OPINIÃO

Sobre formigas, bundas e democracia!

Cefas Carvalho

Nas últimas duas semanas por razões diversas desandei a fazer pratos com camarão e com atum. Além de me preocupar com as receias, quantidade de alho, temperos, ponto exato a atingir, controlar as bocas do fogão etc eu também tinha de me preocupar com as formigas que quase imediatamente percebiam a comida na pia e em bandos organizados, como de costume, se apossaram com voracidade das cascas e dos restos. Dei-me conta então que aquilo de formigas serem atraídas preferencialmente por açúcar é uma lenda urbana. Formigas gostam mesmo é de camarão e de atum, o que evidencia que elas têm bom gosto. Pensei em escrever uma tolice dessas nas minhas redes sociais, mas por várias vezes me podei. Afinal, seria insensato e até desrespeitoso escrever sobre comida e formigas quando a democracia estava sendo ameaçada cotidianamente por um despresidente e uma campanha eleitoral acirrada contrapondo um democrata (Lula) e um genocida miliciano.

Dito isso, celebramos a vitória de Lula no domingo. O petista em menos de 24h como presidente eleito já recebeu o presidente da Argentina, Alberto Fernandez e já  participou de videoconferências com o presidente dos EUA, Joe Biden (sobre mudanças climáticas, insegurança alimentar, migração regional e “promoção da inclusão e da democracia”) e também com o presidente francês Emmanuel Macron. Além disso, foi comunicado pela Noruega e países do Fundo para Amazônia que a partir do ano que vem retomarão investimentos no Brasil (US$ 3 bilhões por ano que podem chegar a até 50 bilhões dependendo das ações do governo). Enfim, Lula com apenas um dia de eleito não apenas recolocou o Brasil  – hoje pária – no cenário internacional como mostra a conhecida capacidade de trabalho.

Essa disposição de trabalho de Lula e a leveza com que ele se posiciona em relação às coisas nos possibilita a todos não apenas a vislumbrar um país melhor e mais justo, mas também voltar às amenidades que tínhamos vergonha de publicar ou explicitar durante a campanha. Um sinal inequívoco disso: quatro amigas queridas, que não se conhecem e moram em cidades diferentes, postaram de segunda para terça fotos de biquini/maiô praticamente com a mesma legenda: enfim, teremos paz e democracia e poderei voltar a postar fotos da minha bunda (ou raba, como algumas escreveram).

Achei extremamente saudável que mulheres independentes e bem resolvidas voltem a ter vontade de postar fotos do corpo. Como vibrei com o amigo querido que após meses de postagens tensas sobre a campanha, se permitiu postar uma foto sem camisa no quintal de casa com o filho pequeno e o cachorro. Poderia citar também o casal de amigos professores que após meses de militância nas ruas e nas redes publicou imagem de ambos pedalando na orla (coisa que fazem há quase um ano mas jamais postaram).

Enfim, estamos todos nos permitindo para além de mantermos a militância viva e a atenção para com as “armadilhas” do bolsonarismo, a viver e publicizar amenidades. Seja formigas que tentam comer meu camarão, como bundas, quintais, bicicletas. E que venham fotos de filmes, pipocas, livros, beijos, vinhos, picanha. Ou do gato que dorme de maneira estranha. Ou ainda vídeos divertidos de gente querida faxinando a casa ou tentando equilibrar um copo de cerveja na cabeça. Merecemos viver de forma mais amena, sem nos preocuparmos o tempo todo qual o ataque do dia à democracia e as instituições. A vitória de Lula e mais ainda a derrota de Bolsonaro já teve o efeito de nos permitir uma leveza que nos vinha sendo tolhida graças a um projeto de ditador e uma pandemia que vitimou mais pessoas no Brasil do que deveria porque um genocida não quis comprar vacina e zombou dos doentes.

Hoje estamos vacinados contra a Covid. E com um presidente eleito que dialoga com a comunidade internacional e quer que todos, abastados e mais pobres, tenham vida digna. Que possam comprar e consumir cerveja e picanha, como Lula tanto fala e que praticamente virou bordão/meme. Sim, quero a partir de agora, amenidades, quero cerveja e picanha. Quero ver fotos de rabas e de amigos felizes. E escrever bobagens sobre formigas.

PS: O texto focou em leveza e amenidades porque este escrevinhador não está levando a sério as quarteladas de meia dúzia de fanáticos bloqueando BRs com aval de parte bolsonarista da PRF. Até a hora do fechamento deste texto, a própria população (MST, trabalhadores, torcidas organizadas, comunidades periféricas) já estava começando a desbloquear as pistas. Essa pataquada não dura até a quarta-feira e entrará como mais um capítulo tragicômico do bolsonarismo.

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