São hipócritas as críticas ao Catar?
Natal, RN 27 de mai 2024

São hipócritas as críticas ao Catar?

2 de dezembro de 2022
4min
São hipócritas as críticas ao Catar?

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Eu fico impressionado com o grau de hipocrisia com que as pessoas e os países tratam essa Copa. Os faniquitos sobre os Direitos das Mulheres, LGBTQI+, sobre a venda de bebidas alcoólicas, etc., são todas recheadas de hipocrisia e eu me arrisco a dizer, de pura cretinice, muitas vezes para “lacrar”. Dá a impressão de que o Catar, ad-Dawḥa em árabe, não existia até antes do início dessa Copa. Teria esse pequeno e desértico emirado, surgido do nada, ou melhor, das areias do deserto?

Ora, o Catar é um Emirado, ou seja, governado por um Emir, um rei. Nunca respirou nada que parecesse com qualquer tipo de democracia ocidental. A família Al Thani governa desde o século XIX, 1825, portanto há CENTO E NOVENTA E SETE ANOS, embora, em 1871, os clãs aceitaram a suserania Otomana, ou seja, os turcos aceitaram que as tribos, a mais poderosa elas a Al Thani, comandasse as tribos, enquanto a Porta cuidava do resto e recebia a grana dos impostos.

Os ingleses substituíram os turcos em novembro de 1916 e, em acordo com os Al Thani, passou a tutelar essa reunião de tribos. O petróleo, descoberto em 1939 e explorado pelos ingleses, vai tornar o pequeno emirado estratégico, dada a sua localização no Golfo Pérsico, que é um corredor de escoamento dos barris de petróleo, ou seja, esse ponto desértico tornou-se, para os ingleses, uma fonte de receita bem atraente. As exportações de petróleo começaram em 1949 e as receitas do petróleo tornaram-se a principal fonte de receita do país, e a família Al Thani começou a construir seu mega império.

Nunca houve partidos, jornalismo independente, direitos humanos, liberdade de expressão e nem cerveja, nesse emirado, ou seja, quando falarmos em democracia liberal representativa, a famosa democracia ocidental, os cataris certamente acharão essa discussão no mínimo estranha. Aliás, onze anos depois de ter sido escolhida para sediar a Copa de 2022, e nove depois de ter prometido instalar um parlamento, foi realizada uma eleição em outubro de 2021. Mas calma! O tal parlamento tem 45 deputados, 15 nomeados pelo Emir e só votam os descendentes de famílias que estavam na região ANTES de 1930. Nenhuma mulher foi eleita ou indicada. Não houve campanha eleitoral e quem discordava, a polícia prendia ou baixava o cacete.

Um país que tem 3 milhões de habitantes, mas que apenas 40,0% são nativos e o restante é de imigrantes trabalhadores, diz muito, já que a riqueza é apropriada por pequenos círculos tribais, mas isso não vem ao caso.

Até as pedras sabem que a FIFA tem uma relação muito sombria com as Federações, e os escândalos de corrupção não são novidade. A escolha da Copa passa por isso. A disputa é acirrada porque é um evento bilionário e, no caso do Catar, é um pretexto para que o país, governado pelo jovem Tamim bin Hamad Al Thani, apareça como um país moderno. Se olharmos o termo “moderno” a partir de uma percepção que se limite ao deslumbramento arquitetônico de Doha, a capital onde mora 80,0% da população, aí tudo bem.

O jovem Tamim, subiu ao trono em junho de 2013, quando tinha apenas 33 anos, mas já colecionava ações que encantaram o mundo, como comprar o Paris Saint-Germain e seu reinado nada tem de democrático. Aliás o Catar foi um dos fornecedores de armas para o Estado Islâmico, na sua guerra contra o governo sírio e tem envolvimento com a grotesca guerra civil no paupérrimo Iêmen, onde milhares de iemenitas tem morrido sob as bombas dos sauditas.

Pode-se dizer que o Catar tomou essas atitudes sombrias depois de ter sido escolhido para sediar a Copa, mas não lembro de nenhum movimento internacional denunciando esse país que não tomou conhecimento das demandas por dar uma folga no seu reacionarismo social. O emirado joga dinheiro pra cima, mas define claramente quem pode pegar nesse dinheiro.

Esse show de hipocrisia canalha das grandes entidades não é novidade e as demandas dos grupos de direitos humanos não provocam nenhuma reação de Tamim, que talvez se preocupe mais com a corrida de camelos, esse sim um esporte nacional, do que com as reclamações desses grupos.

Quando terminar a Copa e desmontares os estádios, o Catar voltará a ser um regime monárquico absolutista, com uma família governando há quase dois séculos.

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