O que se quer com a Rampa?
Natal, RN 27 de mai 2024

O que se quer com a Rampa?

31 de janeiro de 2023
3min
O que se quer com a Rampa?

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Por João Oliveira*

Na contramão do governo Lula, que está desmilitarizando o governo federal, sugado pelo partido fardado durante quatro trágicos anos de governo fascista, o governo do estado do Rio Grande do Norte alimentou, no último dia 28 de janeiro, um monstro muito perigoso. Alimentar um monstro que, na disputa de narrativa e hegemonia, joga contra a democracia, os direitos sociais e a história existente além da colonização é um erro brutal.

A abertura da exposição "Natal: encruzilhada do mundo" durante a comemoração dos 80 anos da conferência do Potengi foi uma situação um tanto constrangedora. O discurso da governadora em defesa da democracia, durante o evento, em nada se via refletido na exposição. Além do conteúdo da exposição, de ode ao militarismo, à estética militar e a história única da colonização contemporânea da cidade do Natal, o evento foi marcado por emoções e afetos diversos:

Senhores com fantasias militares, montados em jeeps verde chumbo. Uma estética expositiva, no mínimo, de mau gosto. Um equipamento cultural incrível, completamente estruturado, onde o rio Potengi é protagonista. Encontros com companheiros carregando olhares incomodados. Conversas de canto na busca de entender como estamos, ainda, nesse lugar. Um complexo muito mais complexo do que cultural.

Talvez esse seja um movimento calculado. Talvez, muito talvez, uma tentativa de apaziguar ânimos para que a Rampa possa, após a virada de página desse momento, servir ao seu fim: de espaço cultural. O que precisamos construir, contudo, é um consenso: o uso desse equipamento precisa partir de outras narrativas. O perigo da história única é imenso. Ainda mais neste momento de reconstrução do Brasil.

A resolução desses e de outros impasses em torno do Complexo Cultural da Rampa está no caminho da participação popular, da capacidade libertária da arte, das muitas narrativas históricas existentes nesse território. O Rio Potengi, embalado pelos barcos ancorados na frente do pier da Rampa talvez seja um fluxo possível. Olhar para o rio, o mangue e o mar e para nossa história antes das tantas colonizações pode ser esse lugar.

A arte pode refletir sobre isso. As interpretações de artistas potiguares sobre os efeitos da segunda guerra em nossa cultura, a ocupação desse território pelos povos indígenas antes mesmo da construção de uma rampa de concreto, o uso desse espaço pelos pescadores da comunidade de Santos Reis depois que o prédio foi deixado de lado, o rio que divide uma cidade partida em duas... São muitas e múltiplas as narrativas possíveis. Só nos resta a esperança de que os usos e caminhos pra esse espaço possam ser debatidos, para que tenhamos ali um Complexo Cultural e não uma leitura complexa, equivocada e conservadora da nossa história e cultura.

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João Oliveira é fotógrafo, artista visual, produtor cultural, coordenador do Margem.Hub e autor do livro "Onde se esqueceu de lembrar". Participa do Fórum Potiguar de Cultura e do Coletivo de Arte e Cultura Contemporânea (CACCO). É, também, bacharel em Direito (UFRN) e mestrando em Antropologia Social (PPGAS/UFRN).

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