Famílias sem teto expulsas do Viaduto do Baldo pela Prefeitura de Natal continuam morando na rua a poucos metros do local
Natal, RN 20 de mai 2024

Famílias sem teto expulsas do Viaduto do Baldo pela Prefeitura de Natal continuam morando na rua a poucos metros do local

26 de janeiro de 2023
6min
Famílias sem teto expulsas do Viaduto do Baldo pela Prefeitura de Natal continuam morando na rua a poucos metros do local

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Quase três anos depois das primeiras ações da Prefeitura de Natal para expulsar famílias sem teto que estavam abrigadas sob o Viaduto do Baldo, em Natal, o problema foi apenas transferido para alguns metros de distância, mais especificamente, para a pracinha localizada em frente ao Viaduto, que encontra-se cercado por um muro colocado pela gestão municipal.

De acordo com o pessoal que fica no local, um grupo de cerca de 30 famílias montou barracos na praça que fica na subida da Avenida Rio Branco, no centro da cidade. Muitos saem durante o dia para trabalhar e só retornam à noite.

Lúcia, em frente ao barraco onde mora com o filho I Foto: Mirella Lopes
Lúcia, em frente ao barraco onde mora com o filho I Foto: Mirella Lopes

Meu aluguel social termina esse mês, muita gente vai começar a voltar pra rua”, conta Lúcia Ferreira. de 49 anos, que mora em um barraco na pracinha com um dos quatro filhos.

De acordo com a secretaria municipal do Trabalho e Assistência Social (Semtas), as pessoas que atualmente utilizam o espaço do Baldo são acompanhadas pelo Centro de Referência Especializado para Pessoas em Situação de Rua (Centro Pop) e beneficiárias do Auxílio Brasil. Ainda segundo a Semtas, essas pessoas são monitoradas pelo serviço especializado em Abordagem Social (SEAS) que realiza, periodicamente, orientações e encaminhamentos à rede de proteção social.

Dados preliminares do primeiro Censo da População em Situação de Rua no Rio Grande do Norte divulgados pela Secretaria de Estado da Habitação e da Assistência Social (Sethas) no ano passado apontavam, pelo menos, duas mil pessoas em situação de rua no Rio Grande do Norte.

Medo de dormir

Érica Cleidiane teve que entregar a casa onde morava, que era paga pela mãe, mas que ficou sem ter como manter a despesa da filha. O resultado é que há três meses ela está morando na rua, mas essa não é a primeira vez que ela passa por essa experiência.

Érica sonha com a casa própria para morar com o filho I Foto: Mirella Lopes
Érica sonha com a casa própria para morar com o filho I Foto: Mirella Lopes

Já morei na rua com minha mãe e meus irmãos quando tinha uns 12 anos. O que dá mais medo é na hora de dormir porque tem muita gente ruim que pode querer fazer alguma maldade”, comenta a jovem de 28 anos que alimenta o sonho de ter uma casa própria.

Apesar de ter trabalhado com buffet, restaurantes e como Auxiliar de Serviços Gerais (ASG), Érica conta que nunca teve a carteira assinada e que os empregos temporários desapareceram durante a pandemia da covid-19. Ela tem um filho, que para não morar com ela na rua, fica na casa da avó.

Quero um lugar tranquilo pro meu filho dormir bem, acordar bem e viver tranquilo”, planeja.

O homem que já teve 12 casas

A vida mudou muito para João Maria, que já teve 12 casas de aluguel na cidade de Tangará. Ele morava em Natal, onde tinha outras três casas e ainda possuía um automóvel. Porém, ao longo dos anos em que foi dependente químico, seu João foi se desfazendo de todo esse patrimônio.

Atualmente, quando não dorme na casa de amigos, é na pracinha perto do Viaduto do Baldo que ele se abriga. Simpático e sorridente, ele conta que foi usuário de drogas durante 15 anos, mas que há dez decidiu se livrar do vício.

Me desfiz de tudo e quando me vi morando na rua, pensei: agora não tenho mais nada, preciso dar um jeito na minha vida. Consegui parar sozinho, hoje frequento uma igreja e estou feliz”, conta João Maria, de 57 anos, que apesar da situação precária na qual vive hoje, planeja recuperar a casa própria.

No currículo, Seu João tem uma longa experiência profissional como pedreiro, trabalhos em transportadoras e condomínios. Mesmo assim, ele conta que tem muita dificuldade em se colocar no mercado de trabalho.

É ‘mode’ minha idade! Mas eu não me troco por um novo! No meu último trabalho como porteiro em um condomínio, o pessoal gostava muito de mim, mas o síndico ficava implicando e a pessoa se sente humilhada né, aí me ofereci pra quando fosse demitir alguém me botasse na lista. Mas, até hoje, quando passo por lá, o pessoal pede pra eu voltar”, conta sorridente.

João Maria quer recuperar patrimônio I Foto: Mirella Lopes
João Maria quer recuperar patrimônio I Foto: Mirella Lopes

Histórico de expulsões

Em janeiro de 2020, em meio às fortes chuvas que desabaram sobre a cidade de Natal, o município expulsou as pessoas em situação de rua que moravam desde 2018 embaixo do viaduto e cercou o local. Com a volta das famílias ao local, em agosto do mesmo ano a prefeitura de Natal deu um prazo de sete dias para que as 30 famílias alojadas na região do viaduto do Baldo deixassem o local por livre e espontânea vontade.

Em fevereiro de 2021, sem qualquer aviso prévio, a Prefeitura de Natal expulsou os sem teto que estavam abrigados no local. Viaturas da Guarda Municipal foram enviadas e os barracos derrubados. As famílias voltaram ao local e em abril de 2022 elas tiveram, novamente, seus pertences jogados no lixo pela Prefeitura de Natal, que cercou o Viaduto e construiu um muro no local.

Viaduto do Baldo cercado por muro I Foto: Mirella Lopes
Viaduto do Baldo cercado por muro I Foto: Mirella Lopes

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