Indígena do RN aprovada em Medicina em Rondônia tem matrícula cancelada e relata racismo institucional
Natal, RN 1 de mar 2024

Indígena do RN aprovada em Medicina em Rondônia tem matrícula cancelada e relata racismo institucional

19 de setembro de 2023
6min
Indígena do RN aprovada em Medicina em Rondônia tem matrícula cancelada e relata racismo institucional

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A estudante Vitória Barros, do povo indígena Tapuia Tarairiú, teve a matrícula em Medicina cancelada na Universidade Federal de Rondônia (UNIR) porque “não demonstrou vivência com a comunidade” e deixou “muita dúvida sobre o pertencimento”, mesmo com documentos de lideranças indígenas confirmando sua etnia e com um pedido de reconsideração da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).

Vitória tem 27 anos e faz parte da comunidade do Tapará, que fica entre Macaíba e São Gonçalo do Amarante, região metropolitana de Natal. Em maio deste ano, foi aprovada em Medicina na UNIR por meio da cota para indígenas. Realizou a entrevista com a banca de heteroidentificação ainda quando estava no RN, em junho, de modo remoto. Alguns dias se passaram e ela ainda não havia recebido a resposta da comissão responsável. Entrou em contato com a universidade, que disse que, como a matrícula estava homologada, deveria viajar logo para ver as aulas, marcadas para iniciar em 19 de junho. Com a ajuda da família, viajou com o pai, que a auxiliou nos primeiros dias, para Porto Velho-RO. Então os problemas se intensificaram.

“Pedi exoneração do meu emprego para me mudar e enquanto não havia viajado para Porto Velho, ainda fui assistindo aulas online pois esse modelo ainda é permitido na universidade. Comprei todo o material exigido pelos professores, pois na terceira semana já iniciaríamos nossas primeiras visitas técnicas, então eu precisei de jaleco, sapato branco impermeável, calças e blusas brancas, um gasto de mais de R$ 600 (sem contar as passagens que ultrapassaram os 3 mil reais)”, relatou a estudante, em uma publicação nas redes sociais.

No fim da segunda semana de aula, Vitória, já em outro estado, teve a matrícula cancelada e perdeu acesso ao sistema interno da universidade, o Sigaa. Ao ler as conclusões da comissão, diz que começou seu “pesadelo”.

“Os argumentos usados eram basicamente achismos e falas extremamente racistas”, reclama. “Fui acusada de usar maquiagem e dar chapinha no cabelo para ‘parecer indígena’ e que na verdade eu tinha ‘o cabelo bem cacheado’ nas redes sociais’”. 

Outro “choque” para a indígena foi uma observação em que a banca afirmava que ela tinha muito conhecimento sobre o povo, mas que sua vivência não estava comprovada e que parecia não ter contato com os anciões, incluindo seu avô.

“Mais uma vez, um monte de achismos”, afirmou Vitória.

Vitória faz parte da comunidade indígena Lagoa do Tapará (do Povo Indígena Tapuia Tarairius) | Foto: cedida

Em contato com a reportagem, a estudante rebateu os argumentos. Diz que não estava maquiada e nem de chapinha, e que não possui cabelo cacheado. Segundo ela, a identificação do indígena não é fenotípica, principalmente por conta da colonização.

“Como houve a invasão dos europeus, você dificilmente vai encontrar uma pessoa indígena que tenha uma aparência dita ‘pura’, especialmente no Nordeste que é onde começou a invasão. Então o que faz uma pessoa ser indígena ou não, não é a aparência dela, mas sim a ascendência e ancestralidade, o pertencimento dessa pessoa a um povo”, justificou.

Comprovações e apelo da Funai em vão

Dentre os documentos enviados pela potiguar do povo Tapuia Tarairiú para a UNIR, estava uma declaração de pertencimento indígena assinada por três lideranças da comunidade, que não foi suficiente para que ela tivesse a matrícula permitida. 

A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) também intermediou para que a universidade revisse a negativa. Em um ofício enviado à Pró-Reitoria de Cultura, Extensão e Assuntos Estudantis, o órgão pede a reconsideração do cancelamento da matrícula.

“Ressaltamos que se trata de estudante indígena, sendo assim, as comprovações de seu vínculo com a comunidade indígena Lagoa do Tapará (do Povo Indígena Tapuia Tarairius) foram demonstrados com a apresentação de sua autodeclaração e da declaração da sua comunidade indígena, contendo a assinatura de 03 (três) lideranças indígenas”, afirma o documento assinado pelo coordenador regional substituto Bruno Martins Dias. A UNIR nunca respondeu à Fundação, de acordo com Vitória.

Um mandado de segurança na Justiça contra a universidade também foi protocolado, sem sucesso.

“A liminar para que eu pudesse estudar foi negada, mesmo com tamanho racismo institucional escancarado e toda a documentação alegando meu pertencimento ao povo Tapuia Tarairiú. Nesse momento me vi sem chão, perdendo as forças”, diz o relato.

Estudante também enviou à universidade imagem sua durante a infância | Foto: cedida

“Nunca me senti tão atacada em toda a minha vida. Não apenas me tiraram o direito de estudar, como agrediram minha identidade e consequentemente meu povo. É como se eu não tivesse sequer o direito de ser quem eu sou, tudo isso por conta de uma ideia de ‘purismo’ étnico que sequer existe”, critica.

Ataques

Ainda na busca por reverter o processo, Vitória continua morando em Porto Velho, mas diz que não está sendo fácil. Barros tem depressão diagnosticada e afirma que os sintomas se intensificaram com os problemas recentes. 

À reportagem, também disse que sofreu ataques, mas que o apoio vem sendo muito maior. 

“Eu recebi alguns ataques de gente de fora, mas também de gente daqui de Rondônia. Inclusive uma pessoa questionou por que que eu vim estudar aqui, sendo que é direito de qualquer brasileiro estudar em qualquer universidade federal do Brasil”, aponta.

“Medicina é um curso muito difícil de entrar, então geralmente quem tá tentando entrar há muitos anos tenta várias universidade, e quando é chamado vê o que fica mais viável. Eu vim para cá, mas era algo que eu nem imaginava. Não estava nos meus planos, mas fui me inscrevendo, tirei nota boa, não consegui entrar na UFRN que era a minha primeira opção porque é perto de casa, mas passei aqui, conversei com minha família e vim. Então eu comecei a receber muitos ataques, mas eu considero até pequeno tendo em vista o apoio que eu tô recebendo, que tá sendo muito grande”, comenta.

Procuramos a Universidade Federal de Rondônia para comentar a situação de Vitória, as justificativas utilizadas pela banca e o porquê da universidade não ter respondido a Funai. Não recebemos resposta até a publicação desta matéria.

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