Senhor não! Senhora!
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6 de julho de 2023
4min
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Por Sheyla de Azevedo 

Dar de cara com alguém que aparece na televisão é muito estranho. Especialmente quando é um artista. A primeira sensação que temos, ao ver aquela pessoa é nos apercebermos o quanto ela é "de carne e osso" como nós e isso causa um certo desconforto. Um espanto, talvez. No exercício do jornalismo, tive alguns desses encontros. E não, não pretendo que esse texto de volta ao mundo das letras após um longo silêncio seja alguma coisa que gire em torno de uma satisfação egoica de me auto-promover, aproveitando a notícia da morte de Zé Celso. Embora já que eu estou falando sobre ele justamente hoje, não descarte totalmente essa hipótese.

Foto: Sheyla de Azevedo
Foto: Sheyla de Azevedo

Onze anos atrás, estava eu compondo a equipe da Fundação José Augusto (FJA) e o convidado ilustre para as comemorações de aniversário do Teatro Alberto Maranhão era exatamente ele. Na época, escrevi sobre aquele encontro e disse: "estive bem perto do homem que nasceu numa cidade chamada Araraquara, em São Paulo, cujo significado é 'morada do sol'. Límpido e solar, José Celso Martinez Correa é daquelas pessoas que não passam despercebidas. Talvez seja pelos cabelos brancos, pela corpulência mezzo magra e alta, pelos típicos gestos de levantar os braços e gesticular muito enquanto fala; talvez por abrir e fechar os olhos, como se tivesse acabado de descobrir o mundo; talvez de descobrir uma nova faceta desse velho mundo. Ou, simplesmente, pelo que significa sua trajetória de quase 60 anos dedicados ao teatro, sendo ele um dos responsáveis pela criação (1958) de um grupo de teatro amador, quando ainda cursava Direito na USP, em São Paulo, e que depois veio a se tornar o atual Teatro Oficina Uzyna Uzona, oficialmente com 54 anos completos, contabilizando peças memoráveis no Brasil e no mundo". Bom, agora em 2023, no dia da notícia de sua morte, aos 86 anos, são exatos 65 anos de existência do Oficina.

E sigo reescrevendo o que disse naquela época, agora na conjugação dos mortos: embora Zé Celso não fosse uma dessas figurinhas fáceis de se ver na Televisão, ele sim era uma sumidade. E eu fiquei meio que estatelada ao estar diante dele. E logo percebi que a fama corrente de ficar nu no palco era fichinha. Não significava, nem encerrava o processo que o levou a ter essa atitude no palco, desprendida para alguns, desavergonhada e despropositada para outros.

Zé Celso não era um cara que quebrava qualquer tabu. Ele quebrava tudo! Deixava em cacos e estilhaços a hipocrisia, o medo, a vergonha, o conservadorismo. E estava muito longe de ser gratuito. Pensava, falava e fazia o que queria e o que gostava. Comia os padrões e cagava as convenções. E, convenhamos, para fazer isso é preciso ter um pouco de coragem e muita disposição de ser humano.

Ali, diante dele, fiquei um pouco ansiosa. Pelo risco de me deparar com uma atitude imprevisível dele, sempre disposto a ir além do convencional. Assim que chegou ao Teatro, ao ser interpelado por um dos repórteres e, ao ouvir o início de uma pergunta: “o que o senhor...”? Ele logo corrigiu de maneira enfática e irreverente: “senhor, não, senhora!”.

Gay. Velho. Ator. Diretor teatral. Exilado político. Tirador de roupa sim, e daí? Sua presença marcante era como se nos indagasse sempre “e daí?”. E não havia nessa atitude qualquer sombra de desprezo ou arrogância à caretice alheia, talvez uma certa pena. Ele só estava sendo ele mesmo. E sendo feliz assim. E isso não é pouco.

Naquela tarde de 7 de abril de 2012, a nudez de Zé Celso no palco do TAM, assim como a de algumas outras pessoas evocadas por ele dentro da enorme ciranda que se formou depois de sua fala sobre política, futebol, vinho, samba e, sobretudo sobre o amor ao teatro e à vida, foi a coisa mais natural e espontânea que eu vi em muito tempo. Ali naquela hora, tudo fazia um enorme sentido. E até agora continua fazendo.

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