Ler ou não ler, eis a questão
Natal, RN 25 de mai 2024

Ler ou não ler, eis a questão

26 de março de 2023
5min
Ler ou não ler, eis a questão

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Esses dias assisti, assustada, ao vídeo do professor de Santa Catarina que, em sala de aula, admite admirar Adolf Hitler. Toda e qualquer forma de apologia ao nazismo é crime e, como tal, cabível de processo de investigação e julgamento, nem tem que se discutir mais isso. E é de se admirar, com horror, que ainda haja gente que veja qualquer mínimo traço elogiável no legado terrível que aquela figura nefasta deixou.

Mas o horror continua. Segundo a historiadora e professora Lilia Schwarcz em seu perfil do Instagram, “grupos neonazistas cresceram 158% em Santa Catarina no último um ano e meio. Em três anos, em todo o Brasil o aumento foi de 270%. A estimativa é que existam no país 530 células extremistas com cerca de 10 mil participantes”.

Voltando ao vídeo, um detalhe me chamou a atenção: o professor, em meio à sua lamentável confissão, afirma estar “lendo Hitler”. E o grande tema me vem imediatamente à mente: livros.

Dificilmente alguém desconhece a história de perseguição que o nazismo promoveu a tudo aquilo que não fosse considerado edificante segundo sua ótica patriótica racista e moralista (o que é típico em regimes totalitários, em geral).

A triste data de 10 de maio de 1933 (quase exatos noventa anos atrás) ficou marcada como (mais um) emblema de censura aos livros, já que naquele dia, em Berlim, Munique e outras cidades alemãs, milhares de exemplares foram incinerados, em outro episódio vergonhoso de intolerância e ódio. Dali em diante a vergonha só cresceria.

O que talvez muitos não saibam é que o próprio Adolf Hitler era leitor contumaz e possuía uma significativa biblioteca. E ele mesmo se pretendeu escritor. Em 1924, quando esteve preso na Baviera, escreveu a obra “Mein Kampf” (“Minha Luta”), uma autobiografia recheada de veneno nacionalista e antissemita. Como assinala Jorge Carrión e sua magnífica obra “Livrarias: uma história da leitura e de leitores” (traduzido no Brasil por Silvia Massimini Felix pela editora Bazar do Tempo), o livro de Hitler foi o segundo livro mais vendido na década de 1930, só perdendo o topo para a Bíblia, gerando uma fortuna em direitos autorais. E sobre o livro de Hitler, ainda nos informa Irene Vellejo em seu ensaio “O infinito em um junco”: “Desde que entrou em domínio público, em 2015, foram vendidos mais de 100 mil exemplares na Alemanha”.

Não sei se era esse o livro que supostamente estava sendo lido pelo professorzinho catarinense, sei que a partir daí uma questão possível se apresenta: que livros “devem” ou não ser lidos?

Ocorrem-me a partir daí muitos episódios que, de alguma forma, implicam uma censura aos livros e seus autores, em diferentes ordens de discussão, de Salman Rushdie com sua cabeça posta a prêmio pela publicação de “Versos Satânicos” até Monteiro Lobato e suas expressões racistas em “Caçadas de Pedrinho”. São dois exemplos bem diversos e extremos, claro: de um se exige autoritariamente a morte, de outro se reivindica legitimamente a reescrita. Mas ambos refletem como na História são recorrentes os casos em que livros (e seus desdobramentos, como editores, livrarias e leitores) foram postos em xeque na sua possibilidade (e direito) de existir.

Evidentemente, um critério me parece muito certeiro para responder essa questão: nada de usar como desculpa o argumento “liberdade de expressão” para dar vazão a ofensas que, de qualquer forma, atentem contra a dignidade e integridade humanas. Por outro lado, pergunto-me também: será que proibir a circulação de obras não parece acenar, ainda que lá longe, para uma atitude que subestima a inteligência e capacidade intelectiva de nós, leitores? Como se precisássemos de uma Voz maior que nos dissesse o que devemos ler ou não, abrindo um possível e perigoso precedente para o autoritarismo.

Permanece, assim, a grande questão: o que devemos ler ou não ler? Os clássicos de Homero estão permeados de exaltações à guerra e de exemplos de misoginia e machismo, devemos deixar de ler a Odisseia e a Ilíada então? Seremos simpatizantes da prática abjeta de pedofilia se lermos Nabokov? Vamos sair correndo atrás de mescalina se lermos Kerouac? Segundo o senador McCarthy e sua política de “caça às bruxas” nos EUA dos anos de 1950, se lermos quadrinhos teremos nossos cérebros atrofiados. Danou-se...

A leitura é fundamentalmente um gesto político porque saber e poder ler é poder se armar e se posicionar em amplas e muitas formas de relações de poder. Não à toa regimes autoritários perseguiram e perseguem os livros, portais de possibilidade para o espírito crítico e contestador. O que não falta são exemplos: das queimas de livros promovidas pela Revolução Cultural na China de Mao-Tsé (ele mesmo, aliás, que ironicamente foi antes bibliotecário e livreiro) aos fascistinhas bolsonaristas que ofendem e atacam (sem nunca ter lido, claro) Paulo Freire.

Estejamos alertas para que, no aspecto sombrio que revela o que há de pior do ser humano, a História não se repita. Tal como um livro que, por opção e sabedoria, a gente prefere não ler.

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