CULTURA

“O povo pode?”: filme que será exibido em Natal retrata Brasil de Temer e Bolsonaro sob olhar de nordestinos

O cineasta Max Alvim vem a Natal na próxima quinta-feira (26) para a exibição do documentário “O Povo Pode? Um país pelo olhar dos brasileiros”. O local escolhido é a Cervejaria Resistência, ponto de encontro da esquerda natalense onde, após a exibição, haverá um debate sobre a produção.

Quando o cineasta decidiu iniciar as filmagens de seu documentário, a ideia era outra. O protótipo do que viria a ser o filme teve início com a caravana do presidente Lula (PT) pelo Nordeste, em 2017. O documentário deveria ser um road movie, produção feita na estrada para acompanhar os passos do petista em que foram percorridos 4,9 mil quilômetros, em 60 municípios nordestinos visitados. 

“A leitura que a gente fazia é que aquela caravana era um momento histórico, de um encontro de uma liderança com a reputação e a expressão mundial que o Lula tem, com a população. Só que, já na ocasião, a gente dizia: ao invés de fazer um filme sobre o Lula, que tal fazer um filme através do Lula?”, explica o diretor. 

“O quê que o Lula olha? O que essa figura emblemática observa quando viaja, quando ele tem contato com a população, e que depois lá na frente quando ele governa vira política pública? Era isso que a gente queria fazer”, completa Alvim.

Durante a caravana, Max e sua equipe recolheram histórias de cerca de 30 pessoas. Depois, fizeram um recorte e escolheram sete que consideraram “mais fortes, mais potentes, mais pregnantes”. A caravana Lula pelo Brasil iniciou em Salvador (BA) e foi até São Luís (MA). Ao final, Alvim refez o caminho inverso, mas desta vez filmando as pessoas.

“Nós filmamos sete histórias de trabalhadoras e trabalhadores brasileiros que faziam uma reflexão deste país que a gente vive, do que era antes e de como estava naquela ocasião em 2017”, diz o documentarista. 

“Sucessão de tragédias”

Entretanto, ao retornar para São Paulo em outubro de 2017, após 36 dias de filmagens, o cineasta observa um novo cenário político se desenhando. Naquele período, ao final do ano, o ex-juiz Sérgio Moro e a tropa da Lava-Jato cercavam o petista na intenção de condená-lo. Lula era acusado de crimes de corrupção e lavagem de dinheiro nos caso do triplex do Guarujá e do sítio de Atibaia. A prisão veio em abril do ano seguinte.

“Estávamos no ano da eleição de 2018, não sabíamos se o Lula ia ser ou não candidato, virou todo aquele imbróglio que a gente conhece, então tomamos uma decisão de seguir filmando”, diz Max.

Depois disso, segundo o diretor, a “sucessão de tragédias que o Brasil foi sendo acometido fez com que a gente continuasse filmando”. 

O trabalho se desdobrou para o próprio dia da prisão (em que ficaram “todos atônitos”), após o petista se entregar à Polícia Federal (PF) no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, e também nos meses seguintes. 

“Acompanhamos toda a eleição na expectativa, primeiro, do Lula ser candidato, e depois do Haddad ganhar, e tudo correu como correu”, lamenta Alvim. 

“Uma eleição cheia de fake news, cheia de trapaça de tudo quanto é tipo, e a eleição do Bolsonaro. Aí a gente segue acompanhando todo o processo do presidente Lula em paralelo com o governo Bolsonaro”.

Cineasta Max Alvim vem a Natal para exibir o documentário | Foto: Edilson Omena

Em Curitiba, onde Lula estava preso, a equipe do documentário conseguiu uma entrevista dentro da sede da PF e permaneceu assistindo às pessoas que acampavam em frente ao local. 

“Acompanhamos toda aquela luta popular das pessoas que ficavam ali em frente aguardando o presidente, dando ‘bom dia’, ‘boa tarde’, ‘boa noite’”, lembra o cineasta.

O que deveria ter sido um road movie ganhou, então, outros contornos. 

“A gente acaba voltando a 2016 no golpe e fazendo toda uma reflexão sobre o quê que aconteceu com o país nos últimos seis anos”, sintetiza.

João, Vani, Aurieta e Izaltina: o país na carne

Com o prolongamento das filmagens, os sete personagens viram quatro: as histórias do Brasil sob os governos Temer e Bolsonaro são contadas por João, morador do acampamento Valdir Macedo, do MST, em Jandaíra (BA); Vani, de Bodocó (PE); Aurieta, de Recife (PE), e Izaltina, de Brejão dos Negros (SE). O acompanhamento aos nordestinos se dá de 2017 a 2021.

“Eu voltei ao Nordeste muitas vezes, ou me encontrei com esses personagens em outros locais, de tal sorte que eu ia acompanhando o que eles estavam refletindo, como é que eles estavam vendo o que estava acontecendo com o Brasil, e esse talvez seja um dos pontos mais fortes do filme. O país é visto não pelo olhar de intelectuais, de cientistas políticos, ou mesmo de políticos que poderiam fazer uma análise de uma certa elite. Não. A história do Brasil é pensada no filme através de quatro pessoas comuns, três trabalhadoras e um trabalhador, todos pessoas que poderiam facilmente ser um de nós. Não há necessidade de ser um intelectual”, diz o diretor. 

