O choro é livre
Natal, RN 24 de jul 2024

O choro é livre

12 de dezembro de 2022
4min
O choro é livre

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Quantas vezes você chorou na vida ? Ou na última década? Quantas vezes as lágrimas te traíram e escaparam mesmo sem você querer ? Na alegria ou na tristeza. Lembra aí. No horror de uma tragédia. Na depressão. Na melancolia, na incerteza ou no medo do fim dos dias.

Uma vez, ainda morando em Brasília, minha mãe falou e nunca esqueci:

- Só vi seu pai chorar duas vezes na minha vida: quando sua vó Maria morreu e quando o Brizola não foi para o 2° turno da eleição de 1989.

De lá pra cá, seo Francisco chorou outras vezes. Algumas eu vi, outras não.

Eu chorei várias. De queda de bicicleta a fim de namoro. Aliás, acho que o medo do merthiolate me fazia chorar mais que as lanhadas no chão com a minha caloi vermelha.

Não sei se isso é comum ou natural, mas acho que quanto mais adulto a gente fica, mais rasos d'água ficam os olhos da gente. A música que lembra alguém ou alguma época; o medo de perder quem a gente gosta; o pavor de que alguém nos impeça de fazer o que gostamos.

Ah, Flamengo, se eu recebesse em dinheiro pelo tanto que eu chorei por você... podia escolher hoje onde morar em qualquer lugar do mundo. Daquele fatídico gol de Barriga até o gol do Gabigol aos 43 minutos do segundo tempo contra o River dava para encher um rio Amazonas só com o que você me deu em tristeza e felicidade.

E os choros que doem na alma ? O golpe contra a Dilma Rousseff. Pô, chorei demais. Como um país se deixa morrer por tão pouco ? Porque, vamos combinar, morremos um pouco ali. Como nação, sociedade, como povo.

Torturada na ditadura, Dilma viu um deputado celebrar no Parlamento o criminoso que a torturou. E dois anos depois, ao invés da prisão, esse mesmo sujeito foi eleito presidente da República. A dívida que o Brasil tem com Dilma Rousseff nem um oceano Atlântico de lágrimas há de pagar.

Como doeu na alma aquele último discurso de Dilma antes de deixar o Palácio do Planalto. Aliás, após encarar e rebater um a um os algozes que a torturam na tribuna política do Senado.

E o que dizer dos prantos de Lula e em nome dele ? O menino que passou fome; o moleque que fugiu do destino num pau de arara; o marido que perdeu a mulher e o filho no parto; o trabalhador que perdeu um dedo trabalhando; o sindicalista preso na ditadura por defender direitos trabalhistas; o candidato que perdeu três eleições pra presidente; o torneiro mecânico que virou presidente do Brasil; o presidente que prometeu a todo brasileiro faminto pelo menos três refeições por dia; o marido que perdeu a segunda mulher; o avô que perdeu o neto; o cidadão preso por 580 dias após um julgamento injusto liderado por um juiz comprovadamente parcial.

Todos num Lula só.

Que ser humano sobrevive a esse roteiro de lágrimas ?

De que são feitas as lágrimas de Lula, senão dos dramas, das derrotas e das vitórias do povo brasileiro?

Nesta segunda-feira, Lula foi diplomado presidente da República do Brasil pela terceira vez.

Nenhum outro cidadão brasileiro, em qualquer outro momento da história, chegou tão alto, conquistou tanto.

Na cerimônia, Lula chorou.

Por ele e por muita gente.

Por quase todos nós.

Porque o choro é livre.

E o Lula ?

Ah, o Lula é livre também.

Livre, leve e presidente diplomado do Brasil.

Pela terceira vez.

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