OPINIÃO

Feliz livro novo

Ano novo, vida nova, diz o ditado. E nunca ele pareceu tão adequado, após esses lamentáveis últimos quatro anos de desmonte do país com o pior governo que certamente o Brasil já teve.

Amanheço o ano de 2023 cheia de esperança. E meu júbilo cresce ainda mais com a notícia de que uma das primeiras ações do Governo Lula foi não só resgatar o Ministério da Cultura, como também criar a Secretaria de Formação, Livro e leitura, a ser comandada pelo cearense Fabiano Piúba, Mestre em História, Doutor em Educaçãoe ex-Secretário da Cultura do Ceará entre 2016 e 2022. Fernando Piúba também já passou pelo Ministério da Cultura entre 2009 e 2011 e no ano de 2014. Competência técnica e compromisso ético, tudo indica, não irão faltar.

A nova Secretaria, dividida entre as diretorias de Educação e Formação Artística e a do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas, vem nos trazer o alento a propósito de um direito básico de toda e qualquer criatura humana: o acesso ao conhecimento, um direito reconhecido desde os tempos da célebre Biblioteca de Alexandria. A propósito, quem relata este anseio pelo saber e pela informação é a filósofa e escritora espanhola Irene Vallejo, no fantástico ensaio “O infinito em um junco: a invenção dos livros no mundo antigo” (Rio de Janeiro, Editora Intrínseca, 2022). Reproduzo um pequeno trecho a esse respeito:

Os bons tempos (da Biblioteca de Alexandria) duraram décadas e os livros continuaram chegando a Alexandria aos borbotões. Tanto que Ptolomeu III fundou uma segunda biblioteca fora do distrito do palácio, no Serapeu, o santuário do deus Serápis. A Grande Biblioteca ficou reservada aos estudiosos, enquanto a biblioteca filial ficou à disposição de todos. Como disse o professor de retórica que a conheceu pouco antes de sua destruição (Aftônio), os livros que havia no Serapeu “deixavam a cidade inteira em condições de filosofar” (p. 65).

Não se admira, pois, que governos pautados na ode à truculência, ao terror, à desinformação e à ignorância, bem nos moldes do anterior, tenham verdadeira ojeriza ao universo dos livros, ponte para o desenvolvimento de um espírito crítico. Um governo verdadeiramente democrático deve propiciar à toda população essa ponte, o que se faz por meio de políticas públicas de fomento às práticas autorais, editoriais e leitoras, articulando formação e manutenção de autores, editores e público-leitor.

Como bem assinala o advogado e professor Allan Rocha no seu artigo “Leitura e Acesso à Cultura”, na obra Livros para todos: ensaios sobre a construção de um país de leitores (Rio de janeiro, Nova Fronteira, 2021), sem o acesso a bens culturais, no que se incluem necessariamente os livros, não é possível existir inclusão, emancipação, cidadania, democracia ou desenvolvimento cultural, bem como formação, criação, manifestação, produção ou expressão de bens culturais só são viáveis por meio da fruição dos mesmos.

Torço para que este novo governo, de fato, consiga fazer “sair do papel” esses ideais e garanta amplo acesso e fruição dos livros, garantindo a editores, autores e leitores, bem como a todos os envolvidos na cadeia produtiva do livro, novos e bons tempos que entrem para a História.

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