“Exatamente por serem trabalhadoras e trabalhador eles conseguem fazer uma análise com uma riqueza muito extraordinária, porque eles não pensam o país de forma externalizada. Eles pensam o país na carne deles. Eles são as pessoas que são as mais afetadas quando um governo faz políticas contra os trabalhadores ou deixa de fazer política a favor dos trabalhadores. Então eles têm essa capacidade de leitura com uma riqueza, uma acuidade muito mais precisa do que de um intelectual”, defende.

Nos tempos de Lula

Segundo Alvim, havia um otimismo dos entrevistados em 2017 sobre seu futuro e a possibilidade de retorno de Lula à presidência. 

“O que se dizia era que antes do Lula ninguém olhava para o Nordeste, pelo menos no plano federal. Então todos eles eram unânimes em dizer que o Lula olhou para a realidade de cada um dos desses estados e das cidades com as suas dificuldades e diferenças. Houve uma revolução no Nordeste em termos de qualidade de vida, de emprego, de renda, e isso era reconhecido por todos esses personagens já em 2017”, relata.

“E eles diziam: ‘houve o golpe contra a presidente Dilma, mas agora a gente recupera’. Na época, o debate estava muito focado na reforma da Previdência que o Temer estava realizando. Então os trabalhadores diziam muito ‘esse presidente que tá aí só pensa numa coisa agora, prejudicar o trabalhador e trabalhadora fazendo gente aposentar com 80 anos. Vê lá se a gente vai ter força para viver até os 80 anos e receber aposentadoria’. A gente ouvia muito isso”, conta Max.

De acordo com o diretor, ao longo dos anos, pós prisão de Lula e vitória de Bolsonaro, o otimismo arrefeceu. 

“Eles observavam que agora estávamos diante de um governo que não tinha nenhuma empatia com o trabalhador, quanto mais o do Nordeste. O governo Bolsonaro não tinha nenhuma empatia com essa população, e aí isso foi ficando mais claro e, portanto, essa percepção de que o tempo do Lula era muito melhor foi ficando também mais forte nos últimos anos”, diz. 

O povo pode?

Max encerrou as gravações em 2021, antes de ver Lula eleito em 2022, mas já com o ex-líder dos metalúrgicos solto. A decisão veio tendo como base a nova interpretação do STF (Supremo Tribunal Federal) que proibiu a prisão imediatamente após condenação em 2ª Instância. 

Em 2021, o ministro do STF, Edson Fachin, ainda anulou quatro processos movidos contra Lula na 13ª Vara Federal de Curitiba. Sérgio Moro, juiz que o prendeu, fora nomeado como ministro da Justiça e Segurança Pública de Bolsonaro, o principal beneficiado pela prisão de Lula que, até então, liderava as pesquisas para 2018.

Moro rompeu com o governo em 2020 acusando Bolsonaro de interferência política, e em 2022 se reconciliaram. O ex-juiz foi eleito senador pelo Paraná e assume o cargo em 1º de fevereiro.

Após a perseguição e a soltura, Lula pôde concorrer às eleições de 2022, tendo sido eleito presidente para o terceiro mandato à frente da República.

“O título do filme é uma provocação que deixa essa resposta sempre para quem assiste. A minha leitura, como cineasta e como cidadão, é de que o povo sempre pode. A questão é como ele pode e o que ele pode”, reflete Alvim.

“Veja como a vida é complexa. O povo pode, por exemplo, colocar Hitler, Mussolini ou tantos outros monstros da humanidade no poder. O povo pôde, em 2018, colocar Bolsonaro no poder através de vias democráticas. Então o povo pode muitas coisas, mas a questão é como esse povo reconhece essa potência que tem de forma democrática, de forma cidadã, de forma responsável”, busca elucidar. 

É preciso “evoluir enquanto coletividade” na hora do voto, diz o documentarista, citando casos de compra de voto e das abordagens feitas pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) em ônibus de nordestinos no dia do segundo turno. 

“O país é de um gigantismo enorme e com uma variedade de impressões sobre o que deve ser o futuro do país muito grande. Isso faz com que a gente seja uma nação e uma democracia muito complexa. Por um lado isso é bom, quanto mais diverso, mais rico se é. Mas, por outro lado, também exige que todos nós como cidadãos tenhamos mais compromisso com esse processo político-pedagógico da nação. Nós temos que avançar ainda muito no sentido político para a gente se exercer enquanto população de uma maneira mais madura”, aponta.

Serviço:

Exibição do documentário “O Povo Pode? Um país pelo olhar dos brasileiros”

Data: Quinta-feira (26.01)

Hora: 20h

Local: Cervejaria Resistência, Rua Leonora Armstrong, 35, Ponta Negra

Entrada: Gratuita

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