“O Pastor e o Guerrilheiro” estreia em Natal e lota sessão do cinema neste sábado (15)
Natal, RN 20 de jun 2024

"O Pastor e o Guerrilheiro" estreia em Natal e lota sessão do cinema neste sábado (15)

16 de abril de 2023
7min

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Após ter as primeiras sessões canceladas, o filme "O Pastor e o Guerrilheiro", dirigido por José Eduardo Belmonte, estreou em Natal e lotou a última sessão do Moviecom do Praia Shopping neste sábado (15). Todas as cadeiras foram ocupadas. O público aplaudiu a exibição do filme e elogiou a homenagem feita ao potiguar Glênio Sá.

Uma noite particularmente muito emocionante para mim. Enquanto assistia ao longa “O Pastor e o Guerrilheiro”, um outro filme rodava em minha mente. A lembrança viva de quando conheci Glênio, do início do nosso namoro, dele me contando a sua trajetória de resistência e combate à ditadura, da sua experiência de luta armada na Guerrilha do Araguaia, das nossas reuniões, da nossa luta pela Anistia, pelas Diretas, a nossa alegria com o nascimento dos nossos filhos, o compartilhamento das tarefas de casa, do cuidado com Gilson e Jana, dos nossos sonhos, do planejamento do nosso futuro. Glênio está vivo, muito vivo, em nossas vidas e nas nossas lutas”, afirmou emocionada Fátima Sá, companheira do comunista potiguar.

Família de Glênio Sá. Da esquerda para direita: a companheira Fátima Sá, os filhos Jana Sá e Gilson Sá, e a neta mais velha, Ana Beatriz Sá

O longa é baseado em uma história real, narrada no livro “Araguaia: relatos de um guerrilheiro”, de Glênio Sá (Editora Anita Garibaldi, 2004), e traz nas falas dos personagens trechos na íntegra do livro. A trama envolve três protagonistas e se passa nas décadas de 1960, 1970 e, paralelamente, nos últimos dias de 1999, na virada do milênio.

Filme emocionante, impactante e necessário. Inspirado no relato real do livro do meu tio, Glênio Sá, sobre a Guerrilha do Araguaia”, avaliou Cynara Sá, sobrinha de Glênio.

O Pastor e o Guerrilheiro” traz temas difíceis, fazendo uma relação entre o passado e o presente, numa contribuição do cinema brasileiro para superação da política brasileira centrada no silêncio. Ao apresentar o episódio pouco conhecido pela sociedade brasileira, que foi a Guerrilha do Araguaia, bem como os horrores da ditadura, o filme trata também do futuro.

A partir de um encontro marcado nas celas do Pelotão de Investigações Criminais (PIC) do Exército, em Brasília, entre o comunista, interpretado por Johnny Massaro, e o evangélico, personagem do César Mello, para a virada do milênio, o filme faz também o debate sobre a religião e lembra que dentre os mortos e torturados da Ditadura Militar, existem pastores e lideranças cristãs.

Produzido por Nilson Rodrigues e com roteiro de Josefina Trotta, o filme foi rodado no Estado do Tocantins, às margens do Rio Araguaia, e em Brasília, e conta com a produção executiva de Caetano Curi, direção de fotografia de Bárbara Alvarez, direção de arte de Ana Paula Cardoso, direção de produção de Larissa Rolin, música de Sascha Kratzer e figurino de Diana Brandão.

Com distribuição da A2 Filmes, o filme chegou exclusivamente nos cinemas no último dia 13 de abril, em todo o Brasil. Em Natal, no entanto, as primeiras sessões foram canceladas.

A família do militante potiguar Glênio Sá, cujo livro “Araguaia: relato de um Guerrilheiro” inspira a produção, denunciou na imprensa e nas redes sociais boicote da empresa por uma decisão política. Junto com o Comitê Estadual do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), notificou extrajudicialmente o cinema para que, no prazo de até 48h, esclarecesse os motivos que o levaram a não exibir a história.

