OPINIÃO

Vi lágrimas, sorrisos e arrepios na posse de Lula

A sensação, ainda mais forte do que o peso do sol escaldante nas nossas costas, era a de que estávamos participando do início de um novo capítulo da história do Brasil. Enquanto a toalha de Lula me protegia as costas das queimaduras de sol, eu comemorava o fato de ser uma gota naquele imenso mar vermelho, que começava na praça dos três poderes e se espraiava em ondas de entusiasmo pela Esplanada dos Ministérios.

Lula começa seu discurso, ao meu redor o povo silencia de imediato para sorver suas palavras. A multidão, liderada pelo instinto, decide sentar, com isso a toalha passou a ser usada para forrar o gramado. O papel de proteger as orelhas e o pescoço daquele sol que parecia ter me escolhido para dirigir toda sua quentura, agora cabe a uma bandana com os dizeres: “O Partido do Presidente é o Partido do Povo”.

No Congresso, Lula enfileirava compromissos com os quais sonhamos durante quatro anos e arrematava: “Que brotem todas as flores e sejam colhidos todos os frutos da nossa criatividade, que todos possam dela usufruir, sem censura nem discriminações.” As pessoas na fila para comprar comida, ao meu lado, se obrigam a ficar em pé. Nela, uma mulher me chama atenção. Os pelos de suas pernas a altura do meu rosto estão eriçados, corri o olhar indiscreto por sua pele até seus braços e notei que cada poro denunciava sua emoção silenciosa. Depois saberia que aquele não era o único flagrante de arrepios que eu veria.

No Parlatório, o Presidente me transporta aos dois momentos em que estive na vigília Lula Livre e pude gritar 13 vezes em plenos pulmões: “Bom dia, presidente Lula”. Em agradecimento ao gesto, ele responde já na qualidade de presidente do Brasil: “Boa tarde, povo brasileiro!”

Parecendo ler o que está escrito em nossas almas ele diz: “Chega de ódio, fake news, armas e bombas. Nosso povo quer paz para trabalhar, estudar, cuidar da família e ser feliz.” Nessa hora, parei para
para fotografar o meu redor e vi as pessoas concordando em olhares e comentando entre sorrisos, para que suas vozes não atrapalhassem o que seus corações ouviam. Volto o olhar para o telão enquanto ouço Lula completar: “Hoje, a alegria toma posse do Brasil, de braços dados com a esperança.”

Mais para a frente, o presidente detalha o resultado do rastro de fome deixado pelo governo Bolsonaro. E ao falar das trabalhadoras e trabalhadores desempregados exibindo, nos semáforos, cartazes de papelão com a frase que nos envergonha a todos: “Por favor, me ajuda”, sua voz embarga, seus olhos se enchem das lágrimas, originadas nas fomes sentidas lá atrás. Sinto que o laço de solidariedade às vítimas da fome que, nos une, dá mais um aperto. Olho ao meu redor com a vista também embaçada por lágrimas iguais, só para constatar a união de olhos marejados. Lembrei do meme: “Não é para comer picanha é pelo direito ao alimento dos irmãos que hoje não têm nada para comer”.

Ao final do discurso, após a explosão de aplausos, vi mais sorrisos e também dança e também música em desabafo: “Tá na hora de Jair, já ir embora.” Alguém por trás de mim grita: “Vamos cantar outra, ele já fugiu”. E acrescenta mais risos às risadas de felicidade.

Após o evento, na caminhada de volta ao ônibus, ladeado por meu filho Gabriel Lima, minha esposa Rosana Pimentel e seu irmão Willen Sergius, fui lembrando da última parte da fala do presidente, ao pedir união em torno da luta contra a desigualdade: “Que a alegria de hoje seja a matéria-prima da luta de amanhã e de todos os dias que virão. Que a esperança de hoje fermente o pão que há de ser repartido entre todos.”

Na minha mente duas coisas tamborilavam, a primeira era: quero dar minha contribuição ativa nessa reconstrução. E a segunda: que diferença abissal entre o que temos agora e o que acabamos de nos livrar!

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