Com anestesistas em greve no RN, pacientes enfrentam filas sem previsão de fazer cirurgias
Natal, RN 16 de jul 2024

Com anestesistas em greve no RN, pacientes enfrentam filas sem previsão de fazer cirurgias

3 de janeiro de 2023
6min
Com anestesistas em greve no RN, pacientes enfrentam filas sem previsão de fazer cirurgias

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Com atraso nos pagamentos e uma dívida que ultrapassa R$ 3 milhões, os médicos da Cooperativa dos Anestesiologistas do Rio Grande do Norte (COOPANEST-RN) paralisaram as atividades desde 15 de dezembro e reclamam de falta de diálogo com o Governo do Estado e a Prefeitura de Natal, responsáveis pelo pagamento dos serviços. Os profissionais realizam apenas plantões e atendimentos de urgência e emergência no momento. Com isso, pacientes que necessitam de outros serviços menos complexos aguardam em macas e enfrentam remanejamentos em hospitais. 

No Hospital Walfredo Gurgel, em Natal, Francisca Erineide, uma idosa de 82 anos, descobriu uma fratura no fêmur e ficou internada seis dias no corredor da unidade. Quando foi transferida para o Hospital Deoclécio Marques, em Parnamirim, testou positivo para Covid-19 e teve que passar o Natal internada na ala Covid do hospital, situação que a abalou psicologicamente, segundo os parentes. 

“Nossa família está muito apreensiva por causa dessa falta de previsão de quando a cirurgia será feita. Fora a questão dos gastos com a cuidadora, pois todos nós trabalhamos e não podemos ficar com ela o dia todo”, conta Emanuel Borges, neto da idosa. 

A denúncia partiu do Sindicato dos Trabalhadores em Saúde do RN (Sindsaúde) que, embora não participe da greve, acompanha a situação vivenciada pelos profissionais e pacientes. Agora, Francisca está no Hospital Memorial São Francisco, onde segue aguardando a cirurgia.

Segundo o médico Vinicius da Luz, presidente da COOPANEST, a dívida atual em atraso com a Prefeitura e o Estado chega a mais de R$ 3,3 milhões, sendo a maior parte do Governo.

“O Estado não faz o repasse ao município de Natal a basicamente dois meses, não sendo possível pagar um pedaço dessa dívida. Outro pedaço a Prefeitura não repassa à Cooperativa, que é a parte federal. O governo federal tem uma verba específica para procedimentos de média e alta complexidade que o governo federal repassa regularmente para a prefeitura, que não os tem repassado”, relata.

Ao final de janeiro, o montante pode ultrapassar os R$ 5 milhões.

“Hoje nós temos também dois meses em aberto. As competência de setembro e outubro de 2022 já estão atrasadas. A partir de 28 de janeiro, se não houver nenhum pagamento, a dívida vai chegar a R$ 5,5 milhões. É uma situação muito complicada pra gente. Não existe até o momento nenhuma proposta de pagamento por parte nem da Secretaria Municipal de Saúde, nem da Secretaria Estadual de Saúde”, se queixa Luz.

Com a escala de trabalho normal, o grupo de médicos realiza 5.200 procedimentos por mês. Chegando na terceira semana seguida de paralisação, já foram mais de 3 mil procedimentos que deixaram de ser feitos no período.

Natal é principal cidade afetada

De acordo com Érica Galvão, técnica de enfermagem da Maternidade Araken Pinto e diretora do Sindsaúde, diversos atendimentos deixaram de ser feitos a partir da paralisação.

“O principal afetado hoje é o município de Natal, que desde cirurgias eletivas a  procedimentos simples que precisam de anestesia como, por exemplo, um cateterismo para uma pessoa que acabou de infartar, não estão sendo realizados”, explica. 

“Então fica esse pessoal sendo jogado do Walfredo para outros hospitais. O Severino Lopes, dentro do Hospital Municipal, no Hospital dos Pescadores, dentro de UPA, que também está sendo difícil regular o paciente para outro ambiente porque não tem os anestesistas para fazer os procedimentos quando se precisa, por exemplo, nesse caso de infarto”, relata Galvão.

Segundo a sindicalista, a entidade está recebendo relatos de profissionais da saúde que “sofrem muito vendo os pacientes ficarem à espera de uma cirurgia simples, por exemplo, como cateterismo, que é um procedimento um pouco complexo, mas não é tão invasivo”.

“A gente recebe os relatos dos pacientes e também dos servidores. A equipe de enfermagem, a equipe de assistência social, as equipes de saúde que estão acompanhando esses pacientes ficam com o coração na mão porque não tem o que fazer. A prefeitura não anuncia o calendário de pagamento, não anuncia um dia de negociação”, reclama a técnica de enfermagem.

Prejuízo generalizado

Para o dr. Vinicius da Luz, a paralisação afeta não somente os pacientes, mas os próprios médicos que não estão recebendo pelos seus serviços.

“Pra gente é um prejuízo enorme, porque tanto a cooperativa como instituição acaba não produzindo, e aí ela não tem como se manter sem essa produção, quanto os próprios médicos. Imagina você passar dois, três meses do ano sem produzir nada. Vai gerar um desfalque mais grave na frente. Então não é fácil manter uma situação dessa realmente. E a gente está querendo negociar o mais rápido possível”, relata o presidente.

Sem os retornos esperados da Prefeitura e do Estado, uma solução é buscar uma intermediação com o Ministério Público do Rio Grande do Norte, quando o órgão retornar do recesso. O objetivo é reivindicar uma nova rodada de negociação para dialogar com as secretarias. 

“A gente faz um apelo principalmente à Governadoria e à Prefeitura de Natal diretamente, no sentido de sensibilizar os gestores principais para que haja uma resolução. Até o momento não houve contato sequer conosco para uma nova tratativa. Nesse momento a gente sente como se não tivesse acontecendo nada na cidade, e a situação está muito grave. A gente tem que sentar pra resolver isso o quanto antes”, espera o médico. 

Procurada, a Secretaria de Saúde Pública do RN (Sesap) informou que não há previsão para a realização dos pagamentos em atraso. A Secretaria Municipal de Saúde de Natal (SMS) não respondeu.

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