OPINIÃO

Sobreviventes

Lembro de mandar uma mensagem desolado para um amigo de infância em outubro de 2018, logo após a vitória do presidente em fuga, e receber como resposta quase no mesmo instante:

– Agora é torcer para ficar só 4 anos.

Torcer, resistir, insistir e trabalhar, faltou meu amigo completar. Parecia o início do fim. E quase foi, tantas foram as ameaças  e tentativas de golpe para permanecer no poder. Tantos foram os insultos, as quebras de decoro, os crimes de responsabilidade, as provocações para que famílias brigassem entre si; tantos foram os crimes contra a vida, o deboche e a violência contra minorias sociais; tantos foram os estímulos para que cidadãos comuns odiassem, a ponto de querer eliminar, quem pensa diferente.

Nós sobrevivemos ao pior governo da história, pelo menos desde a redemocratização. Sobrevivemos ao pior exemplo de ser humano. Ao pior comando. Ao pior líder. Aquele que foge para não assumir a culpa mesmo que tenha deixado todas as digitais cravadas nos crimes que cometeu.

Lula terá uma tarefa histórica pela frente. Além de governar o país, liderando a frente mais ampla que se tem notícia na história da República, precisa estar ciente de que é dele também o papel criar e implementar políticas que desfaçam uma das péssimas imagens que temos no mundo, a de que somos um país que transforma em lei o esquecimento.

Numa democracia não pode haver brecha para a exaltação de torturadores, matadores e assassinos, sejam individuais ou organizados em grupos de extermínios. Por mais jovem que seja, nossa democracia não pode ser palco para traidores da pátria nem desertores da Constituição. Nosso país não pode mais fugir do encontro com sua memória, por mais dolorosa que seja a exumação dos nossos cadáveres.

Uma memória que não está tão distante no passado da ditadura, mas cada vez mais presente na opressão do Estado e de grupos paramilitares contra moradores pretos e pobres das favelas brasileiras,  trabalhadores do campo, povos indígenas e comunidades LGBTQIA+.

A luta pela verdade, pela memória e pela justiça não pode mais ser relegada a segundo plano, sob o risco de voltarmos a seguir regando uma semente apodrecida que deu no que deu.

Esse novo Brasil que nasce com o novo governo em 2023 não é um país que deseja vingança, é um país que precisa de Justiça.

Para que um dia a gente volte a celebrar a vida.

E não a sorte de estarmos vivos.

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Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"