OPINIÃO

Três Marias

Por Sheyla de Azevedo

Nos conhecemos na área comum do condomínio. Ela é pequenina, de gestos delicados, preserva um olhar atento, um pouco triste, e nenhum resquício de luta corporal contra o tempo que lhe cai sobre os ombros; como um rio que simplesmente flui, porque sabe o caminho que leva ao mar. Sempre que conversamos, por mais que seja furtivamente, ela me prova que doçura não é para qualquer um. É preciso nascer sob a égide da substância, da resignação e da humildade. Em tempos de tanta virulência, pessoas querendo ter razão e, em nome dessa razão, passando por cima dos outros, ela deixa na gente um pedaço de qualquer coisa que lembra esperança.

Dona Maria construiu ao longo da vida uma constelação de pessoas: primeiro, chegou seu marido, depois sua filha K. e, por terceiro, seu “bebê” R. que, aos 20 anos foi alçado rapidamente aos céus, após um trágico acidente de carro. Dona Maria tem um apelido dentro do diminutivo de seu nome. Mas não há nada de diminuitivo nela, que abraça a vida com força, carinho e respeito, até mesmo pelas coisas ruins. Dona Maria perdeu um filho. Dona Maria não esquece disso, mesmo já tendo se passado mais de 20 anos. Quando toca nesse assunto é como se ela ficasse mais miúda e pendurada na borda do mundo, indefesa e correndo perigo de cair no abismo das coisas incompreensíveis desta terra.

Mas muito rápido, ela volta ao equilíbrio, finca-se de pé e resoluta porque não esquece dos que estão vivos e que a vida só guarda perfeições e idealizações naqueles que já se foram. Quem permanece precisa ser cuidado, consertado e amado ainda mais. Ela não esquece da casa que tem de arrumar, da alquimia da cozinha, do amor que transborda pelo marido que ela chama de “meu João” e a filha e as netas. Dona Maria diz que quando é inevitável lembrar da dor prefere sofrer em silêncio. Fica assim quietinha, põe a mão direita amparando o coração e reza, reza, reza até cochilar. E quando diz isso, a gente quase pode tocar na mansidão que se instala nos seus olhos. Dona Maria vai voltar para sua terra, lá do outro lado do Brasil. Por isso, eu acho que esse texto é um “até logo” para ela. Porque dela nunca vou querer me despedir por definitivo.

Estávamos em mais um dos nossos encontros casuais em nossa morada quando, através dela me veio uma das forças mais eficazes para os tempos difíceis que estamos passando. Ela me disse: “tenha paciência minha filha, o seu jardim já é florido, agora você precisa esperar só um pouquinho que logo chegam as borboletas”. E ela não sabia que, ali, naquele momento, eu estava diante de uma delas.

Vamos à dona Maria 2. Nos conhecemos na parada de ônibus. Ela vai fazer sua hidro e eu vou para o trabalho. Antes de chegarmos aos nossos objetivos matinais, quando a gente se encontra é como se avistássemos um oásis. Quase que diariamente a gente desfia um rosário de reclamações sobre os horários dos ônibus, sobre os atrasos, a falta de respeito etc. A única coisa divertida que a gente faz esperando os ônibus de Natal é reclamar do péssimo serviço que nos é oferecido. Dona Maria 2 perdeu uma filha para a leucemia. Foram meses e meses de tratamento e de espera para encontrar uma pessoa doadora de medula. Duas pessoas compatíveis nesse mundo apareceram. Uma, na Noruega. A outra, aqui mesmo. Mas, por essas razões que não é fácil de compreender, a pessoa compatível se recusou a doar a medula. Isso mesmo que vocês estão lendo. E ela não resistiu. Mas, antes de sucumbir, disse à mãe que não se preocupasse com isso, que as coisas aconteciam exatamente como tinham de acontecer e que não adiantava maldizer a vontade dos outros. Dona Maria 2 guarda as lágrimas dentro de pequenos sulcos cultivados ao redor dos olhos octogenários. E eu fico com vontade de ter um pequeno lenço de nuvem para oferecê-la naquele momento e a certeza ingênua de que a sua filha lhe faz um carinho na cabeça nesse momento.

“Olha a água mineral!” A Maria 3 fala num tom alto na parada de ônibus, mas sem irritar. Ela ocupa parte dos bancos com uma enorme caixa de isopor e as pessoas, em meio ao calor, ficam indiferentes ou agem como se ela anunciasse uma boa nova. Passaria despercebida por mim, não fosse o fato de que está sempre acompanhada dos dois filhos. Uma menina e um menino. Talvez sete e quatro anos. São bonitos. Gosto de reparar na vida furtiva das pessoas. Gosto de observar pequenas cenas e, a partir delas, imaginar suas vidas, planos, sonhos, cotidiano. A moça é sempre muito carinhosa e paciente com as crianças.

Beija-os entre um troco e outro. Eles não fazem parte das transações comerciais fechadas no pingo do meio dia. Os traz porque não tem com quem deixá-los, penso eu. Às vezes, a menina não vem. Então, imagino que esteja na escola ou ficou com uma tia. O marido dela é servente de pedreiro. Está fazendo uma obra na casa de praia de um bacana no litoral norte. Especulo com meus botões. Só vem para casa nos finais de semana, sempre com uma cesta básica.

Construo essas resoluções não com a intenção de possuir a vida dessa moça e seus filhos. Construo porque na minha liberdade de imaginar, posso deliberar também que um dia seus filhos terão a chance de estudar, crescer e retribuir os beijos da mãe na parada de ônibus com água e a sombra que ela merece. Pode parecer coisa de gente doida (eu não tenho medo da loucura). Assim eu vou buscando as pessoas e delas extraindo uma essência de vida, que torna tudo mais mágico e mais humano.

 

 

 

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Jornalista e psicanalista