Marco Zero: “Defesa de causas que são de interesse público”. Entrevista com Carolina Monteiro
Natal, RN 23 de abr 2024

Marco Zero: “Defesa de causas que são de interesse público”. Entrevista com Carolina Monteiro

26 de março de 2023
8min
Marco Zero: “Defesa de causas que são de interesse público”. Entrevista com Carolina Monteiro

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Em tempo de ataques a sistemas democráticos e diante do crescimento de uma indústria de desinformação, qual o papel do jornalismo? A pergunta não é tão simples de ser respondida, mas em entrevista à Agência Saiba Mais, a jornalista Carolina Monteiro, professora e diretora da Escola de Comunicação da Universidade Católica de Pernambuco, aponta como contraponto a esse poder, “a necessidade ou a urgência de um fortalecimento da educação midiática”.

Como cofundadora da Marco Zero Conteúdo, organização jornalística sem fins lucrativos, Carol defende o exercício da prática jornalística que se submeta aos métodos e técnicas do jornalismo, mas que faça a defesa de causas que são de interesse público.

A gente busca fazer um jornalismo ético, de qualidade, um jornalismo posicionado ideologicamente, que defende causas, um jornalismo que não se propõe ou não se coloca como imparcial diante de injustiças, violações de direitos humanos, ameaças à democracia ou à liberdade de expressão”.

Carolina Monteiro é jornalista com especialização em Design da Informação, master em Jornalismo Digital pelo Instituto Internacional de Ciências Sociais (IICS)/Universidade de Navarra e mestrado e doutorado em Design pela UFPE. É professora e diretora da Escola de Comunicação da Universidade Católica de Pernambuco e uma das cofundadoras da Marco Zero Conteúdo, no Recife.

Confira a entrevista.

Saiba Mais - Você é uma das cofundadoras da Marco Zero Conteúdo, no Recife. A iniciativa surgiu propondo um modelo de negócios sem fins lucrativos para financiar as grandes reportagens. Como manter a empresa funcionando seguindo este modelo?

Carolina Monteiro - Eu acho importante evidenciar que a única diferença entre uma empresa com fins lucrativos e uma organização sem fins lucrativos é que se houver lucro a empresa pode repartir esse lucro entre os seus proprietários, acionistas etc. E no caso de uma organização sem fins lucrativos se houver lucro, que nesse caso é chamado de superávit, ele tem que obrigatoriamente ser reinvestido no próprio negócio. Então se é a única diferença. Isso não significa que a gente não busque saúde financeira, isso não significa que a gente não busque esse superávit. Que a gente não busque ter receitas maiores do que as despesas. Só significa que a gente é obrigado a investir tudo que a gente recebe como superávit na própria organização. E aí a gente reinveste na produção de reportagens, reportagens às vezes que têm custos, que envolvem deslocamentos, viagens etc. A gente reinveste em compra de equipamentos, a gente reinveste em contratação de outras pessoas. Então assim, a gente busca uma saúde financeira melhor possível, na verdade, mas a gente tem esse compromisso, jurídico inclusive, de reinvestir todo o lucro que a gente recebe. Então assim, é um desafio, lógico, não é fácil nem para uma empresa jornalística com fins lucrativos nem para uma empresa sem fins lucrativos, mas a gente busca essa sustentabilidade e tem conseguido nos últimos anos, a partir de um modelo que inclui várias fontes de receita. Acho que essa é uma outra característica importante também que você busca diversificar as suas fontes de receita para que você não dependa muito de uma fonte só. Então a gente tem recursos que vem de fundações internacionais, a gente tem assinaturas ou doações dos próprios leitores, a gente participa também de editais e de programas e projetos para financiamento de propostas assim específicas. Então são várias fontes de receita que garantem um superávit na nossa operação sendo que esse superávit ou lucro é totalmente reinvestido na própria Marco Zero.

Saiba Mais - Em termos jornalísticos e relações de poder com o Estado, o que distingue a Marco Zero de outros veículos?

