Na primeira semana de junho, tive a alegre oportunidade de participar das “III Jornadas Internacionales de Estudios sobre el Humor y lo Comico”, na Universidad de Buenos Aires. Com a participação, sobretudo, de pesquisadores da Argentina, do Chile e do Uruguai, o Brasil contou com as presenças de universidades como UFRN, UNICAMP, UFSCar, UFMG, UERJ e UFABC. Em 16 mesas de comunicações que abordaram os muitos atravessamentos pelos quais o humor se manifesta (política, literatura, teatro, cinema, artes, jornalismo), o foco do congresso foi tratar os diferentes modos com que, principalmente no mundo hiper midiático da contemporaneidade, o humor expressa relações de identificação e de cancelamento.
Na minha apresentação, tratei do “ridículo político”, um conceito apresentado pela filósofa Marcia Tiburi, e tomei como caso a produção de textos humorísticos (memes, charges, vídeos etc.) que tiveram como objeto de riso os manifestantes bolsonaristas acampados após o pleito de 2022 que elegeu Luís Inácio Lula como presidente. Como se sabe, logo depois do reconhecimento oficial da vitória de Lula em 30 de outubro, bolsonaristas mais radicais se mobilizaram em acampamentos em várias cidades do país, solicitando das Forças Armadas intervenção e anulação do resultado. Golpe, em suma. E foi nesse contexto que o contrassenso absurdo assinalado por Tiburi se instalou, gerando aquele sentimento em que a gente se divide entre lamentar e rir.

Evidentemente, as condições de possibilidade desses textos de humor são mais amplas, no que se destaca o fenômeno mundial de polarização em que se radicalizam as diferenças ideológicas, partidárias e mesmo territoriais. Mas, ainda que relacionado a um acontecimento discursivo preciso (os bolsonaristas acampados), os exemplos ilustram procedimentos antiquíssimos de linguagem humorística (ironias, exageros, subentendidos, parodias, estereótipos), bem como uma perspectiva de riso de superioridade, o que não se restringe de modo algum ao humor de um determinado segmento (lembro-me, por exemplo, das zombarias feitas a Lula em relação à cachaça ou à dicção).
O fato é que as produções discursivas que construíram para a figura do militante bolsonarista a representação de ridículo político não deixam de ser uma forma de embate e de exercício de poder, o que tantas vezes se realizou e se realiza por meio do humor. Que o digam as caricaturas de Pinochet ou Alfonsín, os desenhos feitos por presos políticos nas ditaturas sul-americanas, a produção gráfica contemporânea de/sobre mulheres ou os podcasts que abordam o caos na política de Brasília. Manifestações que demonstram como rir, desde as comédias de Aristófanes ou Marcial, na antiguidade grega, continua sendo, também, um ato de resistência.
E por falar em resistência, no final do congresso, passeando pelas ruas de Buenos Aires, admiro a condição da cidade de conciliar o passado e o presente. As propagandas em telas gigantescas da Avenida Corrientes convivem com as fachadas em Art Déco e, em cada esquina, um estêncil remete às abuelas da Plaza de Mayo. Respeito à memória, é o que a cidade proclama.

No friozinho portenho, vou zanzando pela cidade e lembro-me com saudades de Natal. Imediatamente, recordo os prédios caindo aos pedaços da velha Ribeira enquanto um prefeito finge ser escritor com pretensões a “imortal”.
Acho que isso dá uma charge.