RN tem mais vagas e cursos de Medicina no interior, mas 70% dos médicos trabalham na capital
Natal, RN 22 de mai 2024

RN tem mais vagas e cursos de Medicina no interior, mas 70% dos médicos trabalham na capital

9 de fevereiro de 2023
6min
RN tem mais vagas e cursos de Medicina no interior, mas 70% dos médicos trabalham na capital

Ajude o Portal Saiba Mais a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

Uma discrepância comprovada em números: enquanto o Rio Grande do Norte possui mais vagas e cursos de Medicina no interior do que em Natal, é a capital quem predomina no número de profissionais da área, concentrando 70% dos formados com registro no Estado. Os dados são do estudo Demografia Médica Brasileira, feito entre a Universidade de São Paulo (USP) e a Associação Médica Brasileira (AMB).

No Estado, há seis cursos de medicina ao todo: quatro em universidades públicas e dois em privadas, com 585 vagas no total. Em Natal, há dois cursos com 292 vagas (49,9%), enquanto no interior são quatro cursos com 293 vagas (50,1%). Na região metropolitana não há nenhum curso.

Interior desassistido 

Entretanto, ainda que tenha menos vagas e cursos, é a capital quem domina no número de profissionais. O Rio Grande do Norte possui 7.463 médicos cadastrados no Conselho Regional de Medicina (Cremern), e 5.238 deles atuam na capital. O valor corresponde a 70,1% do total. A razão é de 5,84 médicos para cada mil habitantes, enquanto os municípios do interior registram 1.630 profissionais, e não chega nem a um médico para cada mil habitantes (0,85). A situação pior, porém, é na região metropolitana, com 0,79 médicos mil por mil habitantes.

O RN faz parte do grupo de onze estados que concentram maior número de vagas no interior. Os outros são Santa Catarina (83,9%), Tocantins (73,2%), Paraná (66,2%), Minas Gerais (66,0%), Rio Grande do Sul (65,9%), Maranhão (62,3%), São Paulo (60,2%), Goiás (52,4%), Bahia (52,2%) e Ceará (50,8%).

Na média geral, para a população de 3.560.903 pessoas que vivem no RN, são 2,10 médicos por mil habitantes. Entre os nove estados do Nordeste, o estado está em quarto lugar, atrás da Paraíba (2,81), Pernambuco (2,23) e Sergipe (2,15), e à frente de Ceará (1,89), Alagoas (1,84), Bahia (1,83), Piauí (1,81) e Maranhão (1,22).

Médicos e razão de médicos por 1.000 habitantes por unidades da Federação e segundo agrupamentos de capitais, regiões metropolitanas e interiores, em 2022

Há concentração, dizem professores

Para os pesquisadores responsáveis pelo estudo, a saída dos formados do interior para as capitais representa um desafio.

“A migração interna de médicos recém-formados, que saem do interior onde se formam para se estabelecerem em grandes centros, é um dos principais desafios para garantir que a descentralização da graduação médica seja acompanhada da interiorização dos egressos, caracterizando a aproximação de médicos a localidades historicamente desprovidas ou com menor concentração desses profissionais”, afirmam.

“O que não se sabe ainda é se os médicos formados, mesmo permanecendo em maior número no heterogêneo agrupamento ‘interior’, estarão propensos a escolher e se fixar em pequenos municípios desprovidos de profissionais, bem como participar de programas governamentais voltados a levar médicos para localidades desassistidas”, apontam nas considerações.

Cotas tornaram cursos mais diversos

Em uma década, houve também um crescimento de 140% no número de estudantes desta área. Ao longo da década, a maioria ainda foi de alunos brancos (69,7% em 2019), mas se constatou um crescimento da população negra: de 1.483 alunos em 2010 para 9.326 em 2019. Os pesquisadores ressaltaram ainda a expansão de estudantes vindos da escola pública.

O motivo, dizem, está não só relacionado à própria expansão do número de escolas e vagas de graduação, que fez com que aumentasse a diversidade dos matriculados, mas principalmente pela política de cotas, que completou dez anos em 2022. 

“A medicina está, a partir da graduação, mais diversa e socialmente inclusiva, movimento impulsionado principalmente por três fatores: o aumento de vagas, as políticas de cotas nas escolas públicas e o financiamento estudantil nas escolas privadas”, afirma o estudo.

Boom de vagas no Nordeste

O levantamento leva em conta os dados de 2022. Na série histórica a partir de 2002, é possível perceber uma explosão no número de vagas nos cursos de Medicina em todo o país, com destaque para o Nordeste, que expandiu as vagas em 335,3%, o maior percentual entre todas as regiões. No RN, o aumento foi de 208,3%.

Todas as regiões apresentaram aumento da densidade de vagas. Depois do Nordeste, aparecem o Centro-Oeste (224%), Norte (165,2%), Sudeste (138,8%) e Sul (109,5%).

Mais Médicos ajudou a diminuir “vazios assistenciais”, dizem gestores e cubanos

Desde que o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou a intenção de retomar com o modelo do Mais Médicos, estrangeiros e profissionais de gestão de saúde no Brasil vêem com bons olhos a volta do programa que diminuiu os “vazios assistenciais”. Essas áreas, normalmente em cidades pequenas e do interior do país, viviam uma falta crônica de médicos, carência diminuída a partir da implantação do programa em 2013, que levou estrangeiros para áreas com necessidade de médicos. Com o governo Bolsonaro, o Mais Médicos foi desmontado e o número de profissionais caiu. 

Segundo dados da Secretaria de Saúde Pública do Rio Grande do Norte (Sesap-RN), o Mais Médicos tinha 114 municípios atendidos no Estado em dezembro de 2014, com todas as 310 vagas ocupadas. Destes, 43 estavam dentro do Programa de Valorização do Profissional de Atenção Básica (PROVAB), uma espécie de “plano piloto” com brasileiros que posteriormente migraram para o Mais Médicos, 24 eram estrangeiros de países como Ucrânia, Argentina, Venezuela, Espanha e Uruguai, além de brasileiros com diploma no exterior, e 161 eram cubanos que tinham uma cooperação própria por meio da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas).

Em dezembro de 2022, já com as mudanças efetuadas pelo governo Bolsonaro e com o Médicos pelo Brasil em funcionamento, o cenário era outro. Os municípios atendidos caíram para 94, e do total de 313 vagas, apenas 232 estavam ocupadas. O número de brasileiros aumentou (219) e intercambistas eram somente 24, originários de Cuba, Paraguai e Peru.

Saiba mais

Mais Médicos: de “espiões de Castro” a gratidão, cubanos no RN torcem por volta do programa com Lula: “sentia a dor das pessoas”

As mais quentes do dia

Apoiar Saiba Mais

Pra quem deseja ajudar a fortalecer o debate público

QR Code

Ajude-nos a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

Este site utiliza cookies e solicita seus dados pessoais para melhorar sua experiência de navegação.