Carolina Monteiro - A Marco Zero busca se diferenciar dos demais veículos a partir acho que da qualidade do seu conteúdo, a gente busca fazer um jornalismo de qualidade, aprofundado analítico e investigativo e, acima de tudo, independente. Como a gente não aceita anúncios nem de empresas públicas, nem de empresas privadas, a gente tem independência nesse sentido de não precisar, por exemplo, de anúncios de governos, de prefeituras ou de concessionárias ou construtoras como é muito comum entre os anunciantes dos veículos tradicionais. Então, esse acho que é um diferencial, nosso modelo de negócios nos garante independência editorial e, na prática, no dia a dia das nossas operações, a gente busca fazer um jornalismo ético, de qualidade, um jornalismo posicionado ideologicamente, que defende causas, um jornalismo que não se propõe ou não se coloca como imparcial diante de injustiças, violações de direitos humanos, ameaças à democracia ou à liberdade de expressão. Nesse sentido, o jornalismo praticado pela Marco Zero tem causas, defende suas causas, mas também se submete totalmente ao rigor e às metodologias, aos métodos e técnicas do jornalismo. Então a gente faz reportagem jornalística com apuração, com checagem, com verificação, com muita ética e muita responsabilidade, mas se posiciona também na defesa de causas que são importantes e que são de interesse público. Acho que o fiel da balança é o interesse público. A gente não representa interesses de governos ou do poder político, do poder econômico, a gente tenta buscar fazer essa representação do interesse público. Então é dessa forma que a gente busca se diferenciar.

Saiba Mais - Você encara esta experiência de jornalismo independente como imprensa alternativa? Se sim, alternativa a quê?

Carolina Monteiro - Eu particularmente não gosto dessa nomenclatura alternativa. Primeiro por essa pergunta que já está contida aqui na sua: alternativa a quê? Eu não gosto dessa ideia, parece que existe uma via principal e nós somos a via alternativa. E depois um pouco pelo senso comum. Quando a gente fala que alguma coisa é alternativa, o senso comum às vezes atribui uma conotação negativa, embora não haja. Prioritariamente não há uma conotação negativa em ser alternativo, mas o senso comum atribui. Então, acho que me incomoda um pouco essa nomenclatura. Eu gosto de jornalismo independente. Acho que dá conta do que a Marco Zero se propõe a fazer. Outras pessoas questionam esse termo independente: independente de quem? Outras pessoas preferem chamar de jornalismo nativo digital. Essa é outra forma também um pouco mais isenta de classificar, porque nesse nativo digital entram vários formatos, vários modelos, enfim. Essa questão da nomenclatura é uma questão que não está ainda muito pacificada nem entre os teóricos, nem entre as comunidades assim de prática desse tipo de jornalismo. Eu não gosto de alternativa, mas talvez seja só uma questão pessoal.

Saiba Mais - Que modalidades de poder e contrapoder passam a funcionar e se articular a partir do uso da internet e das redes sociais?

Carolina Monteiro - Eu penso que existe uma indústria muito forte, poderosa, alimentada, articulada e organizada por grupos políticos econômicos para promover desinformação, para distribuir notícias falsas e para colocar em xeque valores que são muito caros, como a própria democracia, que esteve ameaçada no Brasil nos últimos anos, que culminou numa tentativa de golpe no último dia 8 de janeiro. Então, eu acho que existe essa articulação, a partir do uso da internet, das redes sociais, de grupos com interesses políticos e econômicos que fomentam, alimentam essa indústria perigosíssima e vejo como contraponto a esse poder, a necessidade ou a urgência de um fortalecimento da educação midiática. Isso passa pela educação, educação formal, pelas escolas e universidades, isso passa pela comunicação, isso passa pela justiça nas punições e no que propõe, por exemplo, as pessoas que distribuem discurso de ódio, ou desinformação, ou notícia falsa nas redes. Isso passa, também, pelos poderes legislativo, executivo, a gente está discutindo o PL das fake News, então acho que é preciso uma aliança realmente muito forte de vários atores para se contrapor realmente à essa poderosa indústria da desinformação que atua não só no Brasil, mas em várias partes do mundo. Então acho que isso é um problema global e que vai exigir uma solução assim também em nível global.

Saiba Mais - Como é ser mulher e fazer jornalismo independente no Brasil?

Carolina Monteiro - Bom, é difícil ser mulher no Brasil, ponto. A gente vive numa sociedade machista, uma sociedade patriarcal, misógina sobre vários aspectos. E todos os papéis que a que as mulheres tentem desempenhar vêm com um grau extra de dificuldade. As mulheres ainda recebem menos do que os homens, inclusive no jornalismo, as mulheres estão mais expostas à violência, são mais vítimas de assédio e de ódio, por exemplo, nas redes sociais. Então, a condição de ser mulher coloca a gente numa posição de vulnerabilidade em todos os ambientes, em todos os espaços. E não é diferente no caso do jornalismo.

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