Indígena potiguar ganha prêmio nacional de melhor tese da área de Comunicação
Natal, RN 20 de jul 2024

Indígena potiguar ganha prêmio nacional de melhor tese da área de Comunicação

27 de maio de 2023
Indígena potiguar ganha prêmio nacional de melhor tese da área de Comunicação

Ajude o Portal Saiba Mais a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

De Natal-RN, "morena" na certidão de nascimento e, por algum tempo, autodeclarada parda, a pesquisadora doutora Andrielle Cristina Moura Mendes Guilherme, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), só começou a investigar suas verdadeiras origens em 2020, quando já estudava povos originários. E foi com esse tema que se tornou a primeira indígena a vencer o Prêmio Compós de Teses e Dissertações Eduardo Peñuela (2023) na categoria “tese”.

A premiação concedida anualmente pela Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação (Compós) reconhece pesquisas acadêmicas de destaque na área de Comunicação. A cerimônia para a entrega será realizada em 4 de julho, no Encontro Anual da Compós 2023, em São Paulo.

Denominada "Comunicadoras Indígenas e a Descolonização das Imagens", a tese se Andrielle Mendes foi escolhida como a melhor defendida na área em 2022 em todo o Brasil. O trabalho que concedeu o título de doutora à premiada foi orientado pelo professor doutor Juciano de Sousa Lacerda, vice-coordenador do do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Mídia (PpgEM/UFRN). "Isso é de uma magnitude para nosso programa. Um reconhecimento ao conhecimento produzido”, declarou ele em material de divulgação do prêmio feito pela PpgEM.

A pesquisa mapeou estratégias usadas por comunicadoras indígenas brasileiras para propagar suas ideias e como essas narrativas ajudam a enfrentar estereótipos e racismo.

"Ao reivindicar a liberdade de escolher como querem ser vistas, as comunicadoras indígenas buscam se autodefinir a partir de um ponto de vista diferente do que costuma circular nos meios de comunicação.", explica a pesquisadora, detalhando que mídias diversas têm sido utilizadas para tentar "descontruir as imagens racistas e imperialistas propagadas a respeito dos povos originários e comunidades tradicionais, retratados pela mídia de massa como indivíduos e coletividades que devem ser mantidos sob tutela ou vigilância do Governo".

Metodologia

Andrielle inova ao propor a metodologia Catografia, que consiste em coletar grafias: "Cato vem de catar e grafia é outra forma de dizer palavra ou escrita. A matéria-prima principal são as narrativas das comunicadoras. Na tese, imagem e texto são sinônimos, já que as imagens podem ser tanto mentais, linguísticas e visuais."

Segundo ela, a abordagem metodológica é inspirada na prática social de catadoras e coletores oriundos de grupos sociais discriminados historicamente, como pessoas negras, em especial os quilombolas, e os povos indígenas.

"Embora tenha sido pensada para desinvisibilizar as narrativas de povos indígenas brasileiros, ela pode ser adaptada para visibilizar as narrativas de qualquer grupo historicamente discriminado que vise a sua autodeterminação através da apropriação da mídia com vistas a descolonizar as imagens. Essa foi a abordagem que eu criei para analisar o que as comunicadoras indígenas fazem para propagar as suas ideias (quais estratégias midiático-comunicacionais elas usam), que ideias elas ativam e colocam em circulação, e como essas narrativas ajudam a construir uma outra visão sobre o mundo.", detalhou.

Andrielle foi "catar" informações para elaborar a abordagem de sua pesquisa nas aldeias Katu, Marajó, Amarelão no Rio Grande do Norte, e Tracoeira e Alto do Tambá e na Baía da Traição/Paraíba. As comunicadoras entrevistadas foram Graça Graúna (RN), Aline Rochedo Pachamama (RJ) e Márcia Kambeba (AM).

A pesquisa propõe olhar a Comunicação considerando a diversidade social do Brasil, saberes e práticas de povos originários, como o povo Potiguara. Para a pesquisadora, o prêmio traz um pouco mais de visibilidade para o movimento indígena do Nordeste e do Rio Grande do Norte, único estado brasileiro sem terra indígena demarcada, em um momento em que as comunidades se sentem ameaçadas pelo esvaziamento do Ministério dos Povos Indígenas e avanço do projeto de lei que limita a demarcação de terras indígenas.

Foto: Tiago Aguiar

Retomada

Andrielle Mendes conta que sempre viveu na cidade e só passou a se autodeclarar indígena em 2020 depois de ser reconhecida como "parente" por outros indígenas. Na tese, lembra: "um pajé falou que a minha ascendência indígena era muito forte". Foi aí que iniciou o processo de retomada, investigando sua ascendência.

A mãe já se declarava indígena antes disso, mas Andrielle cresceu lendo e ouvindo que indígenas era quem vivia em aldeia e de caça e pesca. Pior: que eram preguiçosos e selvagens. Ela não era assim.

"Como muitos dos potiguares, eu cresci desconhecendo parte de minha história e sem vínculo com minha comunidade de origem. O que sei, até o momento, é que o meu avô materno nasceu em território ancestral do povo Potiguara (em Pirpirituba, na Paraíba) e meus avôs paternos nasceram em território ancestral do povo Janduí (Saco, hoje Itajá, e Sacramento, hoje Ipanguaçu, no Rio Grande do Norte)."

Ela também ressalta que nunca lhe apresentaram autores indígenas, nem na escola nem na universidade. E mesmo na academia, seguiu por muito tempo sem saber que existiam, indgenas pesquisadores, como ela. Diante dessa lacuna na bibliografia das escolas e universidades e do apagamento dos pesquisadores e cientistas indígenas na produção da ciência, decidiu cursar Pedagogia. Está no primeiro semestre da graduação da UFRN.

"É para contribuir com uma educação que leve em conta as questões étnico-raciais e cumpra o que determina a Lei nº 11.645, de 10 março de 2008, que torna obrigatório o estudo da história e cultura indígena e afro-brasileira nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio. Embora a lei não preveja a obrigatoriedade nos estabelecimentos de ensino superior para os cursos de formação de professores (licenciaturas), quero trazer essa discussão para dentro das instituições de ensino superior também.", revela.

As mais quentes do dia

Apoiar Saiba Mais

Pra quem deseja ajudar a fortalecer o debate público

QR Code

Ajude-nos a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

Este site utiliza cookies e solicita seus dados pessoais para melhorar sua experiência de navegação.