A poesia está em tudo, inclusive na prosa
Natal, RN 5 de mar 2024

A poesia está em tudo, inclusive na prosa

1 de março de 2023
5min
A poesia está em tudo, inclusive na prosa

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O poeta Manuel Bandeira sabiamente já dizia: “não quero mais saber do lirismo que não é libertação”. Eu também ando nessa pegada cada vez mais e, sendo assim, acredito que, definitivamente, a poesia não se prende ao verso.

A distinção entre prosa e verso é antiquíssima. Na cultura ocidental, muito antes dela ser sistematizada por Aristóteles na sua Arte Poética (considerado o primeiro tratado de teoria literária), o advento da escrita alfabética tornou possível a materialização dos textos, fato que já não exigiria a necessidade de memorizá-los, o que era feito até então pelos antigos “aedos” (aquelas figuras que perpetuavam em suas odes – cantos – a tradição literária de um povo). Recursos como métrica, harmonia, rima e outros ajudavam, até então, a manter vivos na memória esses textos (imagine ter que decorar 15 mil versos da Ilíada...), o que foi se tornando cada vez mais flexível a partir da possibilidade de “guardar” esses textos não mais só na memória, mas também em papiros e pergaminhos. Assim surge a prosa.

Mas se retomarmos Aristóteles e compreendermos a Poíesis como a “arte da imitação” das ações humanas, a poesia pode se manifestar em qualquer expressão de linguagem que se pretenda uma (re)invenção do real. Sim, produzimos e consumimos poesia para (re)inventar realidades. Nesse sentido, como bem assinalou Tzvetan Todorov em sua análise do “romance poético” do autor alemão Novalis (1772-1801), “o verso não faz a poesia”.

Gostaria de mostrar um pouco como isso se manifesta a partir de um exemplo em particular. Trata-se do mais recente livro de Carmen Vasconcelos, “Flor de Querosene: contos” (Natal, Trairy, 2022). Se eu já era fã da pessoa e da escrita de Carmen, agora sou mais ainda pela sua habilidade em, ao fabular pequenas histórias, fazer uso com maestria de paralelismos, alegorismos, reflexões e encadeamentos, recursos próprios da linguagem poética.

O paralelismo, por exemplo, pode ser encontrado na semelhança que algumas partes vão mantendo entre si e o todo, a partir já do (ótimo) título do livro: “papiros”, “manuscrito encontrado à cabeceira do morto” e “como flor dentro do livro” têm entre si um fio sutil que conduz os contos a um mesmo elo e que cabe à sensibilidade poética de quem lê interpretar.

Mas o que mais se destaca, a meu ver, na prosa poética de Carmen é seu alegorismo, ou seja, o uso de alegorias que mostrem que os sentidos não se reduzem ao nível literal, explorando palavras que demandam outras significações. Apresento só um pequeno trecho para ilustrar esse alegorismo (e que se faz por meio da sinestesia, isto é, a mistura de níveis sensoriais):

“Ainda há um fiapo de lua no céu. Depois de uma noite de pacata insônia, os olhos roucos de tanto engolir estrelas rascantes, o corpo mareado de torpor. A luz é leve, mas eu abro as janelas. Entre mim e a alegria, eu não quero nem cortinas de filó”.

Ao privilegiar a reflexão interior às ações no mundo típicas do “herói” das narrativas em prosa padrão, Carmen extrapola os limites entre prosa e poesia. Porque, assim como pensar ou sonhar, nem tudo precisa ser dito literalmente, tal como nos ensina o conto que dá nome ao livro: “de tudo, menos daquele amor, ela falava”. E é nessa dimensão do intuir e do pressentir que o narrar de Carmen Vasconcelos se faz poético.

Pretendo seguir nessa reflexão sobre os liames entre a prosa e a poesia a propósito das celebrações do Dia da Poesia, com Maíra Dal’Maz e Andreia Braz, autoras cuja escrita me parece romper também essas fronteiras convencionais. Sim, retomando o poeta Bandeira mais uma vez, dos amores aos chinelos, a poesia está em tudo, por que não estaria também na prosa? Assim, em uma conversa mediada pelo Prof. Mauro Dunder e com direito a sarau puxado pela poeta Vitória Quaresma, estaremos no dia 14 de Março, às 10h, no Auditório B do CCHLA da UFRN, trocando dois dedos de prosa sobre poesia e tudo o mais.

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