OPINIÃO

Janeiro de liberdade

Ontem fui com um grupo de amigos à praia de Cotovelo prestigiar o luau do Alan Persa. Esse grupo se reúne há mais de uma década para celebrar a vida (eita, que escrever isso me lembra que já vivi quase 50 anos, rs) e em janeiro, mês de férias, o gramado nos fundos do condomínio In Mare Bali, é o ponto de encontro.

Nesse janeiro pós-pandêmico conversamos sobre as mudanças sentidas nos últimos tempos. Nos sofrimentos vividos, nas perdas dos entes queridos e no quanto modificamos como fruto desse sofrimento.

Uma parte dos integrantes frequentava igrejas protestantes, hoje não mais. O motivo tem a ver com direitos humanos e liberdade. Os que saíram das igrejas relatam sentir-se mais felizes agora. Sem a contradição entre o que defendem e o que praticam. Todos, por exemplo, apoiam a luta LGBTQIA+, não veem problema em que jovens solteiros tenham vida sexual ativa, que as mulheres sejam independentes e se vistam da maneira que desejarem. Para essas pessoas, esposas não são auxiliares dos seus maridos, elas são protagonistas junto com eles, da rotina familiar.

É uma visão contemporânea (e nem um pouco revolucionária fora do meio religioso), mas dentro, é considerada destoante, subversiva até. Impossível frequentar uma igreja que defende doutrinas conservadoras sem se sentir vigiado por pensar diferente. Lembrei um trecho de “Um sopro de vida”, da onipresente Clarice Lispector:

– Ela é tão livre que um dia será presa.

– Presa por quê?

– Por excesso de liberdade.

– Mas essa liberdade é inocente?

– É. Até mesmo ingênua.

– Então, por que a prisão?

– Porque a liberdade ofende.

Músico Alan Persa / foto: Auridan Trindade

A vida segue árdua e desafiadora para esses amigos, que já sofrem com os primeiros sinais do envelhecimento: cansaço, dores nas articulações, refluxo, calores da menopausa. Os filhos mais velhos são adultos jovens e ainda precisam de apoio. Os mais novos, pais e bichinhos adotados, idem. Os ombros pesam porque depois do expediente no trabalho, outro, espera em casa. Dois deles estão distantes, trabalhando para manter o sustento da família.

O Brasil mudou para pior nos últimos anos, mas esse grupo resistiu à neutralidade, ao conservadorismo e à alienação. Todos votaram em Lula e contribuíram para as mudanças que desejamos ver. Foi árduo, cansativo e muitas vezes doloroso sustentar posições, em nome de um ideal. Mas essa turma já viveu o suficiente para saber que é perigoso se calar diante das injustiças. Pessoas oprimidas morrem quando pessoas privilegiadas se calam. Não adianta estar do lado certo da força, se você não está disposto a declarar isso.

Alan Persa fez uma apresentação impecável, cantando as músicas que marcaram gerações de brasileiros. Mas teve um momento enquanto eu dançava (as amigas nem repararam) que o Alan cantou assim: “…Meu baião, coração, arranca essa dor do meu peito pra eu não chorar…”. Olhei para o céu, as lágrimas brotando e a lembrança da mamãe vindo forte. Nenhuma estrela visível, embora eu soubesse que elas estavam lá, brilhando distantes no cosmo. Continuei a dançar como se a vida fosse a mesma de antes da partida dela porque, naquele momento bonito, era. Naquele momento singelo e fugaz, a vida era perfeita.

Ainda bem que Baianidade Nagô praticamente fechou a noite, com versos que renovaram minha esperança. Ontem, a igreja foi um gramado em frente ao mar, o altar foi o céu; a santa que repousava sob ele, Nossa Senhora da Lua Cheia, com seu véu iluminando as águas. O sacerdote foi um jovem e talentoso cantor, os irmãos, eram todos os que comungavam daquele instante: amigos e desconhecidos… e o hino mais bonito dizia:

“…Eu queria que essa fantasia fosse eterna,

quem sabe um dia, a paz vence a guerra

e viver será só festejar…”.

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