O departamento operacional da Rede Moviecom lamentou o mal-entendido e informou problema técnico com o primeiro HD recebido pela distribuidora A2 Filmes.

O longa “O Pastor e o Guerrilheiro”, voltou a ser exibido no Moviecom do Praia Shopping, em Natal, desde a última sexta-feira (14), e está em cartaz com sessões às 18h15 e 19h15.

Exibição restrita em todo país

As produções estadunidenses de super-heróis ocupam maioria das salas em grandes cidades. A denúncia foi feita pelo produtor do filme “O Pastor e o Guerrilheiro” em entrevista ao programa “Balbúrdia”, no canal da Agência Saiba Mais no Youtube.

Para termos uma noção, 90% das salas estão ocupadas com quatro blockbuster’s estadunidenses: John Wick, o Exorcismo do Papa, Dungeons & Dragons e Super Mario Bros. Nosso filme estava programado para entrar numa quantidade de salas bem maior, mas como esses filmes que foram lançados nas duas semanas anteriores tiveram uma performance boa com o público, os cinemas ampliaram as salas desses filmes”, lamentou Rodrigues.

Ele explicou que o problema foi agravado com o fim da cota de telas para o cinema nacional durante o governo Bolsonaro (PL).

Isso permite que os produtos estrangeiros explorem nosso mercado em detrimento dos filmes nacionais, os filmes brasileiros. Mas isso está sendo corrigido, que volte a cota de tela, que um percentual de cinemas seja obrigado a exibir conteúdo nacional. Isso se faz em qualquer lugar do mundo capitalista”, criticou o produtor do filme.

Sobre Glênio Sá

Glênio Fernandes de Sá nasceu no município de Caraúbas, Rio Grande do Norte, em 30 de abril de 1950. Dois anos depois do golpe militar de 1º de abril de 1964, aos 16 anos, começou seu engajamento na ação política oposicionista, quando ainda fazia o curso ginasial no Colégio Estadual de Mossoró, no Rio Grande do Norte.

Em 1968, já em Fortaleza, engaja-se rapidamente no movimento estudantil cearense, do qual passa a participar ativamente, quando ingressa nas fileiras do PCdoB. Por suas atuações no movimento estudantil e pelas suas posições políticas foi preso duas vezes em 1969.

Glênio Sá, como estudante secundarista, antes de ir para a Guerrilha do Araguaia

No auge da Ditadura Militar, deslocou-se para o sul do Pará, onde ajudou na organização e conscientização dos camponeses da região na luta contra grileiros e latifundiários, num movimento que ficou conhecido como Guerrilha do Araguaia. Por sua participação na Guerrilha, foi preso em 1972 e libertado apenas em setembro de 1974. Neste período, foi barbaramente torturado e transferido, por diversas vezes, de prisão. Mas Glênio nunca foi julgado por tal participação.

Ao alcançar a liberdade, já tinha a convicção da tarefa de reconstruir o Partido Comunista do Brasil no seu Estado, com uma atuação muito intensa na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, onde cursava Geologia. Glênio se casou com Fátima Sá, com quem teve dois filhos, Gilson Sá e Jana Sá.

Foi candidato a vereador em 1982, a deputado estadual, em 1986, e em 1990, ao Senado pela Frente Popular do Rio Grande do Norte, quando faleceu, vítima de um suposto acidente automobilístico. A família contesta a versão oficial e lançou um documentário com elementos que levantam as dúvidas: “Não foi acidente, mataram meu pai”. Documentos oficiais de órgãos militares e da Abin atestam que Glênio foi perseguido pelos militares quase 10 anos depois da promulgação da Lei de Anistia. No livro “Memórias de Uma Guerra Suja”, o ex-delegado do DOPS Claudio Guerra afirma que os militares forjaram um acidente automobilístico no interior do Nordeste, no início dos anos 1990, no qual morreu um político que lutou contra o antigo regime.

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