Bia Crispim
Natal, RN 25 de abr 2024

Bia Crispim

16 de julho de 2023
5min
Bia Crispim

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Conheci a Bia em Caicó, há uns quatro anos. Estávamos em um evento literário e na ocasião, ela falou que terminava um livro de contos. Dois anos depois, os originais se transformariam na ótima coletânea “No horizonte tem chuva fiando” (CJA, 2022). Lembro de que, já na ocasião, ela me causou uma ótima impressão pelo jeito Cecília Meireles com que falava e gesticulava. A Bia é muito calma e cordial. Talvez isso (e o fato de que também escreva poemas) me fez pensar na autora de “A bailarina”, uma das minhas preferidas.

Com o passar do tempo, a profissão e a afinidade nos colocaram nos mesmos eventos, grupos de whatsApp, editora e encontros... pudemos nos conhecer melhor, partilhar recordações e impressões sobre como foi crescer no sertão e no litoral. Em uma ocasião, ela dormiu aqui em casa e passamos horas agradáveis nas cadeiras de balanço da área, recebendo o vento que vinha de Ponta Negra e trocando experiências - algumas muito tristes, outras felizes, outras ainda, hilárias.

Quando a Bia começou a publicar crônicas em um veículo de comunicação aqui do estado, considerei a oportunidade um desdobramento natural para a escritora que ela é. Além da desenvoltura como cronista, expressa em textos bem estruturados e instigantes, essa amiga apresenta em seus escritos, a defesa urgente, essencial e competente da comunidade LGBTQIAPN+. O assunto, que a atravessa não apenas como profissional das letras, mas, especialmente como mulher trans, era o principal tópico da sua coluna semanal.

Sendo uma autora comprometida com a vida e com a dignidade das pessoas, ela denunciou diversas situações inaceitáveis produzidas por uma parte da sociedade preocupada apenas com seu umbigo heteronormativo e suas crenças tradicionalistas. Claro que a Bia rejeita qualquer tentativa de censura, de relativização e de acobertamento da violência sofrida pela comunidade que tanto defende. Seria uma contradição, se ela abaixasse a cabeça para pessoas ou entidades que tentam calar sua voz.

E a trajetória dessa Escritora com E maiúsculo, não contempla contradições, porque no caso da Bia, a incongruência seria o equivalente a ajudar a apertar o gatilho de uma arma. As contradições dos cis, geralmente causam vergonha alheia. A de uma pessoa como Bia, com sua estatura e importância para as pautas que defende, alimentariam um monstro!

É revoltante saber que, ainda hoje, jornalistas fazem cara de paisagem diante das injustiças, das violências, dos horrores, que a dita sociedade civilizada sempre cometeu contra a comunidade LGBTQIAPN+. Para mim, um editor que se negue a publicar qualquer texto da Bia, dá a entender uma concordância com quem pretende anular as liberdades individuais que a escritora defende. A negativa sugere uma aliança com quem se arroga o direito de decidir como cada um deve viver sua vida. Então, da parte de um profissional assim, o que se percebe é uma inconformidade ética, que a Bia não admite em sua própria trajetória de vida.

O jornalismo, como a Literatura, pode libertar, defender, promover mudanças e salvar vidas. Quando a integridade física e psicológica de cidadãos corre risco, é óbvio que essas duas formas de comunicação devem fazer seu papel de denunciar, de responder (de modo contundente) a quem promove a violência. Então, quando uma agência de notícias não aceita que um dos seus articulistas combata a agressão que vitimiza inocentes, o que se infere é que pode ter feito um pacto com quem agride. E, claro, pessoas assim, são covardes ao ponto de não admitirem que escolheram seu lado na história.

Meu avô, José Trigueiro Filho, foi um policial militar que, em 1952, ousou se declarar comunista aqui no RN. Foi preso, torturado e quando voltou, antes de tentar se matar (porque estava emocionalmente destruído), escreveu: “Prefiro ser a flor toda esmagada, do que o pé cruel que pisa essa flor”. Vovô tinha orgulho de suas ideologias. E infelizmente pagou um preço muito alto por isso.

Escrevo esse texto porque as flores do mundo precisam de nós. Que sejamos os espinhos na carne dos que acham que podem agredir, humilhar, debochar, matar, excluir, e amordaçar pessoas, escolhas, estilos de vida, orientações afetivas e sexuais, identidades, cores, etnias, crenças e tudo o que signifique “liberdade de ser”.

Mulheres como Bia Crispim não vieram à vida à passeio. Elas têm um dom e esse dom vem atrelado a um destino. O destino de ser farol e luz. De guiar esse louco transatlântico chamado sociedade. De iluminar os pontos sombrios do oceano revolto em que vivemos. É uma incumbência difícil, mas Bia tem força e talento gigantes e se tiver apoio, colo e incentivo nos momentos complicados, inspirará todas, todes e todos os que tiverem o privilégio de lê-la.

Estou do seu lado, amiga... com os espinhos/palavras afiados e apontados.

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