OPINIÃO

Seria cômico se não fosse trágico

Na semana passada, por umas três vezes, passei em frente ao 16º Batalhão de Infantaria Motorizada do Exército (16 RI), em Natal, na Avenida Hermes da Fonseca, uma das principais e mais movimentadas de capital potiguar, exatamente no lugar onde os golpistas bolsonaristas fazem o “protesto” deles. Na verdade, como vem acontecendo em todo o país, menos uma manifestação, já que sem pauta e sem nenhum sentido, e mais uma micareta de extrema-direita e de terceira idade. Que não é espontânea e sim financiada por empresários e políticos já sabemos e que conta com vista grossa (que é quase apoio) da PM e da Prefeitura Municipal, também. Gente que ao que parece não tem o que fazer, vagabundos mesmos (embora alguns evidentemente pagos para tal).

O que não sabemos é como exatamente encarar ou analisar essas movimentações. A princípio tratam-se de manifestações que pedem um golpe militar, por não reconhecer o resultado da eleição vencida por Lula, e querem deposição do STF e do TSE para entronizar Bolsonaro presidente, imperador, ditador, algo assim. Portanto, ações e pleitos considerados ilegais pela Constituição, que, logo, deveriam ser punidos imediatamente com dispersão e prisão (e assim seria fosse Bolsonaro o vitorioso e petistas acampados).

Contudo, o teor patético, quase surreal, de alguns destes movimentos colocou as “manifestações” em um ponto de ridículo que vem divertindo internautas, ganhando repercussão internacional e confundindo a cabeça tanto da Esquerda como da Direita. Já tivemos patriota agarrado no parachoque no caminhão e levado por trinta quilômetros; patriotas comemorando prisão do ministro Alexandre de Moraes (que como sabemos está soltinho da silva e viajou até para os EUA); grupos levantando celulares com lanterna para o céu pedindo intervenção alienígena; mulheres dançando, uma até abrindo escala em plena avenida no Leblon. Homem marchando sozinho na chuva, mulher ajoelhada rezando, cidadão gritando socorro para dentro do quartel. E dezenas de outros exemplos, tudo registrado em vídeo, quase sempre por eles mesmos, que, no mundo paralelo onde vivem, não percebem o papel patético que fazem e se imaginam colaborando para um golpe militar que vai salvar o Brasil dos comunistas.

É cômico, sim. Mas, também é trágico. Entre as pataquadas, tivemos em alguns lugares (principalmente Santa Catarina e região Norte) bloqueios de estradas que impediram estudantes de fazer prova do Enem e pacientes de chegar ao hospital. Vimos carros e caminhões sendo queimados, pessoas agredidas. Estabelecimentos identificados como sendo de “petistas” vêm sendo atacados. Nas altas esferas, o silêncio de Bolsonaro referenda os golpistas enquanto generais canalhas e políticos oportunistas estimulam de maneira velada ou explícita a continuidade dos protestos, para tumultuar a transição e o futuro governo Lula.

Já me perguntaram se esses movimentos vão dar em alguma coisa ou em nada? Não sei. A única coisa que sei é que é um alívio não ter parentes nem amigos tomando sol e chuva na frente de um batalhão pedindo um golpe militar que, sabemos, não vai acontecer, não há clima geopolítico para isso. Tanto que Lula já está viajando pelo Mundo para recompor a imagem do Brasil lá fora e refazer tratados e acordos.

Há quem defenda que não devemos rir dos momentos de comédia involuntária proporcionada pelos golpistas manifestantes. Discordo. Podemos, sim, rir de quem se expõe ao ridículo. O que não podemos é esquecer que movimentos que começam a virar seitas se tornam perigosos. Desde 2018 defendo, aqui mesmo nesse espaço, que o bolsonarismo não é um movimento político, mas comportamental. Nos últimos quatro anos, evoluiu de comportamental para quase religioso. Aí, sim, a coisa fica mais perigosa. Vamos continuar rindo, mas com um olho no peixe e outro no gato. Digo, no gado.

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