos entre os dois turnos, Jair Bolsonaro foi novamente derrotado em Natal e em outros 165 municípios potiguares, repetindo o resultado do primeiro turno.

Prefeito Álvaro Dias repete tática de reunião para pressionar voto em Bolsonaro

Como revelado pela Agência Saiba Mais, o prefeito Álvaro Dias organizou um encontro do mesmo tipo no dia seguinte à reunião com os secretários e terceirizados. Em 20 de outubro, ele juntou empresários de Natal em um hotel da zona Sul de Natal em que a pauta era, novamente, a sucessão presidencial.

Em diversas falas, os empresários sugeriram modos de tentar convencer seus funcionários a votar no candidato, apesar dos riscos de exposição na mídia e de serem acusados de assédio eleitoral, como relataram.

O caso deu origem a duas investigações conduzidas pelo Ministério Público Eleitoral (MPE) e Ministério Público do Trabalho (MPT), que têm a Prefeitura de Natal como alvo de investigação pelo crime de assédio eleitoral.

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